
*
Não é por causa das pessoas, Jack. É por causa das coisas, cara!
E eu tentava retrucar, não para reenvindicar uma verdade, mas por que minha consciência católica não permitia uma coisa dessas. Eu sei que é difícil aceitar, cara. Mas não tem como negar, mesmo a gente que pensa que faz pelo amor, pela verdadeira experiência, pela divindade que habitamos, ainda assim, iremos lutar o resto da vida para que as coisas estejam com a gente. E vai ter sempreum tanto de caras que a gente não vai querer que chegue perto. Eu amo mais esse livro aqui na minha mão do que a minha mãe ou aquela vagabunda da esquina. É, pensei, Allen tem razão. Eu ainda sou muito novo para poder odiar alguém, mas já entendo o que é querer desaparecer com as pessoas. Esse sujeito é um bom rapaz, às vezes incompreendido e melancólico diante a maioria, mas um forte guerreiro em pequenas rodas de conversas pouco escutadas. Um verdadeiro combustível judeu para a alma de qualquer terráqueo.
Em uma ocasião, quando ainda me envolvia com Cristo de uma forma sentimental, tal como Santa Tereza, ele me abriu os olhos para o fato dos cristãos serem os membros da décima terceira tribo. Mas cara, não somos os párias, retruquei, somos a evolução, a novidade! Que nada, cara! Os verdadeiros cristãos desapareceram com o Rabi. Depois, quem entrou em cena foi a instituição Igreja, dominando a mente e o bolso de todo mundo. Você sabe do que eu to falando, olha para a sua mãe, vê como ela depende do que o tal padre Gerome fala. Aposto que ela paga a ele alguma coisa esperando alcançar os céus depois que morrer! Tentei em vão defender Camile. Ele tinha uma resposta para cada tentiva minha. E todas as respostas eram ótimas e espirituosas. Allen sempre estava certo, era incrível como ele sabe direitinho das coisas. Mas também tem o brio das estrelas, carrega consigo uma missão celestial que ele mesmo nem percebe ou exalta e por isso, às vezes é mais uma bicha louca que fala abertamente sobre política, religião, sexo e qualquer coisa que este país fingiu ignorar durante uns bons dois séculos.
Ele me deixa completamente puto quando toca nesse assunto “espiritual”, como se qualquer indício de religão fosse um atestado de imbecilidade e alienação. Como pode tirar qualquer valor válido da religiosidade, olhar para as coisas sagradas e profaná-las como se tudo não passasse de um grande discurso histórico de poder e busca intensa de propriedade? E o silêncio, e os milagres? Não Allen, não meu caro, a Verdade é apenas uma, não pode ser dividida. É claro que tentam o tempo todo dizer para todo mundo o que é e o que não é. Mas a Verdade, Allen, a gente sente e faz isso sozinho.
Ele não sabe, mas irei chamá-lo de Carlo Marx em meu manifesto beat. Nada mais natural. Quando a patifaria pegar nossas vidas e escrever longos textos sobre nós, irão saber que Ginsberg e Marx são a mesma pessoa. Não duvido nada disso ser muito mais do que um uivo alucinado de quem procura entender a Verdade através das circunstâncias que realmente existem. Ele vai ser um cara para ser lembrado por derrubar muros em meio aos tijolos da hipocrisia que a cada dia crescem na América. E eles irão querer nos meter nas jaulas da injustiça, fazendo nossos pais ficarem com vergonha de nos ter parido e não nos ter punido quando os vizinhos nos apontaram seus dedos sujos de merda avisando-os de como éramos tortos e que iríamos acabar como delinquentes intelectuais, críticos dos costumes e profanadores das tradições.
Uma vez estávamos discutindo o que poderia acontecer à América e às artes na América depois que a e Guerra acabasse. No meio de uma multidão de jovens perturbados e loucos, ele citou Marx, com certo receio de não ser um babaca na frente de uma dezena de bobões, alucinados e alienados . Disse que “a história não é senão a sucessão das diversas gerações, cada uma das quais explora os materiais, capitais, forças de produção que lhe são legados por todas as que precederam, e que por isso continua a atividade transmitida, ao mesmo tempo em que modifica as velhas circuntâncias com uma atividade completamente mudada”. E isso é Ginsberg, sou eu, é a geração beat! Uma nova geração carregada de críticas às anteriores, mas querendo cumprir o papel atribuido ao homem desperto que vem se desviando continuamente na história de seu verdadeiro caminho.

Tags: Ativista, Beatnik, Carlo Marx, EUA, Judeu