Archive for July, 2008

Kerouac VERSUS Davis

Monday, July 21st, 2008

Todos sabem que sou digno fã de bebops. Não foi a toa que me tornei adicto, pois vi tudo isso nascer. Quando estava em Cisco, eles estavam, quando passava por Denver, Alcota, Merwe, eles também estavam lá. Quando chego à NY, tudo está explodindo com Charlie Parker, Gillespie e Duke Ellington. Nascemos um para outro, eu e o bebop. Eu para ouví-lo e ele para ser descrito em minha prosa de fluxo contínuo, tal como a inspiração desses deuses do metal.
Se tive alguma sorte nessa vida, foi nesse interminável ciclo de viagens, bebidas, sexos e muito jazzzz… Atravessei de costa-a-costa na época em que o pai negro da música fornicava com a América branca e louca.
Eu me sentia distante de toda aquela coisa apenas quando uns putos não entendiam a metáfora dos povos: Todos cagamos da mesma cor. Sempre quando dava algum problema, eu - um dos branquelos de sempre, era apontado como o problemático, o erro daquele lugar. Mas apesar de alguns escorões e certos prejuízos, eu ainda assim voltava e me deliciava na orgia do bebop.
No meio da guerra, conheci um afro-descendente numa noite de zoeira em Nova York. Ele adorava alisar o próprio cabelo, tentando ter algo de branco. Era meio tímido, ficava sempre num canto, sem ser notado. De repente, dizia alguma bobagem e todo mundo ignorava suas tentativas de ser engraçado. Quando teimava em empinar seu trompete era até legal no começo, mas com o tempo se tornava uma verdadeira punheta musical. Após um tempo, deixei de ver aquele sujeito magrelo e de olhos esbugalhados que eu nem me preocupara em saber o nome.
Algum tempo depois, quando voltei de uma viagem, fui direto para um bebop que iria rolar no Nick´s. E não foi que aquele negrinho estava lá e empinando seu trompete, liderando uma pequena e interessantíssima banda. Só que dessa vez, as coisas estavam um pouco diferentes. Seu metal entrava rapidamente em harmonia com os outros instrumentos e isso dava um movimento sensacional àquela vibração vaporoso da noite. Fiquei pasmo com a sua maestria em conduzir aquilo tudo e ainda fazer com que cada um do naipe sobressaísse na hora certa.
Toda a timidez daquele moleque franzino tinha desaparecido totalmente, parecia um pouco mais forte, altivo. Nesse dia, eu estava acompanhado de Franco Sansa, um chapa que gostava de bebop e estava mais por dentro dos nomes do que eu. Perguntei ao Frank qual era o nome do trompetista, ele me disse de bate-pronto, como se esperasse aquela pergunta há tempos:
- Miles! Miles Davis - e seus olhos estavam tão esbugalhados quanto do trompetista. Sua boca estava aberta e sua mão segurava uma cerveja que quase escapava aos dedos de tão iluminado e encantado com a música que fervia do palco. Cara, ele é o maior de todos. O pessoal acha que ele não é bom performista solo, mas na minha opinião - indicando o dedo para o próprio coração, ele é o maior de todos os compositores de bebop. Ele consegue escrever uma peça para qualquer instrumento, tira no trompete e depois qualquer cara, um pouquinho só sintonizado, consegue fazer uma maravilha no piano, no sax, no contra. Putaquepariu, putaquepariu… e arregalando os olhos ainda mais,
Frank seguia babando ao meu lado.
Bom, chegou os anos 50 e tudo aquilo que o meu companheiro tinha falado se transformou na mais pura verdade. Miles era sim um dos gênios, talvez o mais ingênuo e tímido dos gênios. E na sua depressão eu acabei sendo um enviado de Deus para que ele pudesse continuar por ai. Salvei a vida de uma das maiores lendas da música moderna e uma espécie de santo iluminado do jazz. Naquele tempo, o cool jazz já tinha invadido o mundo e Miles, para variar, era um dos maiores orquestradores desse movimento que havia saído do oeste e sofria certo preconceito no leste, por ter brancos, como Chet Baker, fazendo sucesso.
Depois de um show em Birdland, alguém me chamou para ir ao camarim. Lá vi vários caras se espetando. E todo mundo em uma intensa viagem individual e egocêntrica. Eu nunca fui muito de curtir esse tipo de loucura, tinha medo de querer parar de beber e perder completamente o sentido da vida. Bom, mas todos estavam lá e, as mulheres e os sorrisos também. Tudo parecia como o no habitué: drogas, palavrões e putaria. De repente, saco que alguma coisa se contorce num dos cantos do lugar. E ele tem aquele cabelo alisado e é magrelo e está com a cabeça entre as pernas e soluça muito. Aponto o sujeito para um dos caras da banda e este me diz para que eu cuidasse da minha própria viagem, deixasse Miles em paz. Acho que os minutos a mais que dei para ele, tornaram-se cruciais para que sua pele ficasse tão branca que Miles já se parecia com um nórdico. Como ninguém queria ser importunado, eu mesmo tive que levá-lo dali e jogar nas escadas de um hospital. Durante o percurso, Miles tentou se comunicar comigo, olhou-me com seus olhos de cadáver e encontrou minha alma atormentada sendo santa. Não sei o que seria do mundo se aquele cara fosse para a melhor dali mesmo. Um sorte eu estar mais sóbrio do que eles naquela noite.
Bom, a lição de vida que posso tirar desse episódio é que não espero ser tratado dessa forma quando precisar de ajuda, pois não quero que ninguém fique me notando nos cantos dos lugares, muito menos que olhem nos meus olhos.

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Kerouac VERSUS Kahlo

Wednesday, July 9th, 2008

 

Fui visitar Old Bull mais uma vez. Ele ainda morava nos arredores de México D.F. Na verdade, vivia em uma cidadezinha colada à capital chamada Coyoacán - um pouco menos urbana que o restante do Distrito Federal mexicano. Quando cheguei à rua do velho safado, percebi um clima bastante fúnebre. Algo havia acontecido que deixara uma angústia visível nas pessoas. O rosto de cada um que cruzava o meu caminho me deixava ainda mais curioso para saber o que tinha acabado com a alegria daquela gente. Nunca presenciará a vizinhança de Old Bull tão silenciosa. Crianças sempre rolavam la pelota, as mulheres cantavam felizes em seus tanques de roupa e os homens apostavam nos botecos. Todavia, dessa vez nenhum movimento sequer, apenas o barulho ensurdecedor do triste e solitário vento à bailar com as folhas ao chão. De repente me lembrei que talvez aquele dia pudesse ser algum dia santo. Os mexicanos daquele bairro eram católicos fervorosos e não deixariam de chorar silenciosamente a morte do Cristo ou de algum outro mártir de La Iglesia. Quem sabe eu não havia me esquecido de alguma data cristã e por isso aquela ausência de vida. Na hora me veio à cabeça a imagem de mi madre, la santa de Guadalupe. Para sanar qualquer dúvida, fiz o sinal da cruz e continuei a cortar o vazio das vielas simples e empoeiradas do México.
Toquei a campanhia uma única vez apenas, mas fiquei mais de dez minutos para ver a cara velha e inxada de Old Bull Gaines. Durante este tempo, tirei meu espírito para um diálogo franco sobre a morte. Esqueci de qualquer referência ao presente e não me reconheci sequer como um ser humano, perecível e infeliz. Imaginei o jardim celestial como um esforço da mente para continuar insistindo na idéia de existir. Já estava quase alcançando a iluminação quando um rosto bastante conhecido me trouxe de volta do transe. Seus olhos estavam bastante vermelhos, era como se ele estivesse chorando copiosamente a horas. Quando Gaines me viu, pareceu ter ficado ainda mais emocionado e abriu os braços pedindo algum tipo de afeto para a sua dor. Abraçou meu tronco com tanta força que realmente comecei a me preocupar, achei até que algum parente pudesse ter sucumbido e estava sendo velado ali mesmo, naquela sala podre e cheia de seringas usadas. Se não fosse isso, seria alguma coisa parecida.
- O que foi que aconteceu seu velho tarado? Pare de se comportar como uma freira.
Old bull feito uma criança, soluçava sem conseguir pronunciar qualquer palavra sã. Ao seu lado, El Índio, íntimo e fornecedor de heroína, também apareceu com as vistas lubrificadas:
- Jack, Jack, no hable assim con el Toro. Ele está muito, muito triste… ella morrio! E voltava os dois a chorar como bebês e se abraçavam e me davam as mãos.
Já estava ficando irritado com todo aquele dramalhão de rádio. Ambos viram a minha confusão e logo me pediram para entrar na casa. Estava louco por uma explicação e quase voltando para Nova Iorque de tão puto. Gaines se recuperou e com a voz ainda embargada pode me explicar toda aquela cena. A delegación de Coyoacán estava completamente arrasada pela misteriosa morte de sua mais majestosa dama. A dona da Casa Azul, Frida Kahlo estava morta e ninguém podia fazer nada. Old Bull já havia me dito uma vez que quando se mudou para o México, na verdade, procurava estar perto de Kahlo. Ele acompanhará suas exposições há muitos anos e ficou completamente apaixonado pela artista. Não duvido de isso ser o real, afinal ele sempre tinha impulsos loucos e compulsivos, não me surpreenderia que tivesse algum plano para seduzi-la.
Na última vez em que eu o tinha visitado, ele me contara de suas tentativas de aproxiamação com la mujer mas caliente del Mexico. Quando conseguiu me mostrar quem era a mulher que havia feito ele viajar 5 mil quilômetros, fiquei completamente pasmo com o quanto feia era aquela figura. Entretanto, quando pude me aproximar e ouvir sua voz, talvez possa ter entendido por que ele tinha se apaixonado por tão estranha estética. Era forte e decidida. Quando a encontramos, dava uma aula de pintura em um dos pátios da escola. Mancava muito de uma das pernas e seus cabelos estavam quase todos grisalhos. Seu corpo se contorcia de forma antinatural, ainda assim sua sensualidade podia ser sentida de longe. Mesmo com um olhar masculino, a postura de seu corpo denotava uma fogo irresistível. Segurava sempre um cigarro entre os dedos e seus olhos permaneciam baixos como se estivesse antes olhando para dentro de si do que para qualquer coisa nesse mundo. Para completar, usava vários adereços que faziam aquela mulher se destacar como nenhuma outra. Vestia uma saia lindíssimas, com temas hispânicos. Na cabeça, flores e apetrechos. Nas mãos, um abanico flamenco para espantar o calor. Realmente, ela compunha uma verdadeira história em seu próprio corpo. E não foi diferente sua vida artística. Quando retornei à Nova Iorque naquele mesmo mês, pude ver algumas de suas obras e também, por que não, me senti apaixonado por aquela mulher, filha de um alemão com uma mestiça. Um achado da natureza que construíu sua obra em cima da própria angústia, dos próprios atropelos de seu corpo. Ainda hoje me recordo das últimas palavras deixadas por Frida em seu diário: “Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais retornar- Frida”.
Agora, não sei se choravam por sua morte ou pela forma como se foi. Talvez ela não possa ser mais uma santa, talvez, apenas uma mulher. E tomara Deus que não a coloque de volta neste mundo. Tomara Deus que eu possa encontrá-la no jardim onde os verdadeiros artistas planejam suas obras e constroem seus destinos.