
Sempre gostei muito do termo marginal. Identifico minha alma com aqueles que insistem em andar sobre o fino meio fio do estabelecido. A cada momento penso mais e mais em abandonar qualquer simpatia pela rude e opressora tradição. Já estamos em 65, porra, e até agora a guerra ainda não acabou. Os bastardos que assumiram a negociação tentam impor uma racionalidade impossível de ser exercida. O pior é que sabem disso, porém enquanto todos nós aparentemente temos que andar na linha, eles enriquecem as calças com grana, putas e muito álcool. Já diria meu tio Joe, “nenhuma decisão sensata foi tomada de forma sóbria na história dos conflitos humanos, muito menos por quem nos governa”. Sabia sensatez de um velho comuna rabugento. Mas aqueles que estão na margem ainda estão dentro do próprio sistema. Gostaria que entendessem o que um ex-diplomata do Brasil escreveu. Os verdadeiros vagabundos iluminados da geração perdida estão à deriva na terceira margem do rio. Eu também gosto dos alucinados e da história da loucura, não vejo particularidades mais fantásticas do que as narrativas dos loucos e videntes. Hoje em dia, tentam impor remédios para a natureza caótica ser normatizada pela razão sanitária demagoga.
Mas estávamos em uma convenção de escritores ditos marginais. A impressa, os déspotas esclarecidos, vieram até nós como se fossemos animais selvagens encontrados no seio da África. O Livro já havia sido lançado e eu representava a tal geração beat naquele lugar – uma cidade costeira da Colômbia. Por mais absurdo que possa parecer, apesar de estarmos em uma nação ao sul, quem comandava as ações eram nós, os do norte. A comissão organizadora, os servos do hotel e todas as perguntas eram feitas em inglês. Eu me atrevia a falar meu espanhol marginal de chicano. Um erro, logo veio a mocinha da assessoria me pedir para me recompor e falar como os civilizados. Da puta madre! Ela se virou e fez cara de quem adorava pisar nos marginais, me deu até tesão. Mas logo me arrependi de querer fecundar uma dessas branquelas que vêem na América um espelho inacessível e incompreensível aos olhos dos outros criados do mesmo carbono e da mesma merda que elas!
Um senhor simpático e sua bengala se dirigiram com dificuldade até mim. Em inglês – apesar do sotaque característico, ele me disse:
- Olá rapaz! Vi que tentou se comunicar com os primitivos. Cuidado, somos todos selvagens e a qualquer momento podemos morder seu pé!
Rimos bastante daquela afirmação enfática e pertinente. Acomodei o sujeito, pois percebi que não enxergava.
- É, estou nessa há pouco tempo, ainda não me acostumei completamente. Mas você sabia que agora que estou cego, consigo ler as almas das pessoas com mais facilidade!
- É mesmo, respondi interessado em seu bom humor. É que cor tem a das pessoas desse lugar.
- Ih, meu filho. Isso seria inconfessável. O grande irmão deve estar de olho em mim! Então, você me pergunta, por que lhe disse sobre ler almas se não posso lhe dizer como são?! Pareço louco não?! Mas não é isso. Queria apenas que soubesse que é possível ver algo além do que todos dizem e falam e vêem e escutam.
- É verdade. Confesso que também acredito nisso. E então ele me contou a história mais fantástica e real da minha vida. Um velho cego que já tinha visto coisas demais!
Eu nasci em Buenos Aires, capital da Argentina. Um grande país que fica um pouco mais abaixo e que nos últimos tempos tende a se tornar uma extensão de sua nação. Mas isso é coisa para outra hora. Como você me disse que acredita nas coisas que os olhos não podem enxergar, queria lhe contar uma passagem que ocorreu comigo quando ainda podia por meus olhos a serviço da luz.
Um dia, andando pelas ruas cinzentas de minha cidade, um pensamento muito estranho passou a me acompanhar: Jorge, você não existe! E não era qualquer pensamento, era o meu próprio deus atômico me dizendo isso. Ouvi como se fosse um locutor de rádio. E ele continuou por vários quarteirões me dizendo a mesma coisa. De repente, mudou o tom: Jorge, ninguém existe! Bom, agora sim fazia sentido, não era só eu, todo mundo também fazia parte da não-existência. Me senti um pouco mais aliviado. E assim fui pensando, se eu não existo e não existe ninguém, você tampouco, minha voz interior! Além disso, esse chão é falso, assim como o apito que o guarda deu, a buzina e mesmo aquela linda garota que acabou de passar de vermelho. Não, não Jorge! Ela existe! Ann?! A mulher de vermelho existe, Jorge! Deixei aquela loucura de lado e vivi o resto do dia como se nada tivesse acontecido. Somente à noite que fui retomar aquele diálogo. Na cama, fiquei imaginando o mundo ora não existindo, ora existindo, como uma respiração que nos deixa mortos por um naco de segundo quando expulsa todo o ar do corpo. Dormi com aquilo na cabeça e adentrei o mundo de Morpheus, abrindo as portas do meu inconsciente com chaves cada vez menos tangíveis. Vasculhei por um mundo inteiramente vácuo, mas também terrivelmente físico, onde os sentimentos e os pensamentos assumiam formas orgânicas e tirânicas me deixando apavorado e intranquilo. Uma decepção era uma lâmina gigante. Um sofrimento, a corda no pescoço apertando. O arrepio, a água gelada descendo a coluna vertebral por dentro. Mas de repente, apareceu o medo. Antes dele vir, já tinha pensado que talvez aparecesse sob a forma de uma nota de 100 pesos ou de armas bélicas ou quem sabe um pinto bem grande (risos). Porém, o medo me pareceu nada mais do que um gato preto e sem os olhos. Uma criaturinha que em nada me apavorava, pelo contrário. A vontade que me deu foi de acolhê-lo com todo o carinho dedicado a um felino indefeso. Porém minhas mãos eram sentimentos e nada confortáveis, eram espinhos que cortavam a minha alma e o couro do medo. Acordei apavorado com minha impotência diante o medo, não por sua imposição, mas sim, por sua dor.
Meu travesseiro estava inundado de sangue e o medo estava espatifado em meu colchão. Tomei um susto com aquilo e fui logo ao banheiro para fazer a barba e começar o dia longe de tudo. Ao me olhar nos olhos, pude perceber que no interior da minha vista, uma luz enigmática brilhava como um gato negro com olhos amarelos. Pensei, talvez seja a coragem vindo me dizer que o medo e o sangue nada mais eram do que a luta irracional do existir em meio à não-existência. Saí de casa, como em todas as manhãs e fui percorrer o mesmo caminho para ver se aquela voz aparecia novamente. Para a minha surpresa, ela veio acompanhada da mesma mulher de vermelho, mas que podia ser outra, apesar de também estar de vermelho. Ei, Jorge, é essa que existe! Ela é a cegueira do gato, foi a dor dela que manchou seu colchão nesta noite. Coitada, ela existe, pensei. Deve ser realmente inapropriado existir em um mundo fictício e sem explicação. Fiquei bastante intrigado com aquela coincidência e resolvi espreitar atrás da tal mulher. E a dona andava como se soubesse de sua existência. Mexia o quadril de forma a invocar qualquer alma perdida que estivesse pelo caminho. O que mais me intrigava nesta história era que somente eu sabia do detalhe de sua real existência. Será que ela também tinha noção disso? Esta indagação me fez aproximar, aproximar… e meu dedo já ia ao seu ombro quando um felino negro sem os olhos pulou na sua frente fazendo com se curvasse sensibilizada. Para disfarçar o atropelo, fingi-me de cego. Fechei os olhos enxergando os olhos amarelos do felino e tentei me apoiar em uma pilastra.
- Ei, olha por onde anda! Oh… é cego também, me desculpe!
Não tive coragem para lhe dizer que não era cego e que também sabia de sua não-existência. Realmente, não pude ver em que direção acabou levando o medo em suas mãos. Porém, fiquei mais satisfeito sabendo que desta vez o medo não sofrera tanto. Quem sabe ele só existe para as pessoas reais?
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