Archive for September, 2008

Kerouac VERSUS Bukowski

Friday, September 12th, 2008



    Na América, quando você acha que é o único que está percebendo alguma coisa, se sente como se fosse um rei. As mulheres deixam de ser misteriosas, as ruas são iluminadas por cada passada que damos e qualquer fodão que aparece na sua frente se transforma num verdadeiro otário. Todavia, quando você descobre que tem um monte de maluco pensando da mesma forma, de duas uma, ou você pira de vez e se entrega ao deserto, ou então se alia a eles.
    Em fevereiro de 53 estava completamente duro e muito longe de qualquer lugar seguro. No meio do Colorado e fugindo alucinado de Denver - alguém disse a alguém que eu estava tendo encontros com a garota de outro alguém. Esse último alguém resolveu fazer a prova dos nove e acabou acertando o resultado: me pegou em cima da sua janta. Consegui sair do hotelzinho ferrado do subúrbio com a cueca na mão e uma blusa de algodão. Por pouco não tive meu corpo perfurado. A menina, Ella, parece que recebeu sua punição e continou feliz ao lado do marido, o grande papai gordo. Indo na direção do deserto, ainda de madrugada, consegui algumas roupas que estavam num varal alheio e pude me cobrir adequadamente para tentar uma carona. O coroa que parou o carro me levou para uma cidadezinha pequena, conhecida como a meca dos caminhões do Colorado, Wingtown. Acho que ele não gostou muito do meu cheiro, pois continuou a viajar, mas não me levou junto. Quando paramos perto de um posto de gasolina fui dar uma mijada e na volta o velho já tinha partido.
    Bom, dali consegui uma carona até Mont Daily e lá encontrei pela terceira vez na minha humilde e miserável vida, o sujeito mais parecido comigo e com Dean ao mesmo tempo. É, muitos irão ler isso como se fosse uma loucura, porém é a mais verdadeira das alucinações. Esse cara é tanto eu, um literata que observa a vida de forma delirante e diletante e ao mesmo tempo, possui a selvageria e a atração fatal pelo sexo a todo custo, o mesmo princípio do prazer que pulsa no maldito Dean Moriarty. Também é um poeta, também é um sujo. A porra de um maldito como nós dois. Entretanto, por ser a nossa junção, acaba que não consegue ser nenhum de nós dois, é incompleto, asqueroso, teimoso, louco.
    Ele estava na fila de empregos para uma lavanderia na cidade. Eu também estava ali por que tudo parecia sem qualquer sentido, queria logo poder voltar para o meu quarto de proletário em Ozone Park. Estava de saco cheio de ser o maior andarilho da América. Logo que entrei, ele me viu, mas parece que fez questão de se aborrecer por encontrar alguém conhecido naquelas bandas. Fechou a expressão e ficou em silêncio como se eu fosse uma alma penada, como se eu não estivesse ali. 

   

    O desespero que assolava minha alma me fez ter a visão de alguém que sem qualquer perspectivas no estrangeiro, quando encontra algum conterrâneo, sente-se fortemente associada a este. Assim, no meio de tudo aquilo, encontrei forças para vencer meu orgulho e lhe dirigir a palavra. Da última vez que nos encontramos, havia sido de certa forma tensa. Uma de suas garotas estava de caso com um chapa meu e ele quis resolver a semvergonhice dela no tapa. Quase tive que ser indelicado com sua pessoa. Por bem, acabamos todos bêbados e ouvindo bebop em LA. Bukowski era um grande poeta que poderia se dar melhor do que qualquer um, pois já havia perdido qualquer pedaço de compaixão pelas outras pessoas e por isso, não dava a mínima para ser ou não conhecido em todo o país (o meu caso, por exemplo). Sentia-me um menino quando percebia que meu objetivo era de ser lido. O dele, na verdade, era ter um pouco de grana para continuar bebendo e apostando nos cavalos.     Ele logo me reconheceu também e foi inadvertidamente mirando para o meu bolso da camisa (que havia roubado do varal em Denver). Acenou com a mão e me chamou como quem chama uma garçonete bonita. Estávamos separados por umas oito pessoas que também tentavam o emprego.
    - Olá, como vai senhor beat?
    - Ah, para com isso Charles sujo, isso foi papo de maluco, estávamos todos em outra dimensão… hehehe
    - Não sei, Jack, mas penso que em determinados estados mentais, somos mais sinceros e divinos do que quando sóbrios. Tem um cigarro?
    - É, pode ser, fui tirando um pouco de fumo do meu bolso e pegando um papel para enrolar, já ouvi dizer que alguns mexicanos tentam alcançar alguma coisa consumindo peyotes no deserto.
    - Bom, não me importa. Pelo menos agora isso só se parece com conversa de bêbados! O que está fazendo perdido, um poeta como você, no meio do nada e ainda, procurando emprego?!
    - A história é longa, mas talvez sempre a mesma. Chega uma época em que o homem cansa de vagar e precisa se recolher em sua caverna.
    - Entendo… dá uma tragada, aperta os olhos, mira na direção que me ultrapassa, sabe, eu também estou farto dessa vida ordinária. Já até pensei em colocar uma pedra no meu pescoço e deixa Deus decidir por mim. Porém, eu sei que essa não é a solução, ainda quero que alguém possa descobrir as minhas sacanagens e fazer um bom bocado de pessoas se chocarem com as sujeiras da minha mente.
    - Olha Charles, sempre achei que você não tivesse um propósito na escrita. Vejo que tem mudado suas posições. Quer ser famoso agora?
    - Não, meu caro. Muito longe disso, penso em destruir aqueles que almejam ser alguma coisa. Pois, tanto eu quanto você sabemos, que quem É, não precisa de ninguém para falar que é. É e simplesmente é, basta.
    - Tudo bem, mas destruir…
    - Ridicularizar, fazer desistir, humilhar os sentimentos da pessoa que acha que essa vida só é alegre quando tem alguém babando o seu ovo. Jack, quer saber, quero ficar aqui porra nenhuma, vamos tomar uma cerveja na birosca ali do lado?
    - Po, não vai dar, quero conseguir esse emprego, preciso me mandar para Nova York.
    - Então a gente se ver! Será que você não me arruma mais um destes?
    - Claro, serve ai, aqui tem papel também! Falou Charlie, até a próxima.
    - Ok!
    E de lá saiu o maior viciado em bebedeiras da América. E eu fiquei esperando a vez de me chamarem e trabalhei ali duas semanas, o suficiente para juntar dinheiro e voltar para casa. Charles apareceu em uma outra noite, estava completamente louco e sublime, nunca vi alguém tão bêbado conseguir cantar a mulher mais linda da cidade com tanta facilidade, quem pudera eu fosse assim!


Kerouac VERSUS Pollock

Thursday, September 4th, 2008

    Já era tarde da noite e Lee insistia para que continuássemos em nossa bebedeira alucinada de três dias. Eu não conseguia mais distinguir entre o que era verdade e o que não era mentira, minha cabeça estava intoxicada demais para querer conceber a realidade das coisas e por isso, meu corpo era guiado por um pavio curto de energia que não me deixava capotar. Jackson parece ter percebido a minha confusão e prometeu contar uma historinha para me fazer dormir tranquilo. “J. eu vim de Cody, no Wyoming.



    Minha mãe era filha de católicos e desde pequeno, quando eu acordava assustado com a vida e parecia mais desprotegido que um órfão recém nascido, ela me contava a história completa do menino que havia se perdido dos pais e fora se encontrar com alguns doutores no templo”. Tentei dizer a ele que já conhecia aquela história por que minha mãe também já tinha me contado aquilo tudo, mas não consegui falar nada coerente naquele instante. Abaixei minha cabeça entre as pernas e tentei despertar meus ouvidos para a lição que iria escutar, como se nunca tivesse ouvido aquela historinha:
 
    - Você entende, cara. Ele era um moleque apenas, a porra de um menino. Naquela época, os judeus não aceitavam as palavras de qualquer coisa que não fosse macho e com mais de trinta anos nas costas. E ele era um menino e dizia para um monte de caras bem mais velhos, sábios sacerdotes, rabinos, dizia a verdade do que estava escrito, do que havia sido dito e do que ainda ninguém tinha nem pensado ainda. E você acha que ele aprendeu isso lendo alguma coisa?
    - Não sei, acho que não. Nem todo mundo devia ter acesso à leitura naquele tempo…iic
    - Pois então - levantei minha cabeça e vi seus olhos brilharem para o infinito, ele sentia Jack, ele sentia o universo sem que pra isso tivesse que transformar em palavras, regras, símbolos. No máximo, deixava seu espírito fluir pelo pensamento e dizia um monte. Se livrava das próprias paranóias, expulsando-as como se fossem demônios.
    - Se as portas da percepção fossem abertas, tudo pareceria ao homem, como realmente é… broughtt, vomitei em cima de uma tela que ainda não estava terminada regido pelas palavras de Blake. Jackson, como qualquer pai, quando percebeu que eu iria atirar substâncias internas na realidade, tentou afastar a sua obra, mas não teve tempo suficiente, sendo também atingido pelos pedaços mal digeridos de comida e bebida.
    A partir dali apenas fui galgando o precipício dando mais trabalho a cada 10 minutos. Não parei de vomitar e fiquei até a manhã do outro dia agonizando e recebendo líquidos mal cheiros preparados por Lee. Quando ficava sozinho no quarto, conseguia dormir, mas pouco tempo depois meu corpo reclamava do mal uso e eu acordava com a mente atormentada de culpa: eu havia vomitado no quadro de um dos caras mais obsessivos e talentosos que havia conhecido. Por sorte, Pollock não ficou assim tão revoltado, afinal sentiu alguma ligação sincera e conectada à Jesus, Blake e nós dois ali, de porre e falando um monte de besteira para a maioria das pessoas. Entretanto, não continuo a coser sua arte naquela tela, abandou no projeto 73 e partiu para o próximo de sua imensa e iluminada lista de intuições e sentimentos plásticos.