Archive for June, 2008

Kerouac VERSUS Monroe

Thursday, June 26th, 2008

Durante a guerra, muitas esposas ficaram expostas aos garanhões alheios. Na Califórnia, centenas de comunidades tinham na força feminina a principal potência de trabalho. Neal não tinha muito critério para escolher suas vítimas, era um verdadeiro safado que adorava se lambuzar com louras, pretas, branquelas e tudo mais que aparecesse na frente do seu tesão. Todavia a maior de todas, ou melhor, a mais deslunbrante e encantadora de todas esfacelou o coraçãozinho do rapaz e ainda veio correndo para o meu lado.
Estávamos descendo de Cisco e paramos em uma dessas cidadezinhas com operárias trabalhando no lugar de homens. A época era dura e quem não estivesse na lide podia muito bem ser acusada de antipatriota. Já era bem tarde, entramos numa bodega e pedimos um whisky. A noite parecia prometer, a música nem era tão boa, mas o lugar estava infestado de xoxotas. Ficamos um pouco espantados, mas logo logo nos informaram do fato: depois de dias de muita dureza, finalmente, as moças foram dispensadas do serviço. Uma espécie de folga coletiva. Aquelas que respeitavam seus esposos-guerreiros, foram para casa; as que ainda tinham algum fogo para gastar, estavam ali.
Norma Jean era uma morena com um baita trazeiro e uma voz alucinada que fazia qualquer um ficar de quatro. Neal não se segurou muito tempo no lugar e foi logo enviando uma dose para a garota. Sem pensar muito, ela acabou se sentando conosco. Diferente da maioria, Jean fumava como uma chaminé e adorava falar besteiras. Era de Los Angeles e havia se casado há pouco tempo com um cara que fora mandado para o Pacífico Sul. Sentia saudades do rapaz, mas também gostava da liberdade que tinha adquirido em Burbank. Não é lá uma maravilha para uma garota casada e cheia de disposição, mas pelo menos a gente pode rir com esses caipiras, dizia ela em meio ao álcool e sorrisos.
Neal escorregava suas pernas para encostar nos belos pares de coxa de Jean, mas a menina não parecia muito satisfeita com aquela iniciativa. Fugia a todo momento das persguições e indagações maliciosas do meu camarada. Eu, na minha, continuava a observá-la em toda a sua volúpia.
- Sabe, Jack - disse se apoximando perigosamente da minha boca, recebi uma proposta para tirar umas fotos, o que você acha? Será que eu tenho chances…
Constrangido e louco de tesão, verifiquei se Neal ainda estava no banheiro e mandei uma direta para Norman:
- Garota, eu não te conheço, não sei de quem é o nome que esta na sua aliança, mas juro que você é a mais indicada para ser escolhida. Aliás, se você quiser fazer um ensaio só para mim e meu amigo, tenho certeza que iremos aprovar ainda mais a idéia de você virar modelo.
Seu riso não foi nem um pouco perigoso. Pelo contrário, promissor. Ainda assim, fechou sua feição, deixando-me ainda mais envergonhado com o que dissera. Quando meu chapa voltou, ela estava para iniciar sua resposta, interrompeu o raciocínio, mas não deixou de dar o seu recado:
- Ei, cawboy, olhou diretamente para meus olhos, mas estava falando com ele, por que você não pega mais umas doses no balcão, tenho algumas coisinhas para falar com o seu amigo Jack.
Sem entender nada, Neal abriu os braços e voltou seu passo para o balcão da espelunca. Meu rosto devia estar no mais alto grau de vermelhidão, pois sentia muito calor naquele momento. Não só pela garota, mas também pelo meu parceiro que iria passar a noite sentindo frio, enquanto eu me aqueceria com aquela beldade. Bom, seria assim se não fosse pela briga que o barman arrumou com ele. Acho que já estava desconfiando da coisa e não quis sair dali derrotado. Sabia que eu entraria em qualquer uma por ele e claro, qualquer briga afastaria a garota da gente.
Não deu outra, fomos escurraçados do lugar com vários ferimentos e Norman Jean não se prestou nem para nos ajudar com os corativos. Continuou no bar e deu as costas para os dois estranhos. Na mesma noite, ainda tive tempo para sonhar com aquela mulher. Entretanto, no sonho, algo me intrigou de verdade. Ao invés de estar com os cabelos negros, Norman Jean estava completamente loura, ainda mais ardente e sedutora. Nunca mais esqueci aquela noite, principalmente a parte em que eu não estava acordado.

Kerouac VERSUS Kerouac

Sunday, June 15th, 2008

Havia sim uma clara distinção entre brancos e negros naquele tempo. Eles não se esbarravam. Uma pena, por que nós, malditos, aproveitávamos dos dois lados. De um a maravilha ritmada, sensual e alegre, de outro, a polícia, pois ela acabava sendo sempre condescendente quando tinha um branquelo no meio, ou vários - aí então que eles nem mexiam com os pretos. É claro que às vezes tinha o nazi, aquele homem da lei que acha que ser policial é ensinar boas regras. Isso ele faz é com as putas dele. Dar lição de moral e patriotismo às três horas da manhã. “Sim, nós somos o futuro desse país”. “Sim, fomos contaminados por outra gente”. Sei, sei “galinha que acompanha pato” … e era esse o discurso do homem da lei. Uma bobagem histórica.
Neal e eu acostumávamos a ser os únicos brancos em eventos de negros. Muitos daqueles negões fechavam a cara para a gente, mas ele nem ligava. Adorava estar abraçado a uma cintura negra e rotunda. Eu sempre preferi as mestiças. Ora índias e negras, ora latinas, mexicanas. Cultivava um pouco pelo gosto europeu, mesmo que não estivesse aparente, gostava de adivinhar as ascendências pelos traços faciais. Teve uma época em que achei que seria capaz de diferenciar índios americanos, mexicanos, brasileiros e latinos. Colecionava fotos de aborígines de todo o mundo, mas isso não me garantia nenhum PhD na área fisionômica. Nossa cultura manda a gente achar todos parecidos e é nisso que a mente está metida, num imenso padrão repetitivo e alienante.
Pelo jeito, era todo um problema de origem. Nasci em meio ao catolicismo, muito mais do que americano ou canadense. Meu quarto avô, Louis Kerouac, era um bretão, da região situada na França. Ainda novo, veio à América crendo estar vindo para o paraíso. E isso ficou em mim. Eu cria realmente que aqui pudesse ser o lugar onde Deus reuniria todas as pessoas que iriam para o Jardim do Éden. Entretanto, na minha concepção, os Campos Elíseos seriam homogêneos, sem qualquer distinção de pele, raça, etnia ou religião. Fiquei assustado quando descobri que nessa terra, aquilo que estiver fora do que eles chamam de “direito” é sumariamente excluído. Se estiver num lugar negro, o branco é submetido, se estiver num bairro irlandês, judeu, italiano, porto-riquenho, chinês, mexicano, todo mundo acaba sendo submisso ao maioral do lugar, à cultura da região. Sempre tem um tipo de gente que é mais violenta, leal, honesta, mal-caráter. E isso é em qualquer lugar, não é do povo tal ou tal, é endêmico de nossa espécie. E isso é uma verdade que os jornais e os escritores tentam destruir, induzindo muita gente a crer num padrão para cada povo. E é assim que é. No céu ou no inferno todo mundo vai acabar encontrando o seu grupinho, mas depois de um tempo eles descobrem que não existe qualquer distinção entre um e outro. Seja na horizontal (entre nós aqui do meio) ou mesmo, na vertical (do céu para o inferno e deste para o céu) qualquer relação de grau é supérflua. Só vale na cabeça de quem está vivendo esse clima. Na verdade, quando a experiência aperta e a angústia bate, ninguém tem corpo, ninguém tem origem. Todo mundo habita a realidade e isso já basta para ser uma verdadeira desgraça, independente de qualquer outro detalhe.

Kerouac VERSUS Lennon

Monday, June 2nd, 2008

  Em 62, fazia uma viagem pela Europa, mais especificamente por Hamburgo na Alemanha Ocidental. Numa noite “daquelas”, encontrei um sujeito que iria se tornar muito famoso pouco tempo depois. Ele tinha uma dessas bandas que perverteram o bebop. Só guitarra, só guitarra. Apesar dessa tristeza, minha dor podia reconhecer que aquele mundo infeliz dos anos 60 precisava mesmo daquele tipo de imbecilidade estridente. Tomamos nossas coisas e ficamos alto. Disse a ele que todo mundo que fizesse sucesso nestes anos de transformação iria perecer, que tudo acabaria num piscar de olhos. Nada iria durar, por que nesse mundo tudo é impermanente e o que estavam fazendo com as coisas de verdade era completamente ridículo. E que muitos, como eu e como ele, viriam para acelerar essa maldita transformação, e todos nós iríamos ter que enfrentar os nossos deuses (e demônios) pessoais, pois a vontade seria a de voltar correndo para o bom e velho paraíso de onde a gente não deveria nunca ter saído. Acho que ele não ficou muito assustado, seus olhos brilhavam (claro!), mas não era um brilho totalmente artificial, senti mesmo que aquele papo tinha um quê de iluminado, uma legítima conversa beatificada - algo que há muito tempo não conseguia ter nem com um gato, quem diria com um macaco falante. Todavia…
Alguns meses depois, em Nova York, recebo um telegrama que dizia: “Você fodeu a minha vida. Agora não tem mais volta. Shiva domina a minha alma e a única coisa que eu posso fazer é seguir seus conselhos. Até agora não sei se estes conselhos são os seus ou os dela.”
Fiquei um pouco atônito com aquela correspondência inesperada. Não que ninguém nunca tivesse me escrito dizendo o quanto eu havia transformado sua vida, o quanto eu tinha a libertado das mentiras hipócritas da sociedade e como meus livros tinham dado liberdade e sentido aos seus atos e toda aquela baboseira que a gente sempre ouve por ai. O lance é que nunca havia lido alguém tão consciente de sua própria missão em tão pouco espaço. Ele sabia quanto seria dolorosa sua existência e a dor era para todos. Eu sabia que ali por trás havia realmente uma alma beat.
O que mais me surpreendeu é que meia hora depois, um outro telegrama chegou para mim. Nesse vinha assinatura e endereço de envio. “Saí da minha vida besta na beira do cais e hoje sou um soldado da luz, beatificado pela vibração da minha luta e eternamente condenado a sentir a dor das pessoas sob os meus olhos. L, J. Seviço de mensagens Mirrage Hotel, NY. 8 de fevereiro de 1964″. Bom, o jeito era esperar mais um pouco e ver se outra carta chegaria. Claro que não chegou. No dia seguinte, liguei a TV e aquele mesmo sujeito que eu havia encontrado em Hamburgo estava sob a luz dos holofotes, com uma guitarra em punho e cantando sobre o amor para um monte de meninas histéricas, loucas para tirarem suas roupas de baixo gigantescas e ficarem a vontade. Não aguentavam mais serem como suas avós e não queriam que suas filhas tivessem mães como as delas, muito menos pensavam em maridos como seus pais.
Vi todo aquele sucesso que o acompanhava como algo que já havia me perseguido. De certa forma sentia em mim uma angústia por conseguir perceber com exatidão a dor que viria a seguir, com a decadência. Quando um beatificado percebe que o barco em que navega não está sob o seu controle, a angústia da alma assola a sua vida e todo o colorido da existência se transforma em meras cenas do pretérito. Os corpos, o sorriso, a loucura e a alegria da juventude, tudo estava sendo recriado novamente através de acordes e comportamentos alucinados. A alma do mundo estava se mudando da pior forma e eu, como ele, tínha servido de fantoche para muita gente infeliz que só via resultado na fama, no dinheiro e no poder. Uma pena. A única coisa que eu gostaria de poder ter dito àquele garoto é que realmente amanhã nunca se sabe. Por isso, qualquer glória ou honra dada nesse mundo é como a espuma do mar, é inconstante, impermanente, aparece, desaparece. A vida na verdade, é outra história. Não essa que insistem em contar todos os dias, não essa que nos encanta e nos faz sorrir com os produtos da vitrine, não essa que fingem nos oferecer recheada de morangos mofados de luxúria e hipocrisia.
Pouco tempo depois, no auge da fama de Lennon e seus amiguinhos, Neal me veio com uma teoria. O velho maldito me disse certa noite quando estava bêbado como um gambá: cara, eles roubaram a nossa vida, roubaram nossa música e para piorar, além de pegarem todas as mulheres que ainda nos sobravam, usam o nosso nome. Eu apenas sorri e pude compreender por um instante que Neal não estava certo ou errado. A questão é que nós éramos apenas o meio. A energia Beat dos santos sagrados passou por nós e colou neles. Agora era a vez dos Beatles contribuírem antropofagicamente como oferenda para Shiva, o deus mor da renovação/destruição. Eram eles os verdadeiros beatos daquele momento. Mas até quando conseguiriam oferecer a outra face? Até quando…

alt : http://www.youtube.com/v/jYciRQDkYD4&hl=en