Kerouac vs Chaplin

Finalmente consegui um suporte realmente eficiente para a minha escrita. Fiquei por muito tempo ocupado pelo pouco espaço das folhas que sobravam do pão ou limitadíssimo pelas margens e linhas da brochura convencional. Fora isso, o movimento mecânico, o barulho contínuo e as não-respostas da máquina de escrever sempre me deixaram tímido - meu espírito se recusou por um bom tempo em conseguir se comunicar comigo pela falta de um espaço e uma ferramenta devida para que ele pudesse agir.  Com um bloco de notas em rolo, como um manuscrito e a leveza do grafite, as narrativas não são interrompidas e por isso não posso reconhecer a formalidade como um recurso, no mais, uma maneira de recusar o verdadeiro talento, a obra de arte em combustão. Outro dia ouvi mais um daqueles judeus malucos que fugiram da Alemanha. Antes de qualquer Pearl Harbor, esses caras já estavam aqui nos dizendo sobre toda a perversidade do sonho americano.Uma das poucas conferências que participei em Columbia fundou o resto da minha vida. E acho que é assim mesmo, as coisas beatíficas funcionam num átimo de segundo, num momento isolado que a gente não percebe. Só vê quando está nele, afundado, um pouco confuso, mas ainda assim, lúcido como um maquinista nos Alpes.

Vou me permitir encerrar esta primeira parte com um novo parágrafo. Não quero transparecer qualquer tipo de ofensa a quem lê e se acostumou a ver os assuntos separados por vírgulas, pontos e parágrafos. Deixei sim, a faculdade no meio do primeiro ano por que não conseguia me ver adormecido no sonho americano, servindo a pátria de acordo com o poder oficial. Servir ao sonho da liberdade não é seguir as normas de um estado e sim, praticar cotidianamente a diferença sutil que atinge ao espírito de quem se afeta com nosso presença. É na hora de atravessar a rua, se impondo na frente dos carros que insistem como reis da civilidade, entidades mais importantes que os homens que os navegam ou que passam por eles nas calçadas. É quando comprimentamos as pessoas nas ruas, independente da cor da pele, do tipo de roupa ou do lugar onde mora. Uma lástima cada vez mais aceita pelos jornais, corrompida pelo rádio e largamente inflamada pelo cinema. Não quero que o espírito que me habita e me habilita a falar sobre a verdade seja corrompido pelo sistema. Vou ser mais um branquinho a trilhar o verdadeiro caminho da América. A indústria que se forma é muito mais preocupante do que aquela que Chaplin denunciou - alienante, repetitiva. Agora é a propaganda, a própria empresa que Carlitos criou ao amenizar nossa angústia rindo de nossa ignorância diante o poder vigente. O nazismo não ocorreu apenas na Europa, nós, ou eles - eu sou fraco-canadense, os da América, fizeram o mesmo ou pior contra aqueles que aqui estavam. E foram os de pele branca, machos, protestantes que importunaram ainda os que são classificados como negros, nativos, latinos, judeus, velhos, bichas, mulheres e crianças. Para estes, qualquer lei é um absurdo! Os negros valiam 3/5 de seus pares brancos há pouco mais de 40 anos e hoje, precisam se esconder para apresentar a beleza de sua arte, principalmente, em se tratando de música e movimento. O jazz se tornou, finalmente, um grito negro. Algumas pessoas me olham de forma insinuosa quando converso com negros ou judeus. E esta história é resgata até por aqueles que não nasceram no novo mundo. Italianos, Irlandeses, amarelos, todos estes, pegam nas mesmas armas do preconceito e mesmo ridicularizando o modo americano de resolver as coisas, se tornam cidadãos quando se sentem incomodados pelas minorias. Eu ainda creio em Jesus Cristo como o meu grand Senhor. Quando li Camus no último verão, cheguei a conclusão que o nazareno seria a porra de um existencialista se habitasse entre nós nos dias de hoje. Um apaixonado pelo seu próprio romantismo, mas cético o suficiente em um niilismo incapaz de fazê-lo sofrer na cruz. O problema é que as mães não querem sofrer como Maria. Seus filhos não precisam do amor ou da sabedoria e sim, ser alguém, predominantemente, que seja alguém de posses, mesmo que a cargo de mentiras, assassinatos e conspirações.

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