Archive for April, 2008

Kerouac VERSUS Camus

Wednesday, April 30th, 2008

    Acordo assustado na cabine do navio. Olho pela escotilha e vejo que já estamos próximos ao porto de Tanger. Ao fundo, milhares de construções nos esperam ansiosas pelos nossos desejos do mar. Sinto meu corpo molhado de suor e abandono aquela imagem. O quarto escuro me traz de volta ao sonho que acabara de me acordar. Estou em Lowell, mas meus pais se mudaram para Ozone Park. De repente o telefone toca e do outro lado da linha, meu pai tem uma voz fúnebre. Não me sinto preocupado com o estado emocional de sua fala e apenas o escuto em seu lamento: “ J, sua mãe morreu. O enterro é amanhã. Se puder, venha para cá”. Respondo apenas “sim” e desligo o aparelho. Como estou com muito sono, volto para meu divã e lá adormeço. A noite passa e na manhã seguinte Lucian Carr aparece na porta da minha casa. Ele me cumprimenta com pesar, mas mesmo assim, nada abala minha vontade. Chego a esquecer do porque daqueles gestos. “É, ela se foi. As coisas são dessa forma nesse lugar”, digo saindo pela porta. Carr insiste e me interroga sobre o por que de não estar triste por aquilo. Não consigo dizer, apenas sinto uma total indiferença pelo desaparecimento de “Gabrielle Kerouac”. 

    Agora ao me lembrar disso, me assusto. Já não via em meu espírito qualquer vestígio materno, mesmo estando neste momento, fora do sonho, dentro de um navio e sabendo que minha mãe está viva em algum lugar do outro lado do mundo. Todavia as lembranças oníricas prosseguem atormentando a minha vigília. “Lucian, qual é mesmo o seu problema?” É o puto do árabe, responde. Ele está louco atrás de mim, quer as minhas bolas de qualquer forma e não sei o que fazer. Fique tranqüilo, amenizo. Amanhã resolveremos o seu problema.


    O sonho prossegue em uma louca viagem na qual deixamos Lowell e rapidamente chegamos a um cemitério em algum lugar de Nova York. Lucian me aponta o sujeito, ele vem em nossa direção. Seus olhos estão marcados pelo ódio, mas parecem ao mesmo tempo, apaixonados por Carr. Eu me afasto, os dois conversam em particular. O árabe tenta enfiar a mão nas calças do meu amigo, este evita e o golpeia na fronte. Um intenso nevoeiro nos prende em uma redoma. Desespero-me em meio aquela cegueira e tateio o chão tentando encontrar algo para apoiar. Sinto uma arma, um revólver. Empunho a coisa e armo o gatilho. Nas mãos do árabe, uma faca dança no ar. O vento frio corta o meu pensamento e força meu dedo que, sem trégua, acerta o peito do homem. Ele agoniza, mas sinto-me potente o suficiente para despejar-lhe outros quatro disparos. Lucian Carr se aproxima de mim e segura meu braço. Seu toque se torna diferente, mais suave. Sinto um cheiro conhecido, parece um perfume. Olho para o lado, ao invés de Carr, quem me segura é minha mãe. Ela já não está morta, mas seu odor, antes um perfume se transforma em algo altamente podre, como que em decomposição. Tento me desvencilhar de sua posse, mas não consigo. Ela mira meus olhos com seus olhos de cadáver e diz com a voz do próprio Lucian Carr: “Sua sentença será de acordo com a indiferença pela morte de sua mãe. Você será condenado ao inferno e assim como este árabe, seguirá sua eternidade agonizando por sua inexpressiva existência”. Foi exatamente neste instante em que eu acordei completamente assustado com tudo aquilo.

    Na manhã seguinte, já em terra firme, tenho um encontro marcado com um agente que pretende publicar meus textos na Europa. Seu nome é Maurice e parece um sujeito interessante. Ainda atormentado pelo sonho, não me concentro em nossa conversa. Tenho uma louca vontade em reparar um erro. Ele me convida para uma festa em sua cobertura de frente para o mar. Recuso a oferta e perco a oportunidade de me tornar alguém conhecido no velho continente, deixo para o futuro qualquer julgamento, tanto sobre minha mãe, quanto sobre livros ou assassinatos.

 

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Kerouac VERSUS Rothko

Thursday, April 24th, 2008

    Nos anos 50 o mundo estava mudando e nem todo mundo sabia disso. Era o Jazz explodindo em novas formações, o consumo se tornando lei, a TV e tudo mais transformando a vidinha fácil do interior em uma rotina de trabalho e fumaça. Os carros ficavam cada vez mais barulhentos e as garotas cada vez mais espertas e, por isso, faziam as coisas alucinarem na frente de qualquer um. Ser reconhecido se tornou condição para se existir na América e eu queria muito ser alguém. Lutei contra as minhas angústias depressivas e passei um bom tempo batendo com a cara na parede.

    Nesta época havia um tipo de gente, uma classe especial de artistas que mesmo quando uma editora recusava os meus manuscritos, me dava força para continuar tentando. Eles confirmavam com imagens, sons e movimentos o que eu queria fazer com as palavras. O que almejávamos estava por trás do que dizíamos e isso era o retrato desse momento. Trouxemos de volta a vida para a arte, detonando aquele formalismo fechado e cheio de esquemas. Por mais que nossos trabalhos fossem bem literais, alguns eram absurdamente abstratos e dependiam do acaso. Outros, racionais ao extremo, transformavam o inesperado em algo um tanto previsível, porém sem qualquer tradução simbólica. Os americanos estavam buscando desesperadamente as coisas e seus conteúdos e nós, enxergando o espírito da geração de forma completa, olhando para o pano sem fundo e vazio que se encontrava por trás da existência.

    Com o tempo, descobri que estes chapas gostavam da mesma literatura que eu, quase todos vinham do mestre Dostoievski e tinham sua admiração por Kafka, Nietzsche e mesmo Jack London. Um dos que mais me encantou com a sua melancolia e ao mesmo tempo, sabedoria louca, foi Mark Rothko. Conhecia seus trabalhos desde o tempo em que freqüentei a Columbia, mas na época ele pouco impressionava. Finalmente, quando eu lancei O Livro ele também fez uma exposição dos abstratos mais pertinentes que já havia experimentado. Sim, experimentado. Era como tomar um peiote ou se acabar em bezendrina. A viagem de Rothko foi algo inesperado para o Jack bobão, mas também mexeu demais com o velho que dormia dentro de mim. Acho que foi a partir dali que compreendi a distância entre a vida interna e essa porcaria de existência na realidade, uma chatice com um monte de gentes pegando no seu saco e querendo arrancar suas bolas. Ainda fosse de raiva, mas era tudo antropofagia.

    Quem tiver oportunidade de reverenciar a arte desse imigrante russo e perceber a fidelidade em que atinge a noção do espiritual vai conseguir, silenciosamente, encostar a ponta de sua consciência na verdade suprema. E dali em diante, se for nobre e tiver coragem para negar a covardia, vai compreender o quanto estúpido é ligar preferencialmente para as coisas. Por mais que elas sejam nossas extensões, são também descartáveis e perecíveis. Ou seja, invaliosas para a verdade suprema do seu Espírito.
Jack K.

Kerouac VERSUS Baker

Wednesday, April 16th, 2008

    Chet, Chet, Chet… mil vezes Chet! Nunca vi algo tão louco portar tão bem a porra de um trompete alucinado feito um deus no topo da montanha mais alta da imaginação sonora. Seu cool jazz me fazia alucinar, suas frases enlouquecidas me tiravam do cérebro. Um puta mentiroso esse maldito! Um grande beatificado esse cadavérico artista das estrelas. Sua música inundou Nova York de inveja, ninguém acreditava que um braquelo banguela poderia comandar tão bem o ofício da negaiada. Davis até tentou esconder seu espanto, mas ninguém mais do que ele mesmo foi capaz de reverenciar o diabo louro do oeste.

    E depois de uma noite incrível de Jazz e whisky fui apresentado ao promissor Chet como um promissor escritor do leste. Estava de passagem pelos arredores de L.A., era uma segunda-feira fodida em que eu e o pessoal não tinha porra nenhuma para fazer e surgiu a idéia de visitar um bar que ficava nos arredores da cidade. Era um porão que abria as portas para o Jazz toda segunda. Acho que era nesse dia por que ninguém iria querer ver esse tipo de coisa acontecendo no fim de semana. Tinha uma galera bacana em Los Angeles que odiava qualquer coisa que vinha dos negros e esse pessoal não tolerava qualquer citação a eles. E nós como éramos loucos por tudo que saia da alma negra, íamos onde ela estivesse.
    Pete me pegou pela gola e me levou para um canto onde um pessoal puxava um fumo. A princípio achei que essa era a nossa intenção, mas de repente percebi que ele queria me apresentar ao altão louro e banguela que falava sem parar de seus feitos.
    - Hey Chet, esse é Jack, o cara que eu te falei!
    - E ai? - Baker estendeu a bagana na minha direção e me ofereceu o baseado. É claro que aceitei na hora e antes de responder o seu cumprimento, mandei a fumaça para o mais profundo do meu corpo e ainda com ela estocado no meu peito respondi:
    - Cara, você manda como os negões da costa leste. Tem um pessoal lá que não irá acreditar quando eu falar que vi alguém ao nível do Parker e do Davis.
Acho que ele não se sentiu muito à vontade com a comparação, pois praticamente ignorou o que eu disse e se virou para um outro cara que ali estava. Porém, antes de sair dali, ele se virou e me disse que depois queria continuar a nossa conversa. Eu apenas abanei a cabeça e passei o fumo para o próximo. Pete ficou meio envergonhado, mas eu logo acalmei a sua ansiedade e pedi para ele relaxar. Já estava acostumado com essas pretensas estrelas, eu mesmo era uma delas, afinal.
    Acho que nunca mais a gente se falou direito, apenas na Europa em sessenta e pouco, mas passei a anunciá-lo por onde for que eu fosse. Acho que sentia uma energia estranha que rolava em mim e que não sei exatamente porque, via que tinha naquele cara. Penso que devia ser o caso de eu ver nele algo que eu nunca pude ser, um branco tocador de jazz.
    Ao longo da década, de 50 quando Chet chegava a NY, eu fazia questão de levar o pessoal para ouví-lo, mas o meu orgulho nunca me permitiu muita aproximação. Na verdade, tinha medo dele sair de fininho como da outra vez. Acho também que o filho da puta ficou ofendido de eu dizer que ele tocava como os negões. Um mané orgulhoso de uma figa que se achava um deus. E por que não? Talvez fosse mesmo, um daqueles sopros divinos que descem ao inferno para se deprimir e instigar aos simples mortais na mais pura arte das estrelas.

    Quando eu já tinha me transformado em um escritor célebre, tive um encontro com o maldito na Europa. Naquela época acho que tanto eu quanto ele estávamos mais a fim de nos enlouquecer do que falar com as pessoas. Assim, numa festa de uma bicha italiana que vivia em Paris tivemos a honra de dividir a mesma agulha e ficarmos soltos por umas horas, investigando cada um a alma do outro. No início havia ainda uma moçada, mas de repente só sobrou o nosso papo alucinado, cada um falando arrastado e desorientado sobre si e também de como as pessoas e a imprensa nos deprimia. Chegamos a conclusão que o melhor mesmo era entrar cada vez mais para dentro e esquecer que existe algo ai fora. Ficamos ainda mais deprimidos e percebemos que sim, havia algo entre a gente, mas era tão pesado que o melhor seria cada um esquecer o outro, como se esquece do que acontece num porre de vodka.

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Jack Kerouac VERSUS Charlie Parker

Tuesday, April 8th, 2008

    A primeira vez que encontrei com Bird foi quando Ana Lee Morison estava entregue numa cama vagabunda de hospital. Quando cheguei para visitá-la, um negro em um sofá, usava chapéu e com uma expressão deprimida olhava profundamente para o corpo surrado de Ana Lee. Ele percebeu meu volume se aproximando e como se esperasse qualquer um, me disse: “rapaz, essa garota enlouqueceu a minha vida. Ela estragou mais o meu coração que qualquer droga fodida”. Olhei em seus olhos, cabisbaixos e viciados, mas não parei para respondê-los. Segui adiante. Ele parecia não se incomodar com o cheiro do lugar. Sempre me importo em classificar os bons e maus odores. Geralmente, onde há corpos doentes, há o pior cheiro possível. A doença sai de dentro igual merda, impregna tudo com sua sujeira interna. 
      Na época eu ainda tinha um lance bem místico, curandeiro. Passei a palma da minha mão direita sobre o corpo de Lee, enquanto a outra pus na sua fronte. Fechei meus olhos e tentei me conectar com a divindade da saúde, queria que renovassem suas forças, que suas células fossem reestabelecidas o quanto antes. Mas no momento de pensar sobre isso, um outro tipo de pensamento invadiu minha mente: “porra, se lá é melhor do que aqui, por que Ele iria querer que ela permaneça desse jeito aqui! Se ela se libertaria dessa maldita doença tão logo deixasse a prisão córporea, por que Ele iria intervir, deixando ela sofrer mais com esse corpo moribundo!” Todavia minhas expressões cristãs não permitiam admitir tais e tais alusões ao bem ou ao mal-estar de ser vivo nesse mundo. Desconectei dessa verdade e insistia em irradiar energias positivas. O homem sentado, intuindo minhas preces, esparramou sobre mim algo que nunca mais saiu da minha cabeça. “ei cara, Ana Lee não quer mais saber desse seu Deus que faz sofrer aqui nessa terra. Ela quer embora, quer voltar para onde seus ancestrais nunca saíram. Deixa ela em paz, cara. Reza pra quem ficou aqui amigo. Ela já ficou numa boa”. Desconcertado, me afastei da cama. Já o reconhecendo, disse ao sujeito,”Ei Charlie, já te vi tocar o suficiente para saber o quão demoníaco é o seu espírito. Se bobear você prefere que ela vá para se livrar desse fardo!” Bird não se surpreendeu com o mee texto, mas triscou sua língua nos dentes. “Ei moço, eu não te conheço, mas acho que não devia falar essas coisas na frente da Lee. Ela ainda tem o direito de morrer sem que dois homens se matem na sua frente”. Alguém já havia me dito mesmo que uma lenda do submundo contava que vários caras se esfaquearam pelo amor de Ana Lee Morison e que muitas vinganças tinha sido realizadas e que muito sangue havia corrido em nome dessa maldita.
    Ana Lee Morison foi embora para algum lugar no dia seguinte à nossa visita. Depois disso, ainda encontraria com Bird algumas vezes e em todas ele passou a me olhar como se fossemos velhos confidentes.

alt : http://www.youtube.com/v/DEibWy5miBk&hl=en