Todos sabem que sou digno fã de bebops. Não foi a toa que me tornei adicto, pois vi tudo isso nascer. Quando estava em Cisco, eles estavam, quando passava por Denver, Alcota, Merwe, eles também estavam lá. Quando chego à NY, tudo está explodindo com Charlie Parker, Gillespie e Duke Ellington. Nascemos um para outro, eu e o bebop. Eu para ouví-lo e ele para ser descrito em minha prosa de fluxo contínuo, tal como a inspiração desses deuses do metal.
Se tive alguma sorte nessa vida, foi nesse interminável ciclo de viagens, bebidas, sexos e muito jazzzz… Atravessei de costa-a-costa na época em que o pai negro da música fornicava com a América branca e louca.
Eu me sentia distante de toda aquela coisa apenas quando uns putos não entendiam a metáfora dos povos: Todos cagamos da mesma cor. Sempre quando dava algum problema, eu - um dos branquelos de sempre, era apontado como o problemático, o erro daquele lugar. Mas apesar de alguns escorões e certos prejuízos, eu ainda assim voltava e me deliciava na orgia do bebop.
No meio da guerra, conheci um afro-descendente numa noite de zoeira em Nova York. Ele adorava alisar o próprio cabelo, tentando ter algo de branco. Era meio tímido, ficava sempre num canto, sem ser notado. De repente, dizia alguma bobagem e todo mundo ignorava suas tentativas de ser engraçado. Quando teimava em empinar seu trompete era até legal no começo, mas com o tempo se tornava uma verdadeira punheta musical. Após um tempo, deixei de ver aquele sujeito magrelo e de olhos esbugalhados que eu nem me preocupara em saber o nome.
Algum tempo depois, quando voltei de uma viagem, fui direto para um bebop que iria rolar no Nick´s. E não foi que aquele negrinho estava lá e empinando seu trompete, liderando uma pequena e interessantíssima banda. Só que dessa vez, as coisas estavam um pouco diferentes. Seu metal entrava rapidamente em harmonia com os outros instrumentos e isso dava um movimento sensacional àquela vibração vaporoso da noite. Fiquei pasmo com a sua maestria em conduzir aquilo tudo e ainda fazer com que cada um do naipe sobressaísse na hora certa.
Toda a timidez daquele moleque franzino tinha desaparecido totalmente, parecia um pouco mais forte, altivo. Nesse dia, eu estava acompanhado de Franco Sansa, um chapa que gostava de bebop e estava mais por dentro dos nomes do que eu. Perguntei ao Frank qual era o nome do trompetista, ele me disse de bate-pronto, como se esperasse aquela pergunta há tempos:
- Miles! Miles Davis - e seus olhos estavam tão esbugalhados quanto do trompetista. Sua boca estava aberta e sua mão segurava uma cerveja que quase escapava aos dedos de tão iluminado e encantado com a música que fervia do palco. Cara, ele é o maior de todos. O pessoal acha que ele não é bom performista solo, mas na minha opinião - indicando o dedo para o próprio coração, ele é o maior de todos os compositores de bebop. Ele consegue escrever uma peça para qualquer instrumento, tira no trompete e depois qualquer cara, um pouquinho só sintonizado, consegue fazer uma maravilha no piano, no sax, no contra. Putaquepariu, putaquepariu… e arregalando os olhos ainda mais, Frank seguia babando ao meu lado.
Bom, chegou os anos 50 e tudo aquilo que o meu companheiro tinha falado se transformou na mais pura verdade. Miles era sim um dos gênios, talvez o mais ingênuo e tímido dos gênios. E na sua depressão eu acabei sendo um enviado de Deus para que ele pudesse continuar por ai. Salvei a vida de uma das maiores lendas da música moderna e uma espécie de santo iluminado do jazz. Naquele tempo, o cool jazz já tinha invadido o mundo e Miles, para variar, era um dos maiores orquestradores desse movimento que havia saído do oeste e sofria certo preconceito no leste, por ter brancos, como Chet Baker, fazendo sucesso.
Depois de um show em Birdland, alguém me chamou para ir ao camarim. Lá vi vários caras se espetando. E todo mundo em uma intensa viagem individual e egocêntrica. Eu nunca fui muito de curtir esse tipo de loucura, tinha medo de querer parar de beber e perder completamente o sentido da vida. Bom, mas todos estavam lá e, as mulheres e os sorrisos também. Tudo parecia como o no habitué: drogas, palavrões e putaria. De repente, saco que alguma coisa se contorce num dos cantos do lugar. E ele tem aquele cabelo alisado e é magrelo e está com a cabeça entre as pernas e soluça muito. Aponto o sujeito para um dos caras da banda e este me diz para que eu cuidasse da minha própria viagem, deixasse Miles em paz. Acho que os minutos a mais que dei para ele, tornaram-se cruciais para que sua pele ficasse tão branca que Miles já se parecia com um nórdico. Como ninguém queria ser importunado, eu mesmo tive que levá-lo dali e jogar nas escadas de um hospital. Durante o percurso, Miles tentou se comunicar comigo, olhou-me com seus olhos de cadáver e encontrou minha alma atormentada sendo santa. Não sei o que seria do mundo se aquele cara fosse para a melhor dali mesmo. Um sorte eu estar mais sóbrio do que eles naquela noite.
Bom, a lição de vida que posso tirar desse episódio é que não espero ser tratado dessa forma quando precisar de ajuda, pois não quero que ninguém fique me notando nos cantos dos lugares, muito menos que olhem nos meus olhos.
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