Kerouac VERSUS Guevara I

Um dia, um sujeito qualquer imaginou que pessoas poderiam voar por quilômetros, como pássaros. Com esse pensamento, passou a espalhar por aí a vontade de realizar a verdade disso. Dizem que Leonardo era um extraordinário inventor, mas acredito que não foi somente em 1515 que alguém tenha sonhado em voar. Todo mundo pode voar, porém, geralmente isso ocorre quando aprendemos a não cair nos abismos do caminho.

Hoje, um dia de céu triste e sem nuvens, um dia em que estaciono meu corpo e meu espírito na pequena janela do alto do avião, vejo com certo saudosismo as cidades do viejo mundo como miniaturas de tão pequenas, parecem borrões, às vezes desaparecem no horizonte-vertical. São pequenas porções de experiências humanas na natureza selvagem. Estradas, ferrovias, lagos, grandes construções, tudo se tornando ínfimo daqui de cima. As cidades são manchas no imenso e sensual corpo da Terra. Fico pensando nas mortes.  Camus morreu de carro, outros foram de navios, eu tenho certeza que o meu fim será no ar. Mas se não for também, tudo bem. Pelo menos hoje eu gostaria de sobreviver ao destino!

Sete meses afastado de Nova York faz a gente achar que não existe qualquer sinal dos Estados Unidos da América por aí. Minha estada nas terras estranhas do continente europeu me fez me afastar do sonho de crer em um papel libertário para o meu país.

Kennedy esta a perigo, essa história de guerra fria é uma verdadeira puta que fode tanto com nós como com o resto de todos. É um teatro dogmático em busca do poder físico das coisas.

Durante minha estadia procurei me afastar dos clássicos da família americana, como Londres e fui fundo na experiência: Paris. Andei por lá um bocado de tempo, em lugares interessantes, mas talvez, estranhos para os do outro lado do atlântico. Estive nos melhores dos meus dias e sabia falar francês. Isso me fazia agir sozinho por ali. Os outros “yankes” – editores, livreiros, poetas gordos - ficavam embolados com a língua de Mollière e acabavam se ajudando nas confusões lingüística, me deixando sozinho como eu queria. É claro que eu ia lá, dava força, traduzia aqui, ali. Mas na maioria das vezes eram coisas sujas e perversas que queriam saber falar. Achavam que para seduzir as putas tinham que saber falar gracinhas em frânces. Eram pequenos meninos esquecidos de que todas falam na mesma língua: dinheiro, ainda mais dólar americano. O editor Mike, homem sintético e com cinto na calça, queria falar sobre “verdades” no Moulin Rouge. Não mediu esforços. Em uma semana todo mundo já sabia do seu caso com um negro. A verdade realmente veio a tona! 

Numa das primeiras noites em que não fizemos uma festa ou eu não fiquei em casa puto, com dor de cabeça e de ressaca, fomos dar uma volta pelos subterrâneos. Os caras logo ficaram com as prostitutas e eu, que estava à procura de vampiras, fiquei mais no meu canto, observando com olhares românticos o lado bizarro de Paris. De repente, andando perto de uns inferninhos, me veio à cabeça de ter visto um daqueles líderes da tomada de Cuba andando pelos becos umbralinos da cidade de São Bartolomeu. Por coincidência, aquele vulto pareceu ter tido uma impressão parecida. Quando decidi voltar minha atenção, ele já estava com a mão em riste e me perguntando:

-  Kerouac - disse em um forte sotaque espanhol que logo me lembrou o deserto mexicano - oh! Sorry. My name´s Guevara. Are you a writer, hombre? Tentou consertar em um inglês de colegiais.

- Prazer, como é louco isso tudo. Arranhei em meu espanhol-mexicano.

Ele deu uma boa risada, eu também. Estava ao lado de um líder guerrilheiro latino que hoje é um chefe de estado. Já tinha ouvido falar que o sujeito era também médico, só não sabia bem se era brasileiro ou argentino. Rapidamente me lembrei que é hispânico, não pela cor ou pelos traços - que até parecem europeus, branco, alto, mas por que me lembro de que há poucos dias o vi numa foto. Era condecorado no Brasil pelo presidente daquele país, era anunciado com o argentino que libertaria a América dos “latifundiários e caudillos” que haviam arrancado a vida do seu povo através da exploração. Parece que isso foi uma boa oposição à posição fundamentalista da direita americana.

- Você sabe que vi uma foto sua num jornal outro dia, uma edição daqui mesmo da França.

- Ora, fotógrafos e espiões estão por toda a parte nos registrando. Me sinto dentro de um 1984. Só Orwell entenderia!

Que comentário feliz tinha feito o tal do “Che”, visionário mestiço que muito além de sua pátria, parecia um homem do mundo e de qualquer lugar.

- Eu entendo como é. A imprensa é uma incógnita, ela pode nos ameaçar de morte ou nos proteger como bebês.

- Imagino que por Habana circulará uma imprensa livre, mas somente daqui a alguns anos. Por ora precisamos saber o que se escreve na ilha.

Ele acendeu uma cigarrilha e começou a revirar algo em sua camisa e casacos, peças bastante simples como a de operários. E de dentro da própria roupa, tirou um livro. Não acreditei: En el camino. Ele subiu o livro e riu.

- É bem provável que poucas dessas coisas aconteçam por ai.

Passamos um bom tempo trocando idéias. Fomos a um bar e ficamos sentados ouvindo jazz e conversando sobre assuntos muito oportunos. Aquela noite em Paris parecia não estar acontecendo. Logo, algumas outras pessoas se aproximaram, principalmente, mulheres francesas loucas e diretas.

- Sabe, ele me disse, fico vendo como talvez só aqui nesse lugar, tão fora da sua como da minha origem, mas uma cultura de encontro de nossa vida, de nossa educação, só aqui seríamos sinceros uns com os outros como estamos o sendo agora.

- Tem razão. Muita razão aliás. Quando ouvia falar ou lia nos jornais da costa oeste sobre caras como você, eu sempre imaginava muita ignorância movida pela inveja dos senhorios.

- Tenho profunda irritação com os dos seu país. Vocês têm mania de falar liberdade da mesma forma como se pede papel higiênico. Tentei que vocês se aproximassem de nós, mas os interesses em nos ter como inimigos eram mais rentáveis para os cabeças do negócio. Cuba e a América Latina são puteiros-feudos da cultura da ganância e da falta de misericórdia e não seria agora que entregariam as coisas de bandejas para cara de cabelos grandes e barbas, para isto bastava os beatniks. Disse em um forte sotaque espanhol e misturando artigos franceses e verbos do inglês. Além disso, Che e seu cigarro ficaram rindo de sua piada, me deixando um pouco tenso. Esses são os malditos hippies, pensei. Mas resolvi ficar quieto e trocar de assunto.

- Também sou católico. Acho que é isso que salva toda a América Latina, desde o México até vocês. Mesmo que não se expresse apenas pelo cristianismo, a fé e a religiosidade são determinantes para que todos consigam sorrir para o dia seguinte e acreditar que uma luta amarga pela justiça pode render tempos melhores para os próximos, que são seus filhos, netos, amigos, vizinhos ou até mesmo você quando estiver mais velho. Nasci em uma família franco-canadense. Demorei algum tempo para conseguir falar inglês. Sei que esse lance de linguística é como aquele lance da psicanálise. Nós somos responsáveis por aquilo que nos ocorre e somos carregados de modos de ações preparados para a sociedade. O inglês é uma língua superficial, para que tudo seja dito e nada falado. É rápida, sem qualquer emoção muito gratuita. Já leu Freud?

- Essa eu conheço. Doutor Freud, muito dedicado. Sabia que o homem foi viciado em cocaína?

- É… já escutei essa história em alguma roda.

Esses não foram tempos tão difíceis, mas ficaram repletos de nostalgia. Ainda estão frescos na minha memória, mas logo, por força da minha própria incapacidade de memorar sensações de experiência espontânea, estarei sem as mesmas somas daqueles momentos e me deparei com a verdade do sonho americano, do norte. O avião irá pousar, Nova York pulsará novamente no meu sangue e eu vomitarei sobre a grande liberdade. Já o estou ao anotar e lembrar de um pequeno pedaço da minha alma que hoje já não consigo assegurar por onde anda no meu espírito. No caminho para casa vejo um negro e um latino serem espancados por policiais - alguns brancos e outros negros. Se eles entendessem como o comandante Che Guevara, perceberiam que todos somos um só. Não existem mais do que uma civilização, a humana. Não sei por que, mas Paris me lembra um pouco dessa possibilidade.

- Ey, K. o que fizestes no norte quando jovem, eu o fiz no sul.

- É, estamos nessa juntos!

- Todos estamos, compañero!

Sei que na América Latina, essa consciência pode ser mais forte, porém é muito enfraquecida no jogo de poder oficial. Sofrem suas injustiças pois não vêem a verdade apenas no acumular, ter poder, estar no topo. São fortes na intenção, firmes na fé e crentes numa possibilidade redentora para todos ou pelo menos para todos os que queiram se libertar. Eu, particularmente, acho que me prendi ainda mais à realidade. Estou me cansando da angústia incerta. Estamos caminhando para o fim de um era, eu vou me preparar para receber a Deusa e sei que ele também estará lá com todo o resto..

2 Responses to “Kerouac VERSUS Guevara I”

  1. Tiago Rattes says:

    Belíssimo texto. Voltarei e lerei todos. Parabéns pelo trabalho!

  2. Anonymous says:

    Parabéns meu caro. Grande idéia, grande talento.

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