Há muito venho meditando sobre o que é melhor: eficiência ou beleza. Existem épocas em que me encanto pela estética, em outras pela racionalidade. Todavia acredito que não é possível ter em uma obra, senso de estética apuradíssimo, que não seja criticado em nenhuma instância. Nem os maiores artistas da humanidade foram ovacionados em 100% de suas obras e nem suas maiores obras foram reverenciadas em 100% de suas partes. Acho que isso ocorre por que há um modelo pré-fabricado de beleza, mas outros parâmetros parecem contribuir para o gostar ou não de alguma coisa, seja ela uma música, um vídeo, uma pintura, uma colagem. Sempre existe a cultura a qual o observador está limitado, ao seu momento atual de vida e aos seus modos de encarar as coisas. Uma figura de uma mulher nua pode ser bem vinda para um holandês libertário, amante da boemia, mas pode ofender e ser vista como horrenda por uma senhora italiana. Não que as nonas sempre repudiaram os nus, mas é muito mais fácil elas exporem seus descontentamentos com certas imagens relacionadas ao erotismo, ao corpo, à feminilidade do que o macho dos países baixos. Da mesma forma, um mulçumano poderá agir radicalmente se vir a imagem de seu profeta sendo desenhada. E por aí vai. E não é só uma questão de gosto ou de liberdade, é um emaranhado de signos que remetem à sentimentos contraditórios em milhares de mentes ao mesmo tempo. Fico imaginando o funk carioca. A batida é de certa forma interessante, ela dá mesmo vontade de dançar, mas aí a ouvir já é outra história. Escutar e compreender a letra, então, dá muita vontade de pedir para nos retirarmos de campo e nascer em outra época. Mas graças à divina força, podemos ter nossa liberdade individual bastante preservada e hoje, do alto dos meus vinte e poucos, posso escolher não frequentar a massa, não passar o carnaval correndo atrás de bucetas, não ligar a TV, ler um livro grande, sem figura, parar diante uma santinha e fazer uma prece, dar um trocado para um mendigo sem que ele o peça e por aí vai. Este tipo de escolha é muito melhor e maior do que aquele anunciado nos comerciais. Lá eles dizem que nem todo mundo precisa de gostar da mesma coisa, mas dizem isso para que muita gente goste da mesma coisa e se sinta diferente, mesmo sendo exatemente igual!
Os Celtas (gauleses) despertaram a atenção dos Romanos pois se relacionavam com a morte de uma outra maneira. Também eram pagãos, mas criam na continuidade da vida e impressionavam outras culturas com esta certeza. Tinham tendências suicidas, firmavam acordos para além túmulo e também desprezavam certos valores muito preciosos para outros povos que não acreditavam que a vida continuava após a morte física. Durante muito tempo, os celtas foram conhecidos como o povo que descendia do próprio Deus da Morte.
Kerouac, quando chegou outubro de 1949, fez alguns questionamentos a respeito do próprio destino e da valia desta vida na Terra. Chegou à conclusão de que não era um Hipster e sim, um escritor de história sobre estes sujeitos. Em seu diário ele aponta crer em uma vida outra, de um ponto de vista diferente. Ele menciona o céu e sua relação com Deus. Diz-se submisso à vontade do Senhor e mais do que isso, coloca-se como um daqueles que irão sofrer por ter que cumprir um papel neste mundo.
SEGUNDA-FEIRA, 03 DE OUTUBRO DE 1949
OUTUBRO chegou outra vez,
1949 outra vez,
outra…
Mas isso foi resolvido com facilidade. Uma rápida reflexão sobre o assunto. Concluí que não sou um dos hipsters, portanto sou livre e penso sobre eles com objetividade para escrever sua história. Tampouco sou Red Moutrltrie, então posso me afastar para examiná-lo. Não sou sequer Smitty, nenhum deles. Estou apenas descrevendo um fenômeno evidente apenas em nome de minha salvação pessoal no trabalho, e a salvação e valorização da vida humana segundo minhas próprias intenções. O que mais pode existir de verdade?
Todo o resto na vida, com quem vou casar, como será minha saúde, onde irei morar, quem amarei, é desconhecido e tem muito pouca importância para mim, já que pertenço a Deus e estou trabalhando cegamente sob seus desígnios reluzentes, segundo Suas intenções, que se manifestam ao meu redor, que são menores mas não menos destinadas e ordenadas.
Ademais, nesta vida não preciso de coisa ou, até agora, pessoa alguma, no que concerne à minha vida predestinada, que é a vida do trabalho simples e mais cedo ou mais tarde finalmente, a que segue pelo Caminho Iluminado do Adivinho Flamejante.
Isso não pressupõe que não morrerei de alegria. “O corpo chama isso de morte, o remorso de coração.” De minha parte, chamarei isso de alegria, e como a alma está morta, posso apenas esperar.
Quando a graça baixar sobre mim, saberei reconhecê-la como tal, e conhecerei a Beatitude, mas não posso ir além disso, não posso me agarrar a mim mesmo para desembaraçar as samambaias emaranhadas do vale, e as vinhas, que são o resultado das Intenções Divinas que têm como objetivo mistificar e purificar nossos desejos corruptos na terra. Vejo que Deus não deseja que o homem agarre a si mesmo, só quer pisar obediente no caminho confuso que leva à Sua Luz Fulgurante, quando será compreendido que todas as coisas são o que são, o que são, e o que são, na perfeição do Desejo Incorruptível.
Qual a intenção de Deus? Que obedeçamos as torvelinho de Suas Ordens até que Ele proclame o descanso para todos.
Por que isso?
Apenas, acho, em preparação para um fim dessa natureza inquieta, que Ele fez para demonstrar o significado da Luz Contemplativa Absoluta, que Ele deseja guardar para sempre em seu peito. Um fim para isso - uma preparação para o que nunca termina.
Na verdade, o mundo não importa, mas Deus o fez assim, então importa em Deus. E Ele tem seus objetivos, que não podemos entender sem a compreensão da obediência. Não há nada a fazer além de louvar, Esta é a minha estética da “arte”, e é assim mesmo.
Dentre os vários, existem dois tipos fundamentais e antagônicos de pensamentos a respeito do acontece. Ambos se relacionam com a passagem do tempo.
1º) O tempo como sucessão infinita de momentos descontínuos
Cada pedaço do tempo é independente do anterior e não é primordial ao posterior. Neste módulo, nada é dependente de nada, tudo se constrói e se acaba em si mesmo. É a vida do homem secular que divide, excluí, classifica cada parte da vida, cada coisa do mundo. Este é o pensamento criado pela mente humana e em suas convenções. Apesar de ser abordado em primeiro lugar, este não é um tempo fundamental, mas sim, secundário!
2º) O tempo único
Aqui o tempo também é apenas uma abstração sobre a coisa maior. Não tem início ou fim, é sempre um entre-lugar, uma passagem. Todos os momentos se relacionam, o passado, o presente e o futuro são fundidos no mesmo espaço. Eles se encontram, sobrepondo-se, opondo-se, completando-se constantemente. Não há intervalos, é tudo imanente. Esse é o tempo daqueles que vivem no “ao vivo”, acordados e despertos. Neste tempo não existe criação, apenas PASTICHE!
Fico ainda com um terceiro: único e múltiplo, geral e sectário. Este é o tempo do caos. Ora se segmenta, ora é cotínuo. No fim, é um segmento contínuo. E assim é a vida, não é?!
Segue: Allen Ginsberg + Kerouac + Nova York + Beatnik