Archive for May, 2008

Kerouac VERSUS Huxley

Saturday, May 24th, 2008

Era um típico cair da noite em Santa Mônica. Tinha acabado de deixar Frisco e iria encontrar Allan em uma conferência sobre literatura do pós-guerra. Naquela época a costa oeste inteira queria saber se existiria ou não uma nova geração de escritores americanos que poderia substituir a altura caras como London, Hemingway e Wolfe. Antes de ir correndo para o hotel - os Reds Sox seriam transmitidos ao vivo pela TV, passei em um supermercado para comprar uma garrafa e algumas latas de conserva. De repente olho para o lado e dou de cara com um homem de seus 60 anos observando admirado a reação de algumas pessoas. Era um pouco surreal ver aquele coroa com seus olhos de coruja mirando e anotando mentalmente suas considerações a partir das ações os que ali estavam consumindo. Ele pareceu não dar conta de quem além de observador, estava sendo observado. Achei aquilo bastante engraçado e sai pela porta rindo. Ainda tive no pensamento que aquele sujeito parecia chapado, como se tivesse tomado alguma coisa e estava se divertindo naquele zoológico.
Anos mais tarde, vi o mesmo cara dando entrevista para um jornal de Nova York. Eu sabia que alguma coisa nele tinha me chamado a atenção, muito mais que aquela paranóia de ficar vigiando as pessoas e chegando a conclusões alucinadas na própria mente. Ele era nada mais, nada menos que Aldous Huxley, um dos melhores romancistas que eu já havia lido na vida e que tinha uma visão muito interessante sobre as coisas. No texto, o repórter dizia sobre as pesquisas que o autor realizou para escrever um dos seus últimos textos - As portas da percepção, que não era um romance, mas sim, um ensaio sobre os efeitos da mescalina e a profundidade que a mente poderia alcançar sob o efeito desse tipo de droga. Um dos métodos utilizados por Huxley para poder concluir sua obra foi ele próprio experimentar mescal e sair a campo. Um dos seus objetos preferidos era o consumo e o consumidor. O escritor tomava a droga e sob o efeito, ía a locais públicos observar a reação das pessoas diante as compras. Quando li isso dei uma baita risada sozinho e deduzi que indiretamente participei de sua pesquisa, mas digamos, de um outro ponto de vista.
Naquela mesma época fiz uma viagem para o México e acabei tendo contato - outra vez - com o peyote, a substância sagrada dos Astecas que levam o indivíduo a conhecer os seus deuses interiores. Não fui o mais drogado da minha geração, até porque sempre gostei muito mais de fumar uma bagana do que tomar picos. O pessoal era muito obsessivo com o pó marrom e isso me espantava um pouco, me deixava com certo receio de cair naquele clima de limbo e desespero que era típico da casa de adictos. Nunca me dei muito bem com as viagens de heroína, cheguei a passar mal nas vezes que tentei encarar os efeitos da papoula. No deserto, sob o efeito da mescal, vivi as alucinações mais transtornantes que já havia tido. Em um encontro místico, pude conhecer o meu próprio avatar e reconheci algumas partes da minha subjetividade que ficavam escondidas debaixo dos meus maiores recalques.
De súbito, comecei a pensar sobre como seria a vida na França na época da Revolução. Uma raiva incontida tomou conta do meu espírito e eu sentia meu ódio caminhar com minhas pernas para Versailles. Segurava uma tocha nas mãos e tinha verdadeiro ímpito para botar aquele château pelos ares. Mas alguma coisa me disse que depois disso acabei me arrependendo de alguns atos e passei a ficar um tanto decepcionado com aquilo que eu mesmo havia ajudado a destruir/construir. Talvez meu espírito tivesse imaginado outros rumos para aquela revolução e isso abriu uma profunda ferida na minha alma. O ocaso de qualquer período histórico depende das ações de uma maioria levada por uma cúpula, que em suma é muito mais individualista e gananciosa. Por sorte, um coiote atravessou o deserto e dispersou minha imaginação para uma outra época, ainda na França, ainda em um período extremamente conturbado.
Meus olhos sentiam o odor podre de Paris na manhã seguinte da Noite de São Bartolomeu. Entretanto, alguma coisa não estava certa naquela sensação. Eu mesmo me via como um cadáver ao lado de milhares outros estirados pelos cantos da cidade. Eu estava imobilizado dentro da carne que se decompunha e o desespero vivido na noite anterior vagava sobre a minha mente. A cena do meu próprio assassinato invadia as minhas lembranças trazendo rancor. Fora apunhalado pelas costas por alguém que provavelmente nem conhecia. Alguém que apenas queria se livrar da minha imagem e fez isso como faria a um porco. De repente, milhares de vultos começaram a se levantar daqueles corpos e o zumbido da dor parecia continuar mesmo depois da morte. Com certa dificuldade, também me levantei da carne e com o passo trôpego tentei me afastar de tudo aquilo. Assim que tomei direção a um feixe de luz que transpunha a realidade, fui novamente transportado para o deserto.
Nunca mais tive qualquer vontade de poder experenciar aquelas sensações horríveis de fracasso. Quando vi Huxley naquele supermercado, algo despertou dentro de mim uma sensação de que o passado e o presente coabitam e que realmente, a divisão temporal não passa de uma ilusão que ocupa a alma enquanto tentamos nos descobrir. O México para o escritor britânico também tinha seu sentido de descoberta. Foi por ali que Bernard conseguiu visualizar a própria existência e entender que a sociedade em que vivia era apenas mais uma das milhares de possibilidades que poderiam acontecer. Uma civilização inteira pautada na organização e no controle foi sutilmente abalada pela penetração viral de um selvagem que trouxe em si a pureza e o lirismo de humanidade que faltava a toda aquela formalidade de Londres do terceiro século da Era Fordista. O admirável mundo novo não são as coisas, mas sim, as pessoas e seu espírito. Por isso, qualquer um que tentasse enxergar pelos próprios olhos poderia entender o quanto a liberdade do pensamento era a grande resposta. A ação corporal seria apenas o desenho dado pela alma aos desejos. Por isso um pensamento em névoas poderia ser o deserto necessário para as piores barbáries possíveis. Assim foi no velho continente do passado, assim o é no novo mundo do presente.

 

Kerouac VERSUS Warhol

Sunday, May 11th, 2008

    E lá vinha aquela bichinha em seus passos trôpegos, seu cabelo pousando no meio da cara e sua boca enrugada feito um cu. E caminhava como uma dama ou mesmo uma rainha. Seu olhar fundou o blazé na América.
    E lá vinha aquela bichinha com uma polaroid na mão.
    - Oi, bonitão! – disse abrindo aquela boca cheia de dentes feios e quase podres. Fiz cara fechada, mas foi impossível não responder. O que você quer? Muitas coisas! Respondeu sorrindo ainda mais. Franzi a testa e perdi um pouco da minha paciência. Eu já tinha tomado algumas e as papas não estavam na língua mais.
    - Sabe Andy, eu até gosto de você – seu sorriso aumentou de tal maneira que ouvi até um uivo vindo de sua garganta. Principalmente, longe de mim!
Não pude agüentar aquele bafo escroto, dei um empurrão nele e sai para o balcão. Nem olhei pra trás. Depois me disseram que ele ficou uns bons dez minutos me olhando com ódio, como se fosse querer me matar. Eu nem me importei, muito menos a garrafa de whisky que estava me acompanhando. A manhã chegou, eu fechei os olhos e nem lembrei mais do caso.polaroid de si mesmo - andy warhol
    O problema foi que a bicha parece ter ficado ofendida e começou a queimar meu filme em Nova York. Primeiro , ligou para uns caras da editora e pediu para não publicarem a reedição de On the road. Não sei de onde ele tirou poder e cara de pau para tanto. O foda era que ele sabia de muitas coisas e por isso tinha meio mundo em suas mãos. Apesar dessa tentativa, eu consegui ser mais influente do que ele e a edição finalmente saiu.
    E ele tentou mais algumas vezes, de outros modos, acabar comigo. Até que, finalmente, no outono de 1962 eu recebo um convite para uma vernissage num endereço louco entre a primeira e a segunda avenida – pouco depois o lugar ficou conhecido. O que parece é que Warhol queria é que eu fosse o seu debbut naquele lugar - o prato principal de sua sandice. Quis armar para cima de mim.
    Fui para o lugar com o pé atrás, mas alguma coisa me intuía para comparecer ao local. Tomei um baita susto quando vi que era um armazém abandonado e que ficava no meio do nada. No portão havia uma seta apontando para uma pequena porta e sobre a seta, uma frase bem sugestiva: “entrada para Jacks”. Ri da piada e me senti até meio lisonjeado. Entrei. O lugar estava escuro, mas tinha um cheiro incrível de flores e um barulho de engrenagens ao fundo, parecia que quando as luzes fossem acesas iriam ter ali uma quantidade enorme de abelhas catando mel.

Dei meus primeiros passos e de repente ouço um estalo, são as luzes. Elas se acendem aos poucos e percebo que não existe qualquer sinal de flores ou algo assim. Odores sem flores, nem abelhas zumbidos. Na hora eu até pensei que estava sonhando. Para minha surpresa, um anão pelado - apenas usando uma gravata borboleta, saiu de não sei onde e veio em minha direção com uma bandeja. Nela havia um copo com água. Quando o pequeno ser bizarro chegou até mim, percebi um bilhete sobre o metal da bandeja. É  para o senhor, cortesia de meu mestre”. Agora, eu tinha certeza que estava em um pesadelo. Retirei o bilhete e percebi que ele estava sobre uma foto. Era uma polaroid e estava virada de cabeça para baixo.
    Abri o papel e li: “Jack, você nunca mais vai deixar de ser o Jack beberrão. Eu ainda SEREI e vou ver enterrarem você sem qualquer honra. Aproveite enquanto eles ainda te toleram e beba este veneno que eu mesmo preparei para você. Quem sabe, eles te mandem flores ou façam até uma placa. Com amor, Andie!”
    Todos os demônios da China medieval vieram ao meu encontro me dando vontade de acabar com o pouco de vida que havia naquele corpo de anão. Mas eu sabia que ele era apenas o emissário e que seu “mestre”, devia estar escondido em algum lugar rindo da minha cara. Amassei e isolei aquele bilhete ridículo. Apertei o passo e já estava saindo quando escutei algo zunindo atrás de mim. Era a porra do anão com a foto na mão. “Joga isso fora pequena pérola do oriente. E manda o seu mestre ir dar a bunda pro elefante, vai ver assim ele aprende a ser alguém nessa vida!” Ele continuou exalando alguns sons e não sei por que, fui pegar a tal da foto. Só lamento Andy, só lamento.