Archive for August, 2008

Kerouac VERSUS Corso

Tuesday, August 19th, 2008

Dezembro tomava Ozone Park melancolicamente. As árvores já apresentavam a habitual solidão esbranquiçada, seca e gelada do bairro de operários. As pessoas já não se cumprimentavam, afinal o inverno estava tão rigoroso e o vento tão impertinente que era preciso vestir seis, sete peças grossas de roupa para não preferir estar morto e enterrado. No caminho de volta ao meu apartamento, passando em frente ao All´s, vi acompanhado de uma garrafa de vodka, Gregory Corso. O homem sujo dos Bálcãs tinha uma cara um pouco desgostosa e num piscar de olhos, em uma abertura dada pelo meu olhar, ele começou seu discurso infinito sobre a liberdade humana:

- Jack, você sabe em quais circunstâncias um bom filho pode fazer mal ao seu velho pai?

- Na minha ou na sua moral, perguntei um pouco enfadado.

- Na do mundo, Jack, na o mundo…

- Ok. Na sua moral, que é a moral do mundo da verdade. Bom, vejamos… Olho para a garrafa fechada em sua mão e penso como que aquela vodka poderia me esquentar corretamente naquela tarde. Retomo sabendo exatamente o que falar: Sabe senhor Gregor Samsa – ele adora quando o confundo com o personagem de Kafka, um bom filho faz mal ao seu velho pai quando precisa respirar o mundo solitariamente e para ter coragem de fazer isso, perturba a vida do pai pesquisando e fazendo todas as coisas que o deixam puto e doente. Só assim, na dor do ódio do pai por seu “mal” exemplo, ele consegue se encontrar plenamente. Quando o pai se sente um educador inútil e frustrado, o filho lhe faz o maior mal possível.

Convenci Corso a continuar o papo no meu apartamento. Ele estava também à procura de um lugar menos frio para se concentrar na vodka e na loucura de seus pensamentos. Antes de entramos pela porta da frente, ele veio com uma forte teoria sobre a Espanha ser o grande lugar do mundo. Em sua encíclica, mais precisamente na parte em que fala sobre o Apocalipse, Corso me revelou naquele momento que os espanhóis tinham sido a peça fundamental do Criador na Terra, os responsáveis pela passagem da mensagem pelo mundo, o verdadeiro povo escolhido. E deu milhares de motivos loucos que só faziam sentido em sua cabeça. Por fim, tentava me convencer de que uma das provas era a quantidade de culturas diferentes que haviam sido tocadas pela Ibéria. Inclusive os países miscigenados como o México e a Argentina.

- Só um princípio divino iria conseguir entender a vida de uma forma tão simples e perfeita. Já viu Buñel, Dali? Já leu Garcia Marques, Borges, Llosa, Amado?

- Sabe que você me lembrou de uma coisa que nunca dividi com ninguém, mas sempre pensei cara, o Aleph é a verdade suprema, ele é o caminho, a luz e a vida. É ele que me faz levantar e respirar todos os dias, se não tivesse lido aquelas poucas páginas eu nunca iria me sentir satisfeito com a vida. Entrando por um ponto e saindo em todos os outros, saindo por todos e entrando num mesmo ponto.

- E dizem que ele está cego.

- Verdade?

- Tenho parentes em Buenos Aires. A família foi uma parte para o sul e outra para o norte.

Nesse instante, como um gatilho, algo parece ter me revelado a verdade, tal qual falou a Gregory Corso sobre os espanhóis.

- Samsa é isso, Samsa! Presta atenção seu pederasta inútil: Sempre existiu uma lenda de que o paraíso ficava ao ocidente. Em várias culturas, inclusive na cristã e na nórdica, era pra cá que a verdade estava escondida. Porém, os judeus acharam que a verdade estava no norte, os ingleses também, franceses idem, mas quem sabe ela está mesmo é no sul, cara! Para onde os espanhóis e portugueses rumaram.

Ele não esperou muito para exagerar na viagem:

- Quem sabe o mundo da verdade não é como o americano e o europeu querem, mas como um poder louco e divino atua, uma fé que só vi no México e nos livros desses latinos. É crer mesmo que do nada as coisas melhoram e, quando a gente faz lenha, tudo desanda. Quem sabe o Cristo vai voltar por estes povos, perdido no meio de índios, negros e brancos, pobres, sujos, mal-vistos, mas totalmente preenchidos de fé e esperança. Um verdadeiro aleph messiânico, capaz de compreender os sentimentos e as emoções de qualquer cultura já produzida.

Dou uma golada um pouco mais forte que me faz soluçar no exato momento em que dizia à Gregory: Tomara, meu velho, tomara! E ainda pensei: “será que a gente terá saco para esperar esse moleque nascer?” E na minha cabeça, uma voz com sotaque latino me dizia: tomara, meu velho, tomara!

Kerouac VERSUS Presley

Friday, August 8th, 2008
    Estava vindo do leste pelo sul. Sempre que as coisas apertavam, descia até quase a fronteira com o México, se estando lá a paranóia apitasse, rumaria para o deserto e visitaria os templos astecas. A minha sorte era que a necessidade em conhecer tipos era, e ainda deve ser, fundamental para quem queira escrever. Dentro dos vagões sempre encontrava escórias que infestavam esse mundo. Muitas almas perdidas e atormentadas que íam de um lugar ao outro, sem qualquer rumo ou destino. Até cheguei a pensar em algumas ocasiões, se eu mesmo não era um desses, um andarilho vivendo de viagens sem qualquer objetivo com elas ou por elas. Fingindo alucinadamente ter algum destino, principalmente, no meanstream do mundo. Logo lembrava que caminhar pela América era apenas uma das partes do trabalho, a única forma de atuação que me permitiria ser um escritor que fosse reconhecido pela cultura.

Tinha que ir, simplesmente ir. Tentava conhecer ao máximo os trejeitos e os gostos daquele bando de vagabundos que se expremiam nas noites frias e se matavam no verão. Provavelmente, o trem de carga estaria, nesse instante, saindo do Texas rumo ao entrocamento de Tulsa, Oklahoma. Lá, teria que arranjar um trocado antes de rumar em direção à Little Rock, no Arkansas. A verdade é que tinha que cruzar o Tenesse e chegar em um dia e meio à Nashville. Ouvi o barulho de duas moedas se chocando em meu bolso. Não passavam de pouquíssimos centavos. Não fico mais angustiado com isso, sei que a ajuda divina sempre me surpreende, inclusive nas melhores horas. Estava com meu boné de guardador de freios e uma garrafa de conhaque escondida no casaco. Alguns dos caras também desceram na estação, dei a minha bebida para um senhor que cheirava mal. A maioria estava tão perdida quanto eu. Alguns até praticavam pequenos furtos. Eu me escondia de qualquer referência e ficava na minha, observando as visionomias, buscando me aproximar de pessoas que tinham o coração bom. Ou pelo menos, aparentavam. Oferecia algum tipo de serviço e logo recebia minha recompensa. Podia ser uma dica, uma carona, um prato de comido ou grana mesmo. Todo se resolvia pensando na beatitude e sendo gentil e humilde.
    De repente percebi a presença de uma senhora negra sentada em um canto da estação. Ela não era prostituta, mas estava na rua à trabalho. Era uma genuína feiticeira vodu, oferecendo seus conhecimentos a quem lhe ofertasse a alma ou dinheiro. Em frente ao seu altar ornamentado com uma série de símbolos e imagens de deuses negros, um garoto muito novo, uns 14, 15 anos no máximo, conversava com a mulher. Não conseguia ouvir o que falavam, mas dava para perceber que ele escutava atentamente a velha. A pele do sujeito era num tom rubro e seus traços eram fortes como de um europeu, um verdadeiro americano. Junto à bolsa que carregava, um violão lhe fazia companhia.
    Depois de conseguir uma grana de uma forma honesta, peguei um trem de passageiros rumo ao norte, mas que ainda iria passar em Memphis. Por coincidência do destino, o tal rapaz sentou-se ao meu lado. Iríamos passar pouco tempo um do lado do outro, mas minha curiosidade não me permitiria viver sem saber sobre ele.
    - E aí, cara, beleza?! Perguntei.
    - Ann - destraído. Sim!
    - Gosto dos caras que saem de casa bem novos. Estes são os mais espertos nas estradas. Já vi muitos outros que nunca viveram nada em suas vidas e acham que na estrada poderão resolver toda a angústia.
    - Mas eu não sai de casa. Estou indo. Vim ao Arkansas para um concurso e fiquei em sexto lugar, nada mal.
    - Peraí, garoto. Mas você é um fracasso, seu pai vai ficar com vergonha da vizinhança.
    Levanto minha mão para o alto e brado com o dedo para cima: “ser um verdadeiro americano é enxergar apenas a vitória! Este foi o lema daqueles…”
    - Ei cara, não me venha com esse papo. Já ouvi muita merda nessa vida e sei muito bem onde você pensa em chegar. A única coisa que eu gosto é de tocar meu violão, nada é mais interessante nessa vida que a música.
    - Moleque! sorrio, contente - É isso, é isso! Você tem razão, a música é uma coisa que dá sentido à vida, é ela que alimenta a minha emoção, o meu espírito. Seria muito interessante se pudessemos ouvir a música infinitamente, com solos que durassem anos ou ritmos nunca antes pesquisados.
    Via sua cara toda tomada agora pela alegria. Havia muito dentro daquele menino que deveria ser posto para fora. Seu pai tinha sido preso tão logo ele saíra da mãe. Viveu no mais podre das ruas, ainda assim pode entender a vida pela música, ao escutá-la e ao executá-la. Sentia a vibração da existência passando pela batida do seu coração e nesse momento, sentia-se como se fosse um em transa com o todo, uma mera passagem para a verdadeira energia, o maná de todos os tempos, de cada batita, o beat dos beats.
    - Mas você passou tanto tempo assim longe de casa? perguntou curioso.
    - Parece muito tempo por que você é novo, quando tiver mais idade entenderá que todas as coisas passam de acordo com a sua própria velocidade.
    - Não entendi, na minha ou na velocidade das coisas?
    - Então, é a partir desse ponto que você entra em cena. Ou você escolhe ir e tudo vai ficando para atrás, ou você fica paralisado e as coisas te atropelam. Você atinge o seu equilíbrio quando percebe que viver é uma soma da sua velocidade e a velocidade do mundo.
    - Eu gostaria de ser famoso. Poder ter todas as mulheres que desejasse, comprar carros, ver minha mãe vestida de madame. Ir à ópera, ao teatro, ser lido nos jornais.
    - Tolas fantasias juvenis. “Um muleque do Tenesse e seu violão se tornando inexquecíveis na américa selvagem”, um belo roteiro para hollywood. Quem sabe você consegue esse papel.
    - É, quem sabe!? Respondeu com desdém. Aaron e seu banjo! Minha mãe sempre me contou sobre meninos prodígios. Ela me fazia dormir na época do frio contando histórias de um garoto que conseguia levitar e fazer alguns truques no ar. Eu sempre sonhei em subir no palco e fazer todo mundo ficar encantado comigo.
    - Também desejo que isso aconteça. Só espero que você saiba aproveitar os momentos que antecendem a sua fama. É como antes dos 18, até lá você consegue se ver livre das punições. Depois, qualquer respiro fora da linha leva tapa na cara da sociedade. Tenho pena do O´Connors do Mets, virou piada, perdeu mulher, grana, amigos tudo por causa da imprensa.
    - Isso eu não sei. Apenas acho que devo ir, como você faz na estrada.
    - Tem razão! Ninguém entendeu o cara. Ele só quis passar uma noite sem pensar em nada. Eu entendo o O´Connor.
    - É mas, ele não é eu! Cada um constrói o seu próprio edifício nessa vida, o meu cimento é a música. Agora, o jeito que ele vai estar e como será frequentado, é esse o mistério que gostaria de resolver e rápido, se possível antes dos 20!
    Depois desse último papo, fui durmir pensando em como um garoto poderia saber sobre coisas tão sutis. Eu com a mesma idade dele não saberia distinguir um sentimento de uma sensação, um rancor e o perdão.
    Ainda tivemos tempo para uma proza sobre a superstição e a crendice. Sua família descendia de ciganos alemães e eles conviviam com os espíritos de seus parentes mortos. Isso era normal entre eles. Eu falei dos rituales que tinha participado no deserto mexicano. Contei sobre os pajés e os avatares. Na rodoviária de Tulsa, revelou-me durante a conversa, o jovem Presley havia se consultado com uma mulher que lhe dera uma receita para um ritual. Disse que o unguento iria lhe proteger de doenças no corpo e na alma, além de ajudá-lo a alcançar seus desejos.
    - Ela até me avisou sobre você, disse o garoto me deixando encucado.
    - Como assim?
    - Ué, ela me disse que um homem iria sentar ao meu lado e me fazer algumas perguntas sobre o que eu queria ser, filosofando sobre a vida e sobre religião. E se eu fosse sincero comigo mesmo, falando o meu desejo para o sujeito, o que eu pedisse ao mundo, iria acontecer na minha vida. E ainda te falo mais, que o “acontecer” não seria apenas comigo, mas com a pessoa também. Se ela estiver correta, tudo o que a gente falou aqui nesse vagão irá ocorrer daqui alguns anos, tanto para mim, quanto para você, cada um com a sua música ou, no seu caso, história.
    - É, mas eu então fiz uma péssima previsão dizendo sobre o cara que perdeu tudo depois que ficou famoso.
    - Claro que não, a velha Dagmar me previniu que se você não tocasse no assunto, seria eu quem se daria mal.
    - Ann…