Archive for January, 2008

Fubango não morreu (eu achei que tivesse)

Tuesday, January 29th, 2008
A memória realmente parece ter sido uma das maiores aliadas de Kerouac. Além de sua óbvia utilização estilística, as lembranças parecem ter povoado e angustiado demais Jack. Eu, pelo contrário, tenho certos problemas em recordar alguns instantes da minha vida preguessa. Vira e mexe alguém me lembra de algo que eu tenha feito. Dessa forma, fico até um pouco admirado com o meu passado, inclusive crendo mesmo que eu fui outra pessoa, senão persona.
E assim, teve uma época em que uma dessas minhas personalidades parece ter tomado controle de boa parte de meus desejos. Deram-lhe até nome, “fubangu”, corrigido mais tarde para o português correto como “fubango”. Mas tudo bem. Não é raro alguém me perguntar se eu tive algum apelido no tempo da faculdade ou mesmo, antes. Quando menciono a senha a pessoa fala “Isso, é isso mesmo. Fulano de tal te conhece dessa época”. O fundamental disso tudo é que a gente muda e se transforma em algo melhor do que era antes. Não que o fubango fosse algo tenebroso, ele era exêntrico e imaturo, mas é bem provável que quando a memória me trouxer histórias interessantes, esse personagem vai estar lá apimentando e enlouquecendo o enredo das versões.
Hoje, não muito mais velho do que naquela época, pareço mais com a antítese desse tal fubango, mas nem por isso me livrei totalmente de seu feitiço. Às vezes recorro ao seu espírito ‘quanto pior, melhor’ ou então sua forte franca, sincera e sem noção de expressar sua necessidade de aparecer e ser notado. Ele foi o responsável pelo meu nascimento e renascimento digital. Em 2000, quando finalmente pude entrar na internet em casa, criei esse nick para me diferenciar. Da mesma forma, um ano depois construí um site www.jaunfubangu.hpg.com.br que durou uns cinco anos até ser sumariamente apagado por alguém que não eu. O seu conteúdo era um rascunho da minha luta interna, pois ao mesmo tempo em que tocava nos assuntos que me deixava revoltado, também refletia meu momento mental através de um layout exagerado e bastante confuso. Uns três anos depois de criado, o HPG (home page grátis), por ironia começou a cobrar pelo serviço. Tanto eu quanto o fubango concordamos num ponto em comum: A internet é gratuita, pode-se ganhar dinheiro com os acessos, não com o conteúdo. Por isso, não me preocupei quando eles travaram a minha senha. Anos mais tarde, na primeira onda de blogs, quando já estava em uma onda mais paranóica criei o www.fubangu.weblogger.com.br que durou até o fim de 2006 ou meados de 2007. Na verdade, quando me desfiz desse canal foi como enterrar um ente, o tal fubango. Havia nele algo um pouco doentio demais e preferi me livrar dessa alcunha, afinal estava me preparando para ser pai de uma garotinha e já era marido de uma mulher séria. Simbolicamente enterrei o fubango com uma das mais estranhas histórias vividas por ele e que um dia me atreverei a contar novamente. Hoje, finalmente, pude encontrar um caminho sem que precise de alcunhas, mas acho que minha experiência fubangulística poderá e muito acrescentar em meus escritos futuros.
Apesar de tudo, o fubango sempre foi um apaixonado pelo mistério da vida e por isso, quis ir com muita sede ao pote. O bom dessa história toda é que hoje eu consigo me diferenciar de sua ansiedade e exagero. Espero poder reverenciá-lo da forma como gostaria que fosse: com muito drama, exentricidade e verdades indigestas.

Confira abaixo algo que estava em minha mente quando ela era divida com o fubango:

alt : http://www.youtube.com/v/ICXdQR1VVhw&rel=1

Diário de Kerouac 26 de janeiro de 1948

Saturday, January 26th, 2008
Há exatos 60 anos, Jack escrevia em suas anotações as seguintes linhas:

“SEGUNDA-FEIRA 26 de JAN. E agora estou finalmente pronto para embarcar no episódio final de City. O que já fiz até agora, todo esse trabalho duro, que só vagamente se parece com o que eu intencionava, em resumo, o melhor que eu podia fazer. Um dia não vou mais precisar dizer isso. Terei o verdadeiro controle. E agora sobre as fúrias teatrais e fúrias morais de meu episódio de City - E para faz^-lo real não posso planejá-lo com muito cuidado, apenas vou deixá-lo crescer como uma planta, aos poucos: não é lógico, mas orgânico. Há muitas palavras pomposas para descrever isso, palavras goetheanas, mas as coisas estão ficando sérias demais para brincar de ciência. Portanto, escrevi 2.000 palavras. Também andei 5 quilômetros, comi duas boas refeições e fiz 16 ¹/² barras esta noite. Eu devia ter sido um financista e tudo o que eu faria seria ficar sentado e contando os números da minha riqueza, dia após dia.”

Diários de Jack Kerouac (1947-1954) - Ed. e int. Douglas Brinkley

Uma viagem alucinante

Saturday, January 26th, 2008
Em 2003 estava todo fudido por que minha ex me achava junkie demais. Tinha o filme queimado em casa e ainda tava tomando uns remédios (lithium). Num dia em que a menina foi pruma conferencia em salvador, eu fui pra Ibitipoca, uma vila de maconheiros em uma reserva estadual (ótimo lugar para se refugiar da humanidade)! Só que fui doido e com mais três pessoas mais junkies que eu. Na época já tinha passado por uma fase transcendental, tava na parte ruim, cabisbaixa e confusa entre eu e eles.
Fomos de carro numa estrada fudida, típica viagem em que morrem uns três. Chegamos a uma caixa-dágua que sempre íamos nos tempos anteriores e ficamos fumando maconha até de manhã. Nesse meio tempo, fui ao cemitério rezar aos mortos e pedi à Deus pelas almas aflitas no mundo. Foi muito louco e alucinante. Teve uma hora em que eu vi várias almas pulando o muro do cemitério, era como se fugissem da prisão. Na hora, eu era apenas um espectador, tive duas impressôes: ou aquilo era uma viagem tremenda, não estava acontecendo ou então uma horda de espíritos errantes estava fugindo do inferno. A coisa foi tão louca que dois dos que foram, voltaram para a cidade e eu e mais um chegado ficamos numa espelunca. No dia seguinte, voltamos a caixa dágua, só que dessa vez, nós subimos. Eram uns 6, 7 metros. Fumamos vários baseados e tive certa dificuldade para descer.
Quase caí lá de cima, desistindo da vida apenas por não conseguir sair daquela situação angustiante: minhas pernas tremiam de tal forma que percebi minha impotência diante meu corpo e meu medo. O joelho batia na escada e a escada balançava e eu pensava em deixar meu corpo cair. “Pelo menos assim”, pensei ”as coisas acabavam”. Consegui descer, pegar o ônibus e voltar para a cidade. De manhã quando acordei, fiquei sabendo que minha mãe havia descoberto que eu não tinha ido para a serra do relógio, pelo contrário, que eu tinha ido para a cidade da maconha. De tanta culpa e raiva de minha impotência, disse a minha mãe que queria ser padre de tão magoado estava com as pessoas. Foi phoda!

alt : http://www.youtube.com/v/sUUHNf0S5cA&rel=1