Kerouac VERSUS Guevara I

January 21st, 2009 by J D Oliveira

Um dia, um sujeito qualquer imaginou que pessoas poderiam voar por quilômetros, como pássaros. Com esse pensamento, passou a espalhar por aí a vontade de realizar a verdade disso. Dizem que Leonardo era um extraordinário inventor, mas acredito que não foi somente em 1515 que alguém tenha sonhado em voar. Todo mundo pode voar, porém, geralmente isso ocorre quando aprendemos a não cair nos abismos do caminho.

Hoje, um dia de céu triste e sem nuvens, um dia em que estaciono meu corpo e meu espírito na pequena janela do alto do avião, vejo com certo saudosismo as cidades do viejo mundo como miniaturas de tão pequenas, parecem borrões, às vezes desaparecem no horizonte-vertical. São pequenas porções de experiências humanas na natureza selvagem. Estradas, ferrovias, lagos, grandes construções, tudo se tornando ínfimo daqui de cima. As cidades são manchas no imenso e sensual corpo da Terra. Fico pensando nas mortes.  Camus morreu de carro, outros foram de navios, eu tenho certeza que o meu fim será no ar. Mas se não for também, tudo bem. Pelo menos hoje eu gostaria de sobreviver ao destino!

Sete meses afastado de Nova York faz a gente achar que não existe qualquer sinal dos Estados Unidos da América por aí. Minha estada nas terras estranhas do continente europeu me fez me afastar do sonho de crer em um papel libertário para o meu país.

Kennedy esta a perigo, essa história de guerra fria é uma verdadeira puta que fode tanto com nós como com o resto de todos. É um teatro dogmático em busca do poder físico das coisas.

Durante minha estadia procurei me afastar dos clássicos da família americana, como Londres e fui fundo na experiência: Paris. Andei por lá um bocado de tempo, em lugares interessantes, mas talvez, estranhos para os do outro lado do atlântico. Estive nos melhores dos meus dias e sabia falar francês. Isso me fazia agir sozinho por ali. Os outros “yankes” – editores, livreiros, poetas gordos - ficavam embolados com a língua de Mollière e acabavam se ajudando nas confusões lingüística, me deixando sozinho como eu queria. É claro que eu ia lá, dava força, traduzia aqui, ali. Mas na maioria das vezes eram coisas sujas e perversas que queriam saber falar. Achavam que para seduzir as putas tinham que saber falar gracinhas em frânces. Eram pequenos meninos esquecidos de que todas falam na mesma língua: dinheiro, ainda mais dólar americano. O editor Mike, homem sintético e com cinto na calça, queria falar sobre “verdades” no Moulin Rouge. Não mediu esforços. Em uma semana todo mundo já sabia do seu caso com um negro. A verdade realmente veio a tona! 

Numa das primeiras noites em que não fizemos uma festa ou eu não fiquei em casa puto, com dor de cabeça e de ressaca, fomos dar uma volta pelos subterrâneos. Os caras logo ficaram com as prostitutas e eu, que estava à procura de vampiras, fiquei mais no meu canto, observando com olhares românticos o lado bizarro de Paris. De repente, andando perto de uns inferninhos, me veio à cabeça de ter visto um daqueles líderes da tomada de Cuba andando pelos becos umbralinos da cidade de São Bartolomeu. Por coincidência, aquele vulto pareceu ter tido uma impressão parecida. Quando decidi voltar minha atenção, ele já estava com a mão em riste e me perguntando:

-  Kerouac - disse em um forte sotaque espanhol que logo me lembrou o deserto mexicano - oh! Sorry. My name´s Guevara. Are you a writer, hombre? Tentou consertar em um inglês de colegiais.

- Prazer, como é louco isso tudo. Arranhei em meu espanhol-mexicano.

Ele deu uma boa risada, eu também. Estava ao lado de um líder guerrilheiro latino que hoje é um chefe de estado. Já tinha ouvido falar que o sujeito era também médico, só não sabia bem se era brasileiro ou argentino. Rapidamente me lembrei que é hispânico, não pela cor ou pelos traços - que até parecem europeus, branco, alto, mas por que me lembro de que há poucos dias o vi numa foto. Era condecorado no Brasil pelo presidente daquele país, era anunciado com o argentino que libertaria a América dos “latifundiários e caudillos” que haviam arrancado a vida do seu povo através da exploração. Parece que isso foi uma boa oposição à posição fundamentalista da direita americana.

- Você sabe que vi uma foto sua num jornal outro dia, uma edição daqui mesmo da França.

- Ora, fotógrafos e espiões estão por toda a parte nos registrando. Me sinto dentro de um 1984. Só Orwell entenderia!

Que comentário feliz tinha feito o tal do “Che”, visionário mestiço que muito além de sua pátria, parecia um homem do mundo e de qualquer lugar.

- Eu entendo como é. A imprensa é uma incógnita, ela pode nos ameaçar de morte ou nos proteger como bebês.

- Imagino que por Habana circulará uma imprensa livre, mas somente daqui a alguns anos. Por ora precisamos saber o que se escreve na ilha.

Ele acendeu uma cigarrilha e começou a revirar algo em sua camisa e casacos, peças bastante simples como a de operários. E de dentro da própria roupa, tirou um livro. Não acreditei: En el camino. Ele subiu o livro e riu.

- É bem provável que poucas dessas coisas aconteçam por ai.

Passamos um bom tempo trocando idéias. Fomos a um bar e ficamos sentados ouvindo jazz e conversando sobre assuntos muito oportunos. Aquela noite em Paris parecia não estar acontecendo. Logo, algumas outras pessoas se aproximaram, principalmente, mulheres francesas loucas e diretas.

- Sabe, ele me disse, fico vendo como talvez só aqui nesse lugar, tão fora da sua como da minha origem, mas uma cultura de encontro de nossa vida, de nossa educação, só aqui seríamos sinceros uns com os outros como estamos o sendo agora.

- Tem razão. Muita razão aliás. Quando ouvia falar ou lia nos jornais da costa oeste sobre caras como você, eu sempre imaginava muita ignorância movida pela inveja dos senhorios.

- Tenho profunda irritação com os dos seu país. Vocês têm mania de falar liberdade da mesma forma como se pede papel higiênico. Tentei que vocês se aproximassem de nós, mas os interesses em nos ter como inimigos eram mais rentáveis para os cabeças do negócio. Cuba e a América Latina são puteiros-feudos da cultura da ganância e da falta de misericórdia e não seria agora que entregariam as coisas de bandejas para cara de cabelos grandes e barbas, para isto bastava os beatniks. Disse em um forte sotaque espanhol e misturando artigos franceses e verbos do inglês. Além disso, Che e seu cigarro ficaram rindo de sua piada, me deixando um pouco tenso. Esses são os malditos hippies, pensei. Mas resolvi ficar quieto e trocar de assunto.

- Também sou católico. Acho que é isso que salva toda a América Latina, desde o México até vocês. Mesmo que não se expresse apenas pelo cristianismo, a fé e a religiosidade são determinantes para que todos consigam sorrir para o dia seguinte e acreditar que uma luta amarga pela justiça pode render tempos melhores para os próximos, que são seus filhos, netos, amigos, vizinhos ou até mesmo você quando estiver mais velho. Nasci em uma família franco-canadense. Demorei algum tempo para conseguir falar inglês. Sei que esse lance de linguística é como aquele lance da psicanálise. Nós somos responsáveis por aquilo que nos ocorre e somos carregados de modos de ações preparados para a sociedade. O inglês é uma língua superficial, para que tudo seja dito e nada falado. É rápida, sem qualquer emoção muito gratuita. Já leu Freud?

- Essa eu conheço. Doutor Freud, muito dedicado. Sabia que o homem foi viciado em cocaína?

- É… já escutei essa história em alguma roda.

Esses não foram tempos tão difíceis, mas ficaram repletos de nostalgia. Ainda estão frescos na minha memória, mas logo, por força da minha própria incapacidade de memorar sensações de experiência espontânea, estarei sem as mesmas somas daqueles momentos e me deparei com a verdade do sonho americano, do norte. O avião irá pousar, Nova York pulsará novamente no meu sangue e eu vomitarei sobre a grande liberdade. Já o estou ao anotar e lembrar de um pequeno pedaço da minha alma que hoje já não consigo assegurar por onde anda no meu espírito. No caminho para casa vejo um negro e um latino serem espancados por policiais - alguns brancos e outros negros. Se eles entendessem como o comandante Che Guevara, perceberiam que todos somos um só. Não existem mais do que uma civilização, a humana. Não sei por que, mas Paris me lembra um pouco dessa possibilidade.

- Ey, K. o que fizestes no norte quando jovem, eu o fiz no sul.

- É, estamos nessa juntos!

- Todos estamos, compañero!

Sei que na América Latina, essa consciência pode ser mais forte, porém é muito enfraquecida no jogo de poder oficial. Sofrem suas injustiças pois não vêem a verdade apenas no acumular, ter poder, estar no topo. São fortes na intenção, firmes na fé e crentes numa possibilidade redentora para todos ou pelo menos para todos os que queiram se libertar. Eu, particularmente, acho que me prendi ainda mais à realidade. Estou me cansando da angústia incerta. Estamos caminhando para o fim de um era, eu vou me preparar para receber a Deusa e sei que ele também estará lá com todo o resto..

Kerouac VERSUS Dionísio

January 9th, 2009 by J D Oliveira

    Sempre achei engraçado que alguns homens se considerassem Deus. Naquela maldita noite eu tinha uma garrafa de vinho barato na minha mão esquerda e os peitos deliciosos de uma negra na direita. Sentia que em minhas veias pulsava o espírito de Dionísio, o deus duplamente fecundado: uma parte no ventre de sua mãe humana, Semele e outra, nas coxas de seu pai, Zeus. - o deus do céu e da terra E eu sou isso: uma mistura da merda humada com a sabedoria celestial, um enteal puro e errante e ultramente pobre de espírito - não tenho muito critério em escolher dias bons e dias fodidos, por isso, posso falar do sublime num instante e ser completamente baixo a seguir.
    Tinha sido um evento daqueles, mulheres, bebidas, drogas e tudo mais. Qualquer versão de sanidade da parte de alguém soaria como pura hipocrisia. Entretanto, havia uns bons sete meses que eu não me metia nem com mulheres, nem com álcool. Entretanto, naquele dia não teve jeito de escapar. Cai de cara na bebida e na sacanagem, incondicionalmente. Foda-se minha tentativa de iluminação, deixei meu satori para Paris.
    Hal veio com um papo de que na Grécia, Dionísio aparecia em qualquer um que de repente apresentasse, ao mesmo tempo, sabedoria e concupiscência. A maioria dos homens, como qualquer bicho, apenas pensa em trepar. Um ser assim, divino, além do sexo, sabe que tá ali para salvar a humanidade.
    Como em um ritual haitiano, o santo baixava e todo mundo sabia que ali estava o deus do vinho e da putaria. E o pior, todas as mulheres íam direto querer saber se a pulsão do escolhido era divina ou não. Não que isso tivesse acontecido comigo apenas naquele dia, mas já havia em alguns outros episódios - mas é claro que na América nenhuma ou quase nenhuma fêmea iria vir pra mim só por que tava pelado e de pinto endurecido. Era preciso sempre um papo formal, cheio de promessas e regado a uma indireta do tipo “sim, depois que gozar, apresento as alianças”, affff.
    No meu retiro espiritual consegui até me afastar da sagrada erva. Porém, naquele dia, alguma coisa - provavelmente Dionísio - soprou no meu ouvido e disse que seria como nos velhos tempos. Hal, como sempre, tinha um gigantesco pronto para a ocasião. Como todo mundo já estava entretido com outras coisas, acabou que eu tive que carborar tudo aquilo solitariamente e depois de mais de meio ano sem qualquer contato.
    E não é que a iluminação me veio. Percebi claramente todas as mazelas humanas e vi que o amor pelo próximo era a grande solução. Dizia chapado: “Foda-se a América! Tirem seus filhos da Coréia, essa luta é para os besouros, não para os homens iluminados”. E naquela noite devo ter enchido o saco de metade das pessoas que estavam ali e outra metade se afastou antes que eu pudesse fazer qualquer coisa. Falei sobre o Cristo, sobre como amava minha mãe, sobre como subir as montanhas ligava o espírito e de como era feliz de poder morar na terra da liberdade. Entretanto, depois de todo aquele papo de igreja , Dionísio se irritou com a minha conduta e insistiu para que eu caísse no mundo dos homens novamente. Queria mesmo ver se eu era macho e me fez querer ir em frente. Olhei para aquela garota negra, linda, desolada, perdida e drogada. A vi como uma espécie de virgem Maria do pós-guerra, uma grande oportunidade para uma nova humanidade.
    - Oi, disse.
    - E ai?!
    - Então… antes que acabasse a frase, minha braguilha já estava aberta e meu pinto à meia bomba para fora. Acho que era disso que a lenda de Dionísio dizia: sexo fácil e rápido, só era preciso interpretar o deus.
    Todavia não era isso. Eu ainda nem tinha bebido novamente. Ela, Rose, olhou para mim e disse:
    - Te observei a noite inteira. Não pense que isso aconteceu por que sou uma puta. Vi o que você disse, acredito em você. Nunca ouvi qualquer branco que pudesse entender tão bem o sofrimento de minha alma. Quis te recompensar com a verdade que havia dito. Quer um gole?
    Sete meses tinham se passado desde a última golada. Agora, já nem sei quanto tempo tem desde que isso ocorreu, a única coisa que eu me recordo é que desde então, não houve sequer um dia em que o álcool não desceu minha boca. E a maldita ainda me disse que isso era por que meu signo era de peixes e que nessa casa astrológica, os nativos tinham uma dupla identidade: ao mesmo tempo que se sentiam como deuses, desejavam em seus vícios como os homens.

Kerouac VERSUS Simone

December 26th, 2008 by J D Oliveira

    Já estava de saco cheio daquilo tudo - família reunida, todo mundo fingindo ser feliz, parentes que não se comprimentam, agora se olham como se nada tivesse ocorrido (na verdade, são tios que olham as pernas das sobrinhas e primos que combinam sacanagens com seus sorrisos), uma verdadeira depressão de natal.
    Na minha casa sempre foi diferente, somos católicos onde a maioria sempre foi protestante ou judeu. Para nós, o natal simbolizava a desgraça que nossa sociedade havia feito consigo mesma ao matar o Escolhido. Ficávamos ouvindo o Papa rezar do Vaticano e torcendo logo pela volta do Cordeiro, não aguentávamos mais esse mundo de perversões e maldades. Não que eles não tenham um natal - judeus e protestantes, mas se os do deserto tem seu feriado próprio e criaram o papai noel, para substituir Jesus , nós critãos estamos divididos em dois lados: os que se sentem feliz no natal e se contemporizam com o que vão ganhar de presente e os que verdadeiramente entendem em que burrada aquele menino foi se meter. E olha que a cada ano vejo os judeus nos seduzindo com o papai noel e os cristãos virem seu Deus encarnado sendo deixado de lado pelo homem do saco vermelho.
    Estamos em 1964, não é uma festa da minha família, é da família de uma amigo meu, filho de um rico industrial e cheio de tradições entupidas no rabo - nada católicas. A única coisa boa foi que contrataram Nina Simone para tocar pra gente o jingle bells. Fiquei um pouco incomodado de pensar que ela não poderia comemorar a virada para meia-noite - momento mágico, único e esperado por todos, pois nesse exato instante estaria trabalhando para os Ferrels, cantando alguma coisa natalina. Esse é um claro caso de divisão de classes, de preconceito racial: como uma negra na América vai poder adorar Cristo se não tem o que comer em casa? Um absurdo, é melhor que trabalhem para um branco em sua festa, afinal em anos vindouros, quem sabe ela arranja uma grana extra e não precisa vir trabalhar? Afff…
    Estou bem puto da vida, fumando igual um forno, dando grande tragadas, querendo logo que essa hora passe. De repente percebo que se não mexer meu traseiro do lugar, vou acabar me mijando ali mesmo, na frente de todo mundo. Levanto com certa rispidez e acabo deixando um copo se fragmentar no chão lustrado da casa. Logo, um dos cem mordomos aparece e me diz para deixar com ele. Ameaço botar a mão no bolso, mas ele insiste. Neste instante, me lembro da mijada e vou correndo para o hall de entrada da casa. Lá, vejo uma enorme escadaria que se divide em duas escolhas: a da direita e a da esquerda. Pensando na aristocracia, imagino que o banheiro deva ser algo de um canhoto, ali onde tudo de bom e de ruim acontece, as fodas inesperadas e as merdas defecadas. Dou sorte, subo a da esquerda e alguém passa e me confirma a quarta porta como sendo a correta. Para o meu desespero, a porra da porta está bastante fechada, tem alguém lá dentro. “Hey, hey, por favor, estou muito apertado, será que pode…” a porta se abre e uma negra bem bonita sorri para mim, é ela, é Nina e seu cabelo. “Oie, Jack… quanto tempo?”, não respondo, puxo o seu braço, a tiro da direção do banheiro, fecho a porta e antes que eu consiga tirar para fora, já estou meio mijado, mas pelo menos um pouco mais aliviado. Acabo que consigo despejar cerca de dois terços do que era inicialmente planejado, tudo bem, o problema agora era conseguir voltar para a festa sem que ninguém visse aquela mancha de urina perto do meu saco.
    Se ao menos Simone estivesse ali fora, mas imagino que ela tenha partido puta da vida. Mais uma vez sou surpreendido e não é que a negra me espera com um cigarro. “Você não foi mal o suficiente para me fazer ir embora.” É mesmo, respondo meio tenso e meio achando aquilo interessante. “Não, seu escritorzinho deprê - disse puta da vida, eu esqueci minha bolsa na porra do banheiro, me dá licença!” E tal como eu fizera, dessa vez é ela quem me arremessa para fora do caminho e entra batendo a porta. Depois daquilo, ainda com as calças me denunciando, fui investigar alguns quartos e acabei encontrando um suéter de rico. Coloquei em volta da minha cintura e fui lá para fora.  Quando cheguei no jardim, Simone já estava encantando a todos, trazendo a noite de natal para os cristãos, ricos, de direita e brancos da América.

Kerouac VERSUS King Jr.

December 12th, 2008 by J D Oliveira

Eis que um negro forte vem andando em minha direção e parece furioso. Suas passadas são largas, ele está a mais de cem metros da mesa que eu ocupo. Vem concentrado, cabeça baixa e o tempo toda sendo jogada para um lado e para outro, grandes passadas, pisadas fortes. E vem dizendo consigo mesmo algumas palavras, frases, salmos em voz baixa e focada. Eu estou bêbado e solitário em um canto do Brooklin, um buraco freqüentado por negros e latinos, o lugar ideal para quem ainda curte a parada de verdade. A vida por aqui não é mais beatífica como antes, precisamos ficar descobrindo momentos como esse, lugares como o Moe´s ou pardieiros ainda mais obscuros, onde a luz não penetra confortavelmente – eis a busca beat, flor de lótus no lamaçal.

Esse sujeito que vem andando parece que irá me dar a maior bronca da história. Sua imagem é intimidadora, ele já está com a razão, aliás, deve estar mesmo com razão. Só eu mesmo que não  sei qual é a dele. De repente, o sujeito levanta o dedo e começa a falar como um louco que eu estava transformando tudo num oásis do demônio, que eu tinha desrespeitado Senhor Jesus Cristo, que eu era um aliado dos infernos e que espalharia a praga sobre os Estados Unidos. Esperei que ele terminasse sua fala, mas o danado do negão ficava falando, pregando, exorcizando. Nunca vi tanta fé na espiritualidade - ou talvez ele fosse um feiticeiro ou um xamã que para nós, leigos, quando os vemos com suas bíblias debaixo do braço e ouvimos seus cânticos e agradecimentos pelos cantos da cidade, achamos que estes são apenas crentes em busca de gado e grana.

Todavia, eu não quis me esforçar nem um pouco para poder dizer alguma coisa para aquele sujeito, Achei que aquilo tudo era muito deselegante e por alguns instantes imaginei se aquilo não era alucinação de bebida. Mas ele continuava e falava e eu ouvia. “Senhor K, você é o responsável direto pelos pecados que estes jovens estão cometendo. Quando me falaram que você estaria por aqui, não tive qualquer medo ou temor, vim com Deus ao meu lado e vim falar com você que sujeitos como você irão ser banidos quando vier o Elias”. Oh meu Deus, pensei, o que fui arrumar para esse cara ficar assim tão furioso. Imagino que sua filha deve ter fugido de casa com algum fã de Neal Cassady ou coisa parecida. Além de terem acabado com tudo que fosse beat, ainda me culpam pela desgraça em suas famílias.

De repente, um outro negro, agora com suavidade em suas expressões, se aproximou de nós. Sua voz era macia e seus olhos transmitiam certa pacificação. “Hey, amigo, não liga para ele, está exaltado, acaba de perder o filho”. Tudo bem, respondo, só queria um pouco de educação da parte dele. Apesar da chegada do amigo, o homem furioso ainda continuava a movimentar loucamente sua bíblia e a gritar para espantar os demônios. Se ele fosse um padre católico já tinha me jogado água benta na certa. “Meu nome é Marty, pastor King, prazer.” Pelo jeito você sabe quem eu sou, mas tudo bem, meu nome é Jack, demônio K. Ele riu. O outro havia parado de dar seu show histérico e agora chorava no ombro de uma “irmã” que veio em seu socorro. Senhor King, eu não sei o que eu fiz, mas lhe digo que estou muito longe do inferno, pelo menos daquele que fica nas profundezas, por que, neste, o da vida real e absurda, eu sou o seu mensageiro, ah isso eu sou, mas tenho certeza de que trouxe muito mais coisas beatíficas do que desordem e loucuras. “Tudo bem, K, disse King, os caminhos para a vida eterna são vários, cada um produz a própria senda, não há como lhe culpar de nada, realmente, ele estava muito emocionado.”

Eu gostei daquele sujeito. Ele me explicou com o seu sotaque sulista, algumas coisas, digamos … sobre a sociologia espiritual, disse que era preciso unir a América em torno do espírito de liberdade e da Verdade, mas que todos deviam ter direito a isso e todos deveriam trabalhar por isso, incessantemente. Não apenas os brancos, cristãos, adultos, mas negros, crianças, mulheres, velhos e mesmo os homossexuais e alcoólatras, “somos todos irmãos, fazemos parte da mesma família. A cor da pele e a origem são meros detalhes que temos que lidar nesta vida, eles não dizem a verdade”. Entendo, afirmei com a cabeça, isso me lembrou muito alguns ensinamentos orientais, acho que talvez seja isso mesmo, quando eu tentei dizer alguma coisa para esse bando de estrumes que são a maioria das pessoas que não querem pensar, disse com os meus escritos, que não importa a viagem ou quem é o viajante, o que importa é o caminho e se há alguém em trânsito. Qualquer roupa que eu vista é apenas pano, um pano diferente para cada dia, um corpo diferente para cada vida. É tudo transitório mesmo! Dessa vez fui eu mesmo quem se exaltou. Não sei se ele concordou com o que eu disse, acho que não iria acreditar em reencarnação, destino, mas pelo menos respeitou minhas palavras e se despediu, foi em auxilio ao amigo. Homens como esse que fazem a América. Porém a hipocrisia e a pequenez ocidental nunca irão deixar sua voz ser ouvida. Duvido que haverá dia sobre essa terra em que um negro terá força e suavidade para falar aos nossos ouvidos e nós, de bom grado, prestaremos atenção ao seu discurso.

Kerouac VERSUS Morrison

December 1st, 2008 by J D Oliveira

A nossa cabeça é completamente caótica, uma enorme pilha de contradições. Tem dia em que acordamos e achamos tudo bonito, sublime, qualquer aporrinhação é relevada com um sorriso, até mesmo os garotos chatos da rua são apenas meninos se divertindo com o gato. Todavia, existem aqueles dias em que parece que Deus pregou uma tacha descendo dentro da nossa cabeça. Os olhos ficam quentes e qualquer distúrbio à individualidade ou vontade é motivo para mandar todo mundo se danar. Até mesmo em ocasiões favoráveis ao sujeito, quem acorda assim acaba arrumando confusão. Uma vez vi um homem ser banido de uma fila de esfomeados por que não entendeu que era a sua vez de pegar a comida. Era bem cedo e o cara tinha dormido ali mesmo, desde a noite anterior. Encheu tanto o saco dos voluntários que acabou levando um pé na bunda e ficou com a barriga vazia mais um tempo. Nossa maneira de agir na realidade, usando o instinto como guia inicial, não tem qualquer fundamento à priori, é só ação, sentimento e emoção. Um ou outro mais esperto consegue se controlar melhor, mas a maioria age no impulso e só depois (às vezes) consegue medir o tamanho da burrada que fez. Eu sou um desses sujeitos que só pensam muito depois do ocorrido, mas o pior é que o peso e a culpa no silêncio da minha resignação me pesam demais e eu acabo me entregando ao arrependimento e à dor da inconstância. Porém se há uma coisa de que eu nunca me arrependi foi de tentar trilhar uma carreira de escritor. Nunca houve qualquer razão para me afastar desta idéia. É claro que encontrei inúmeras dificuldades e várias incoerências pelo caminho, mas nada que me deixasse desanimado de poder narrar aos outros o meu pensamento, a minha vida e a vida e os pensamentos das pessoas para elas mesmas.
Cotidianamente um bando de gente chata - geralmente da imprensa ou especialistas (bahh, especialistas… e alguns dizem que são especialistas em mim, ha ha ha…), que tenta me importunar fica me perguntando por que eu não participo dos movimentos jovens, das questões culturais, do repúdio à guerra etc e tal, querem saber por que abandonei meu caminho, meu discurso. Dizem que eu não sou mais aquele Jack, nem perto de Sad Paradise estou mais. Dizem que sou apenas um homem triste e bêbado que não responde a nada sem estar exaltado. A maioria que pensa assim está com toda a razão, eu me cago para tudo isso que construíram em cima de mim, estou mesmo na sarjeta cultural da América. Prefiro muito mais uma noite alucinando do que ficar parada na frente de um holofote para todo mundo ficar me consumindo como se eu fosse um enlatado. Agora, o que não me chateia nisso tudo é ver alguns caras interessantes, desconhecidos, criados com o espírito beat, que cresceram em vários cantos desse país influenciados pelos poemas de Allen, Corso, pelas possibilidades de Dean Moriarty, pelo o que pude lhes ter mostrado sobre o deserto, o México, as drogas, as putas e as estradas, os vagabundos e os trilhos sujos das ferrovias, tudo isso que muita gente sempre achou que só existisse no inferno ou na casa do outro ou que fosse algo muito estúpido ou vazio. Nós buscamos a iluminação em cada partícula de nossa vida e alguns desses que se criaram com o nosso alimento puderam também se perceber sendo alimentado por este pó especial. Apesar de achar essa coisa de paz e amor uma tremenda babaquice, não pela paz ou pelo amor, mas pela maneira como tentam vender a coisa, esses meninos só querem ficar chapados (não que eu não quisesse) e fugir de seus problemas na escola e em casa, eles não são vagabundos, muito menos iluminados, são apenas garotos querendo um pouco de atenção.

Kerouac VERSUS Watts

November 1st, 2008 by J D Oliveira

            Estávamos de mudança. Deus havia nos permitido encontrar um novo caminho para a nossa vida. Meu pai, combalido e num estágio avançado da doença, conseguiu um empréstimo com um parente e esperávamos o caminhão Ford de Ned Sander parar na frente da nossa casa. Íamos saindo de Lowell, deixando para trás cerca de mais de duzentos anos de história. Entretanto, a pobreza corrói o espírito e transforma o corpo em um lar de desespero. O homem falido deixa os hábitos e a sujeira ocupa suas feições. A barba cresce, os olhos passam a procurar o vazio, a coluna arria. Era outubro e o outono abriu meu coração, jorrando lágrimas de palavras sobre a tábua da vida.

            Enquanto ouvia discretamente a chuva cair e o silêncio ocupar a paisagem, percebi que a porra do Sander estava atrasado. Meu pai tinha feito a barba, penteado o cabelo e usava o seu melhor traje. Queria sair dos limites da cidade de forma digna, sem que se sentisse um “derrotado pelas coisas”. Mas que merda! Pensei em gritar: Pai, cadê aquele animal? Mas logo vi que essa raiva não era para o homem que se esquecera do compromisso. Percebi que o ódio era da mudança, da urgência da vida e da dependência moral e econômica dos cidadãos da América. Seria uma agressão ao meu velho e sacrificado pai, não um desabafo contra o outro, mas um tiro no meu próprio peito.

            Numa das caixas, um livro me chamou a atenção. Era mais um das coleções loucas de minha mãe, uma católica que vertia para um lado mais esotérico e místico da crença. Ela sempre apresentou uma sabedoria unificada a superstições, uma mistura que também me cativou. O título da edição eu não me recordo, lembro-me da capa, bem bonita, uma santa talhada, uma verdadeira obra prima da iconografia cristã. Ele devia ser muito velho, deve ter pertencido a algum parente distante. Ao me aproximar para pegar o livro, um outro título, por baixo desse, estava ainda embrulhado. Mãe que livro é esse, perguntei. Ganhei da Beth, Jean, acho que sobre um estudo de orientalismo, não me recordo o autor, disse ao mesmo tempo em que soltou um suspiro de impaciência, seguido de um olhar para a tristeza de meu pai. Desviei minhas vistas da desgraça e logo me interessei pelo conteúdo daquele objeto. Quem sabe ele não tiraria minha atenção daquele momento e me levaria para o jardim secreto?

            Rapidamente tirei o papel pardo que o cobria. Era um livro chamado “O espírito do Zen”, de Alan Watts. Nunca tinha ouvido falar do nome, mas já conhecia um pouco do assunto. Um outro Allan me apresentou algumas lições dadas pelos patriarcas e me explicara sobre a diferença entre o budismo mahayana e o hyrayna, o grande e o pequeno veículo. Explicação essa que tinha ido mesmo para o meu espírito, para o meu inconsciente. Só me lembrava do nome sagrado Sunyata, o nosso estado atual em que estamos todos separados, vazios. Então, abri ao esmo as páginas, encontrei de cara alguns versos para Pu Tai, o Deus da fortuna, que diziam sobre vacas que pastavam em nossos domínios:

Nunca deixem que te afastem/ Do chicote e da corda/Pois, caso contrário, ela fugirá para um mundo profano/ Quando ela for adequadamente domada,/Crescerá pura e dócil/ E mesmo sem cordas, e sem nada que a prenda/ Seguir-te-à espontaneamente

            Muito antes de acreditar ser um poema que incentive a violência contra o pobre rebanho, tive a intuição de que a vaca representava uma espécie de recompensa, de alimento. Para alcançá-lo é preciso que dominemos nossos instintos e continuemos com o esforço de educar nossas ações. Quando estivéssemos maduros, aquilo que nos é primário e necessário estaria em nós sem que percebêssemos. Todavia, não estaríamos presos a eles, não necessitaríamos contar os níqueis na carteira, nem lembraríamos de que existem bolsos, pois não pensaríamos neste acordo rasteiro chamado dinheiro.

            Ned demorou mais alguns minutos para chegar fazendo barulho e jorrando fumaça sobre nós. Nos mudamos para Nova York, Ozone Park, um bairro operário, cinza, triste, mas pelo menos podíamos nos esconder do frio. Apesar de tudo, da morte de meu pai, das grandes noites de insônia, do longo caminho aos bons lugares da grande maça, foi naquele pequeno apartamento que tive as minhas verdadeiras experiências búdicas. Foi ali em meio ao silencia e à angústia que a força do cristo se uniu ao contemplar de Gautama. Percebi que os dois eram um só e que eu e todos nós também somos eles. Escrevi ali os meus livros e iniciei a minha retomada dali mesmo. Minhas viagens foram feitas a partir dali, assim como minhas amizades, loucuras e amores. E foi naquela vizinhança que Buda se virou pra mim e me cumprimentou. Olha, meu nome é Alan, sou pesquisador e fiquei muito interessado na maneira como escreve. Era alguém ao interfone. Onde conseguiu meu endereço, perguntei. Como disse, sou um pesquisador. Leciono em faculdades, conheço os beats. Tudo bem, pode entrar.

Ele devia ser um pouco mais velho do que eu, uns oito anos, já devia estar quase com quarenta, barba farta, cabelos pretos, mas se encaminhando para o grisalho, sotaque inglês. Entretanto, não se vestia como um inglês. Pensei até que se tratava de alguém da Austrália, cheio de cordões, sua blusa e calça, largas. Gostei de cara do sujeito.

- J. estudo o budismo há muito tempo e sempre vi dois tipos de textos. O considerado sagrado, protegido pelos patriarcas, contendo explicações doutrinárias, questões de lógicas morais e muitos, digamos, enigmas para o homem que não está acostumado a cultura do Oriente - tomou um trago de água e olhou para dentro da própria mente.

- Sei, prossiga…

- O outro tipo são pessoas como eu, que pegaram esses ensinamentos e escreveram racionalmente, tentando interpretar e racionalizar em cima das propostas do budismo e muito também sobre a sua história e contexto social. A questão é que eu nunca havia visto alguém escrever sobre o estado de iluminação dentro da própria literatura, sem necessariamente escrever: estou escrevendo a partir de pensamentos budistas. O tom que demonstra com seus personagens é impressionante búdico. Eles estão todos sobrecarregados de passagens, de idas e vindas sobre o vazio. A vida não é colocada como um fim, mas um meio, uma passagem para que se conquiste a liberdade.

Abro um sorriso, feliz por ter sido reconhecido, mas ainda mais alegre pois realmente senti algo naquele homem. Além disso, estava, justamente naqueles dias, acabando de dar os últimos retoques em meu terceiro título, “Vagabundos Iluminados” (Dharma Bums). Eram lembranças e vivências de um tempo em que considerava a iluminação como a minha principal causa, uma época em que o Zen e o Tao regulavam meus costumes.

- Sabe senhor Watts, eu tive um companheiro de viagem que me ajudou muito. Ele me mostrou sua coleção inteira de haikais e me deu lições básicas de mandarim. Entretanto ele foi para o Japão. Tenho algumas páginas do livro que conto um pouco do tempo em que escalávamos montanhas para sentir a vida em sua extrema transformação,  senhor gostaria de fazer uma leitura?

- Não, acho que vou esperar que publiquem. Vim mesmo para olhar sua fortuna.

E na simplicidade de um grande iluminado, pediu licença, agradeceu o papo e a oferta e me desejou paz e equilíbrio.

Alguns anos depois, esse meu amigo que estava para o Japão não aprovou muito do que escrevi. Sua busca por iluminação passava por um silêncio radical sobre a própria experiência. Até entendo esse isolamento, porém, não teria como ter contado sobre as minhas transformações se ele não estivesse por perto. Seu vigor e sua sabedoria foram fundamentais para o processo. Fiquei isolado da humanidade por três meses pela força que ele me passou e agradeço a Deus por ter vivido a angústia do vazio.

Saiba mais sobre Allan Watts e o Zen

Kerouac VERSUS Van Gogh

October 17th, 2008 by J D Oliveira

    Tive mais um daqueles sonhos loucos. Entrei em uma dimensão psíquica que nunca havia experimentado ou pelo menos, há muito não chegava perto. O dia não tinha sido lá muito produtivo, estava por conta apenas de curtir o frio do outono em Ozone Park. Tentei escrever alguma coisa, li umas duas ou três linhas de Proust e nenhuma ideal genial veio até mim. A única diferença para o resto dos outros dias foi que a monotonia me fez ir para a cama mais cedo. Meu corpo não estava cansado, mas sentia certo prazer ao esticar minhas costas no colchão, aquela coisa do dolorido que dá uma sensação agradável. Fiquei capitaneando meus pensamentos durante um bom tempo e de repente, no meio de um lapso ou outro, acabei por entrar em um cenário diferente do daquele quarto. Demorei um pouco para perceber que estava tendo um sonho lúcido.

    Pelo que eu entendo, estar consciente no mundo onírico é poder comandar certas coisas que geralmente nosso inconsciente cria. Durante muito tempo, depois que acordava, ficava imaginando que se estivesse acordado num sonho e tomando as rédeas da situação em minhas mãos, gostaria de experimentar a morte, por exemplo, para ver o que aconteceria. Assim, se de repente me lembrasse disso num sonho, tentaria pular de um prédio ou coisa parecida. Todavia, nunca consegui ter essa consciência dormindo, sempre lembrava disso só quando acordava. Bom, de qualquer forma, esse não é o meu objetivo aqui.
    Estava em uma via, uma estrada de chão cercada de um campo bem bonito. Pela cor do céu, tive a certeza de não estar na América, parecia muito com o mediterrâneo. Achei aquilo um pouco confuso, pois em minha consciência, sabia que estávamos passando pelo outono, tanto aqui, quanto lá. Acho que, por pensar nisso, o céu foi se transformando e parecia que uma tempestade fudida iria cair dali um tempo. Além das nuvens pretas, um vento terrível começou a soprar, indicando uma baita chuva.
    Pensei comigo, “po, bem que podia ter uma casa aqui perto” e de repente, um casebre apareceu no horizonte. Ele estava no meio de um campo de flores lindas, mas que estavam um pouco apagadas por conta do cinza que imperava no céu. Apertei o passo em direção ao local na esperança de poder me abrigar por ali. Não foi minha surpresa quando vi um homem, nem alto, nem baixo, correndo também em direção à cabana. Com uma mão o sujeito segurava seu chapéu, com a outra, uma espécie de tela de madeira.

    A chuva começou a cair e fiquei espantado com o tamanho, a grossura e, principalmente, a cor das gotas. Elas não eram feitas de água pura, pareciam  misturadas com tintas. Elas batiam em meu corpo e minha roupa ficava manchada de azul, verde, rosa, amarelo. Corri com todas as minhas forças e consegui alcançar a construção. A pessoa já tinha entrado e por isso, tomei cuidado para não assustá-lo. “Olá, alguém em casa?” Sim, amigo, respondeu uma voz masculina, pode entrar e se proteger da tempestade aqui dentro. Aquilo ali parecia uma espécie de atelier, equipamentos, ferramentas, brochas, tintas, telas espalhadas. Fiquei contente e senti um ar agradável ali dentro. No final do cômodo único, o homem que havia me respondido estava a acender uma lamparina.
    - Então, você é um estrangeiro?
    - Sim. Quer dizer, aqui não é a América, é?
    - Não, é óbvio - percebi que falávamos em francês, quando finalmente conseguiu que o fogo pegasse. Ele percebeu minha reação ao reconhecê-lo.
    - O que foi estrangeiro, usou do desdém, por acaso vês uma aberração?
    - Não, muito pelo contrário.
    - Então, o que lhe espantou?
    - Van Gogh… você é o Van Gogh. Não acredito que eu tõ na frente do Van Gogh.
    - Por sinal, este é um sobrenome que já ouvi dizer, de grandes negociadores de arte. Todavia, não conheço nenhum Van Toth que viva aqui no sul.
    - Vincent, falei. Abri meus braços emocionado esperando o seu abraço. Ele me olhou de forma estranha, arregalando os olhos e se afastou rapidamente. “Insisto que o senhor deve estar enganado. Em Arles não existe esse tipo de gente mais.
    - Mas como não - joguei meus braços ao ar e virei meu rosto para trás em uma expressão de descontemanto bem dramática. Olhe você, viro o meu corpo para o breu e faço como se olhasse para a minha platéia, como se eu estivesse em um espetáculo: Vincent Van Gogh, o maior pintor de todos os tempos, relegado ao anonimato por mero capricho do Dharma. Escrevo esta última frase no ar, paro, deixo o meu discurso, admiro ingenuamente o homem manipular plantas dentro do cômodo e fico pensando que eu, naquele quarto em Ozone Park, era muito pouco diante da oportunidade de se viver na natureza, na vida selvagem. Por que não olhar para atrás e simplesmente ir para frente? Por que não interromper o circuito natural dos acontecimentos? Simples, seria se todos soubessem que viver não é nada. É um instante, um instante que acontece o tempo todo.
    - Vincent nunca estaria cuidando de plantas, disse virando-se de costas pra mim. Ele gostava de cultivá-las em seu espírito, na tela. Sua paixão eram as cores, não onde elas estavam empregadas.
    - Ah, pare! Chega! Eu conheço seu rosto, um pouco de sua obra e sobre sua vida quase toda. Estamos em Arles, provavelmente, entre 1888 e 1890. Deixe me ver, levante a lamparina para próximo de suas orelhas.
    A tocha foi vagarosamente iluminando o seu rosto e de repente, pude ver que suas orelhas estavam até normais. Aliás, parecia que ele ainda usava algum tipo de acessório na cartilagem. Uma peça de madeira que fazia um arco, passando por um buraco, como um brinco para mulheres. “Que louco”, pensei. Estou numa dimensão do passado, junto com Van Gogh, em Arles, mas antes de sua loucura e autoflagelação. Era provável que estivesse a espera de seu camarada Gauguin, que pela história, chegaria lá por volta de outubro de 1889.
    - Não, não, gesticulo com a cabeça, você está esperando seu amigo Gauguin, antes do incidente.
    - Olhe, estou achando esse papo muito divertido, mas a chuva acabou e eu acho que está na hora de eu poder voltar para os meus estudos. Aqui é como um relógio, chuve em três ocasiões no ano e hoje, estamos em um desses dias. Estava a procura de enxergar uma tela sob a lente de um céu escuro, tenebroso, intimidador. Queria saber o que poderia construir com a natureza depondo ali, contra mim. Este momento em minha vida é um sonho, um sonho.
    - Claro, tem razão.
    - Nããão, você não entende. É a ausência, a sua insignificância - ele era realmente pirado, pensei. Você não me conhece, nunca me viu e ainda me confunde com outro. És um infâme. Irei ligar ao padre a fim de que providencia a cocheira e te leve para Chateâu Louis, lá os médicos poderão cuidar do seu estado mental.
    Já estava cansado daquela paranóia de quem não quer ser descoberto. “Me mostra um quadro seu!?” Ele vasculhou em uma pilha de panos - a luz já havia voltado e as janelas podiam ser abertas, pois não tínhamos mais a chuva. Achei, avisou. Quando pude ver a obra fiquei mais do que estupefado. Era o próprio retrato, o auto-retrato de Vincent: seus cabelos longos, sua tez morena, seus olhos escuros… não, aquele homem não era Van Gogh… era Gauguin!

Kerouac VERSUS Sinatra

October 2nd, 2008 by J D Oliveira

Chego em um bar no Brooklyn e para o meu espanto, um sujeito dos mais conhecidos e queridinhos esta de porre e completamente alucinado. Balbuciava um nome curto a cada doze segundos – acabei marcando o tempo para ter certeza de que era um tipo crônico de loucura. O ritual era o mesmo, olhar perdido, boca murchando, palavra curta saindo, olhar caído, uma golada, olhar perdido, boca murchando… O balconista, como todos os barmans da América, divertia-se com aquela estrela alcoolizada. Ele me viu olhando para o sujeito e logo emendou, “cara, esse homem não é mais nada. Ele acabou de ser chutado da cama mais cobiça do país, ninguém quer mais ouvi-lo cantar e toda vez que abre a boca é para dizer alguma coisa triste e melancólica”.

Na hora me lembrei dele em início de carreira, um sucesso com as adolescentes, um fenômeno nas rádios e agora, uma grande estrela do cinema. Ficava bem puto quando as emissoras da costa oeste deixavam de transmitir programas de jazz em função da porra da audiência em cima desse sujeito. Bom, pensei, se o clima é esse, também vou arrumar o meu umbral e me acabar. Estava com o meu rolo na bolsa e queria discutir comigo mesmo algumas questões apresentadas por um editor ordinário que queria mudar O Livro quase todo por completo. Um bosta!

Peço um gim, eles me servem. No meu primeiro gole, um estupendo barulho invade o estabelecimento. Três gorilas e um baixinho fazem o cortejo de um daqueles italianos com pau minúsculo que dominam tudo, deste a política às putas que se deitam com os políticos, dos jogos às benfeitorias sociais. O cara, também bem pequeno, metido naquela roupa clássica da época da lei seca, chapéu, terno e colete – só faltando a metralhadora a la Al Capone, cortou o caminho pelo meio dos capangas e interrompeu o ritual do astro atordoado. Meteu a mão em seu ombro, dando-lhe um forte tapa:

- O seu filho da puta, italianos com colhões não choram por causa de vagabungas!

Frank olhou para o lado com desdém e tomou mais um trago. “Anda, reage, porra!”

- Sam, Ava… Ava Gardner, a mulher mais linda da América…

- Cala essa boca! Você arrumou a maior confusão com aquela vadia e ainda fica chorando por Nova York inteira. E o pior, já tem dois anos que você nem sente o cheiro dessa mulher. Anda rapazes, tirem esse bêbado do balcão que ele tá precisando de encontrar uma cona de verdade.

- Ei, ei – mesmo tentando reagir, Sinatra não foi capaz de impedir de ser removido do balcão pelos gorilas do mafioso. Sam Giancana ainda passou a mão no dinheiro e deu uma espécie de cala boca para o funcionário do bar que, ironicamente, sorriu para o italiano e disse que não tinha servido nenhuma dose naquele dia ainda.

Sem forças, o cantor-ator foi arrastado pelo resto do bar e saiu levado pela tropa. Por suposta ironia, sua voz voltou ao ambiente, tocava no aparelho de rádio uma de suas mais melancólicas canções que dizia sobre o homem sóbrio que por descuido havia perdido o seu amor para a guerra. E no cinema em frente, estreava mais um de seus filmes: Armadilha amorosa.

Eu em minha própria armadilha, dei as costas para o ocorrido e continuei a pensar em como dobrar o puto do editor que queria acabar com o meu romance com a vida, deturpando minhas palavras e jogando meu espírito para o canto escuro da solidão.

Kerouac VERSUS Bukowski

September 12th, 2008 by J D Oliveira



    Na América, quando você acha que é o único que está percebendo alguma coisa, se sente como se fosse um rei. As mulheres deixam de ser misteriosas, as ruas são iluminadas por cada passada que damos e qualquer fodão que aparece na sua frente se transforma num verdadeiro otário. Todavia, quando você descobre que tem um monte de maluco pensando da mesma forma, de duas uma, ou você pira de vez e se entrega ao deserto, ou então se alia a eles.
    Em fevereiro de 53 estava completamente duro e muito longe de qualquer lugar seguro. No meio do Colorado e fugindo alucinado de Denver - alguém disse a alguém que eu estava tendo encontros com a garota de outro alguém. Esse último alguém resolveu fazer a prova dos nove e acabou acertando o resultado: me pegou em cima da sua janta. Consegui sair do hotelzinho ferrado do subúrbio com a cueca na mão e uma blusa de algodão. Por pouco não tive meu corpo perfurado. A menina, Ella, parece que recebeu sua punição e continou feliz ao lado do marido, o grande papai gordo. Indo na direção do deserto, ainda de madrugada, consegui algumas roupas que estavam num varal alheio e pude me cobrir adequadamente para tentar uma carona. O coroa que parou o carro me levou para uma cidadezinha pequena, conhecida como a meca dos caminhões do Colorado, Wingtown. Acho que ele não gostou muito do meu cheiro, pois continuou a viajar, mas não me levou junto. Quando paramos perto de um posto de gasolina fui dar uma mijada e na volta o velho já tinha partido.
    Bom, dali consegui uma carona até Mont Daily e lá encontrei pela terceira vez na minha humilde e miserável vida, o sujeito mais parecido comigo e com Dean ao mesmo tempo. É, muitos irão ler isso como se fosse uma loucura, porém é a mais verdadeira das alucinações. Esse cara é tanto eu, um literata que observa a vida de forma delirante e diletante e ao mesmo tempo, possui a selvageria e a atração fatal pelo sexo a todo custo, o mesmo princípio do prazer que pulsa no maldito Dean Moriarty. Também é um poeta, também é um sujo. A porra de um maldito como nós dois. Entretanto, por ser a nossa junção, acaba que não consegue ser nenhum de nós dois, é incompleto, asqueroso, teimoso, louco.
    Ele estava na fila de empregos para uma lavanderia na cidade. Eu também estava ali por que tudo parecia sem qualquer sentido, queria logo poder voltar para o meu quarto de proletário em Ozone Park. Estava de saco cheio de ser o maior andarilho da América. Logo que entrei, ele me viu, mas parece que fez questão de se aborrecer por encontrar alguém conhecido naquelas bandas. Fechou a expressão e ficou em silêncio como se eu fosse uma alma penada, como se eu não estivesse ali. 

   

    O desespero que assolava minha alma me fez ter a visão de alguém que sem qualquer perspectivas no estrangeiro, quando encontra algum conterrâneo, sente-se fortemente associada a este. Assim, no meio de tudo aquilo, encontrei forças para vencer meu orgulho e lhe dirigir a palavra. Da última vez que nos encontramos, havia sido de certa forma tensa. Uma de suas garotas estava de caso com um chapa meu e ele quis resolver a semvergonhice dela no tapa. Quase tive que ser indelicado com sua pessoa. Por bem, acabamos todos bêbados e ouvindo bebop em LA. Bukowski era um grande poeta que poderia se dar melhor do que qualquer um, pois já havia perdido qualquer pedaço de compaixão pelas outras pessoas e por isso, não dava a mínima para ser ou não conhecido em todo o país (o meu caso, por exemplo). Sentia-me um menino quando percebia que meu objetivo era de ser lido. O dele, na verdade, era ter um pouco de grana para continuar bebendo e apostando nos cavalos.     Ele logo me reconheceu também e foi inadvertidamente mirando para o meu bolso da camisa (que havia roubado do varal em Denver). Acenou com a mão e me chamou como quem chama uma garçonete bonita. Estávamos separados por umas oito pessoas que também tentavam o emprego.
    - Olá, como vai senhor beat?
    - Ah, para com isso Charles sujo, isso foi papo de maluco, estávamos todos em outra dimensão… hehehe
    - Não sei, Jack, mas penso que em determinados estados mentais, somos mais sinceros e divinos do que quando sóbrios. Tem um cigarro?
    - É, pode ser, fui tirando um pouco de fumo do meu bolso e pegando um papel para enrolar, já ouvi dizer que alguns mexicanos tentam alcançar alguma coisa consumindo peyotes no deserto.
    - Bom, não me importa. Pelo menos agora isso só se parece com conversa de bêbados! O que está fazendo perdido, um poeta como você, no meio do nada e ainda, procurando emprego?!
    - A história é longa, mas talvez sempre a mesma. Chega uma época em que o homem cansa de vagar e precisa se recolher em sua caverna.
    - Entendo… dá uma tragada, aperta os olhos, mira na direção que me ultrapassa, sabe, eu também estou farto dessa vida ordinária. Já até pensei em colocar uma pedra no meu pescoço e deixa Deus decidir por mim. Porém, eu sei que essa não é a solução, ainda quero que alguém possa descobrir as minhas sacanagens e fazer um bom bocado de pessoas se chocarem com as sujeiras da minha mente.
    - Olha Charles, sempre achei que você não tivesse um propósito na escrita. Vejo que tem mudado suas posições. Quer ser famoso agora?
    - Não, meu caro. Muito longe disso, penso em destruir aqueles que almejam ser alguma coisa. Pois, tanto eu quanto você sabemos, que quem É, não precisa de ninguém para falar que é. É e simplesmente é, basta.
    - Tudo bem, mas destruir…
    - Ridicularizar, fazer desistir, humilhar os sentimentos da pessoa que acha que essa vida só é alegre quando tem alguém babando o seu ovo. Jack, quer saber, quero ficar aqui porra nenhuma, vamos tomar uma cerveja na birosca ali do lado?
    - Po, não vai dar, quero conseguir esse emprego, preciso me mandar para Nova York.
    - Então a gente se ver! Será que você não me arruma mais um destes?
    - Claro, serve ai, aqui tem papel também! Falou Charlie, até a próxima.
    - Ok!
    E de lá saiu o maior viciado em bebedeiras da América. E eu fiquei esperando a vez de me chamarem e trabalhei ali duas semanas, o suficiente para juntar dinheiro e voltar para casa. Charles apareceu em uma outra noite, estava completamente louco e sublime, nunca vi alguém tão bêbado conseguir cantar a mulher mais linda da cidade com tanta facilidade, quem pudera eu fosse assim!


Kerouac VERSUS Pollock

September 4th, 2008 by J D Oliveira

    Já era tarde da noite e Lee insistia para que continuássemos em nossa bebedeira alucinada de três dias. Eu não conseguia mais distinguir entre o que era verdade e o que não era mentira, minha cabeça estava intoxicada demais para querer conceber a realidade das coisas e por isso, meu corpo era guiado por um pavio curto de energia que não me deixava capotar. Jackson parece ter percebido a minha confusão e prometeu contar uma historinha para me fazer dormir tranquilo. “J. eu vim de Cody, no Wyoming.



    Minha mãe era filha de católicos e desde pequeno, quando eu acordava assustado com a vida e parecia mais desprotegido que um órfão recém nascido, ela me contava a história completa do menino que havia se perdido dos pais e fora se encontrar com alguns doutores no templo”. Tentei dizer a ele que já conhecia aquela história por que minha mãe também já tinha me contado aquilo tudo, mas não consegui falar nada coerente naquele instante. Abaixei minha cabeça entre as pernas e tentei despertar meus ouvidos para a lição que iria escutar, como se nunca tivesse ouvido aquela historinha:
 
    - Você entende, cara. Ele era um moleque apenas, a porra de um menino. Naquela época, os judeus não aceitavam as palavras de qualquer coisa que não fosse macho e com mais de trinta anos nas costas. E ele era um menino e dizia para um monte de caras bem mais velhos, sábios sacerdotes, rabinos, dizia a verdade do que estava escrito, do que havia sido dito e do que ainda ninguém tinha nem pensado ainda. E você acha que ele aprendeu isso lendo alguma coisa?
    - Não sei, acho que não. Nem todo mundo devia ter acesso à leitura naquele tempo…iic
    - Pois então - levantei minha cabeça e vi seus olhos brilharem para o infinito, ele sentia Jack, ele sentia o universo sem que pra isso tivesse que transformar em palavras, regras, símbolos. No máximo, deixava seu espírito fluir pelo pensamento e dizia um monte. Se livrava das próprias paranóias, expulsando-as como se fossem demônios.
    - Se as portas da percepção fossem abertas, tudo pareceria ao homem, como realmente é… broughtt, vomitei em cima de uma tela que ainda não estava terminada regido pelas palavras de Blake. Jackson, como qualquer pai, quando percebeu que eu iria atirar substâncias internas na realidade, tentou afastar a sua obra, mas não teve tempo suficiente, sendo também atingido pelos pedaços mal digeridos de comida e bebida.
    A partir dali apenas fui galgando o precipício dando mais trabalho a cada 10 minutos. Não parei de vomitar e fiquei até a manhã do outro dia agonizando e recebendo líquidos mal cheiros preparados por Lee. Quando ficava sozinho no quarto, conseguia dormir, mas pouco tempo depois meu corpo reclamava do mal uso e eu acordava com a mente atormentada de culpa: eu havia vomitado no quadro de um dos caras mais obsessivos e talentosos que havia conhecido. Por sorte, Pollock não ficou assim tão revoltado, afinal sentiu alguma ligação sincera e conectada à Jesus, Blake e nós dois ali, de porre e falando um monte de besteira para a maioria das pessoas. Entretanto, não continuo a coser sua arte naquela tela, abandou no projeto 73 e partiu para o próximo de sua imensa e iluminada lista de intuições e sentimentos plásticos.