Kerouac Vs Rosa

November 7th, 2009 by J D Oliveira

Bill ficou muito vidrado no que viu abaixo do Equador. Ele me mandou cartas e mais cartas da América do Sul. De certa forma, eu tenho uma consideração a fazer a essa parte do globo: algo ali me excita de verdade, é um paraíso almadiçoado, um lugar de perdição ingênua, mas letal. Uma coisa que me fascina é certa devoção que também sempre tive ao Cristo. Há uma tristeza no rosto da índia que imagina seu Jesus cabloco, mas de olho azul. Bill conta que os americanos são parâmetro para qualquer coisa. Nós engolimos alguns resquícios da sociedade espanhola decadente das capitais. Eles nos adoram como ídolos, finalidade de suas vidinhas riquinhas com uma história de lutas injustas regadas a sangue nativo.

Todavia nem é tanto desta parte da América Latina que  “algo mais” toca o meu espírito. Tenho medo, pavor, horror, pânico de pensar solto em meio às terras quentes do Brasil. Por sorte, houve uma alma que resolveu acalmar meus tremores. E fez mais: recordou um fato que havia gerado um dos fatos mais impactantes de minha vida logo após O Livro.

Primeiro por este, depois por aquele.

Era verão e ainda não havia se passado nem um ano desde a fatídica resenha no NYT. O mundo havia girado no fundo de várias garrafas e eu, a cada semana, me transformava cada vez mais em um traste. Acho que o erro sempre foi não ter percebido que eu já estava velho para aquilo tudo. Pois bem, eu só queria que o tempo passasse de forma suave e intensa, um paradoxo perfeito para quando a fama abocanha o seu rabo. Naquelas últimas três noites eu, All e os rapazes ficamos nos dividindo entre vários pulgueiros de Nova York. Em uma das manhãs, alguém apareceu com uma Kodak e congelou na história o momento em que os beatniks foram pegos a luz do dia. Mal sabiam eles que o sol era tão artificial quanto a lua naquele momento. Exatamente naquela hora, qualquer coisa era contínua com a noite, nada além disso. A luz seria uma alegoria para a verdade oscura.

Mal sabia distinguir qual era o direito ou o esquerdo. Mesmo assim, fui amparado por anjos até o portão de casa. Deitei no algodão como se entrasse num saco de feno confortável. As nuvens foram transformando o ambiente e logo ocupava a divisão onírica da vida. Obviamente, meu estado mental ainda andava intoxicado e as cenas do sonho não foram outras quantas as que narravam o martírio do próprio Cristo. Minha culpa por deteriorar a carcaça agraciada por Deus ao meu espírito, me trouxe um resultado dos mais angustiantes dentro do sensorial mundo de Morpheus. Queria logo que a epopéia desconsertada dos meus erros marchassem pela minha cabeça. Porém, ao invés dos tanques do abutre, meu mundo de sofrimentos é acossado por um moleque atirando pedras em minha vidraça. Acordei gritando filho da puta, mas antes de terminar minha oração, Deus puniu meu ser me enviando uma dor de cabeça aguda e pronfunda. Fui ver o que era com o gosto do sangue na boca, queria canibalizar quem me tornara tão pesado naquela noite. “Senhor Jack, Jack…” VAI EMBORA FILHO DUMA … ai ai Aihhhh!!! “Esta acontecendo alguma coisa ai, senhor Jack”, insistia o pentelho, agora preocupado com a minha saúde. “Senhor Jack quer que eu chame uma ambulância?”. Não, não, disse. O que você quer? ” Estou indo embora para minha casa amanhã. Sou de muito longe e li o seu livro nestas férias. Não poderia voltar para São Paulo sem ver a sua cara”. Então você bateu na minha janela, está gritando na porta da minha casa só para ver a porra dos meus olhos azuis. Você é uma bicha, sai do meu quintal! “Calma, pelo menos autografa o meu livro… quer dizer, o seu?” Ok, vou descer.

E ai acabou que ficamos conversando e ainda eram 9 da noite. Meus ânimos pareciam ter voltado e agora eu já queria levar o rapaz para uma noite especial na capital do mundo. Ele me disse que seu nome era Guilherme e havia vindo à NY visitar um parente. No dia seguinte, voltaria para o Brasil, onde cursa algo parecido com a High School. Guilherme estava bastante apreensivo, falava o tempo todo em uma partida de futebol, mas não como o nosso e sim, o dos ingleses afrescurados. “Jack, amanhã é a final do campeonato mundial. O Brasil tem um time formado por gente de toda cor, muitos são misturadíssimos. E o pior é que as principais estrelas, as que estão despontando nos jogos são negras. E sabe aonde está sendo a Copa do Mundo, como é chamada?” Não, respondi desinteressado. “Na Suécia, Jack!” Ele tinha razão, como que pretos poderiam de novo superar os branquelões. Isso já tinha sido motivo para uma guerra!!!! Hitler não agüentou quando o negro fudido Jesse Owens venceu com folga os alvos da raça perfeita ariana e descontou balançando seu pintinho invadindo a Polônia.

Guilherme me convidou para ouvir a partida pelo rádio em uma estação da colônia italiana em Newark. Partimos para a cidade perdida e chegamos a uma espécie de rádio-pizzaria. Já eram 11 da manhã quando a bola rolou em Estocolmo. A narração era em um inglês britânico dos mais afrescurados, mas que incrivelmente dava muita emoção quando entendíamos que algo estava acontecendo. O estádio parecia vir a baixo e o locutor elevava o tom. No final das contas, Guilherme e os italianos comemoraram mais vezes do que xingaram o aparelho. O Brasil dos pretos ganhou o campeonato mundial e vi pessoas de outras partes do mundo deitarem lágrimas sobre o solo da América.

Por causa desta experiência, não fiquei assustado quando o senhor de óculos me perguntou se eu conhecia alguma coisa de “soccer”, como nós chamávamos o esporte, segundo ele. Pra mim sempre foi o futebol deles, talvez de maricas, mas tudo bem, nunca soccer. Apesar de não ter ligado o nome ao esporte, pelo sotaque carregado, logo vi de que esporte se tratava. Falei em francês (acho que aceitaria mais a minha fala assim): Como não, até ouvi o título mundial do Brasil em 58.

Cai nas graças do sujeito. Alguém muito importante e interessante, diga-se de passagem. Nos últimos meses tentei entender um pouco da sua literatura, mas imagino que deve ser a mesma dificuldade de encarar um Finnegans Wake sem ter o inglês como matéria-prima. Tinha sido diplomata e agora, como eu, esperava para fazer parte de um programa de TV francês. Nos apresentamos, ele me reconheceu, me parabenizando por Vagabundos e disse gostar bastante do ritmo de minha escrita. Fiquei curioso para saber como era  a sua misteriosa e cativante terra. Explicou-me que poucos recursos haviam chegado ao país e que por isso, como o povo era bastante criativo, algumas alternativas foram construídas. Por exemplo, algumas cidades são em torno de florestas e por isso, um meio de transporte usual é o cipó. Dizia ele: “o pessoal sai do morro e vai para o centro descendo por cipós firmes, recolocados pela prefeitura em caso de qualquer defeito”. Contou que por lá, existia uma bebida mágica que transformava gente em um felino selvagem chamado “Onça”, como a medida.

É interessante como os nossos caminhos se cruzaram. O meu, a longa estrada empoeirada e a sua marginal, ele, um poeta, profeta reconhecido pela matemática de suas proposições completamente caóticas e Zen. O tal senhor Rosa escreveu sobre uma terceira margem, um terceiro lugar na travessia do rio. Na hora vi o velho jangadeiro de Sidarta, o fluxo em trânsito pelo meio, sem apoio nas margens, mas consistente em sua paciência e leveza sobre o rio. Um delírio sobre a própria angústia de viver a deriva entre os macacos falantes.

Cada um entrou no estúdio a sua hora. O momento de Rosa foi após o meu, mas como fui interpelado por algumas leitoras histéricas e beats da França, pudemos nos encontrar novamente no saguão da emissora. Ele me desejou o melhor possível em minha jornada literária e me convidou para passar alguns dias em sua aldeia. “Tem uma linda praia”, diria ele. OK, irei quando as coisas se estabilizarem, quem sabe quando eu mudar de vida e não precisar mais do mar alucinante da América, eu topo por lá. Não seria mal me transformar num gato selvagem.

Kerouac vs Borges

September 27th, 2009 by J D Oliveira

Sempre gostei muito do termo marginal. Identifico minha alma com aqueles que insistem em andar sobre o fino meio fio do estabelecido. A cada momento penso mais e mais em abandonar qualquer simpatia pela rude e opressora tradição. Já estamos em 65, porra, e até agora a guerra ainda não acabou. Os bastardos que assumiram a negociação tentam impor uma racionalidade impossível de ser exercida. O pior é que sabem disso, porém enquanto todos nós aparentemente temos que andar na linha, eles enriquecem as calças com grana, putas e muito álcool. Já diria meu tio Joe, “nenhuma decisão sensata foi tomada de forma sóbria na história dos conflitos humanos, muito menos por quem nos governa”. Sabia sensatez de um velho comuna rabugento. Mas aqueles que estão na margem ainda estão dentro do próprio sistema. Gostaria que entendessem o que um ex-diplomata do Brasil escreveu. Os verdadeiros vagabundos iluminados da geração perdida estão à deriva na terceira margem do rio. Eu também gosto dos alucinados e da história da loucura, não vejo particularidades mais fantásticas do que as narrativas dos loucos e videntes. Hoje em dia, tentam impor remédios para a natureza caótica ser normatizada pela razão sanitária demagoga.

Mas estávamos em uma convenção de escritores ditos marginais. A impressa, os déspotas esclarecidos, vieram até nós como se fossemos animais selvagens encontrados no seio da África. O Livro já havia sido lançado e eu representava a tal geração beat naquele lugar – uma cidade costeira da Colômbia. Por mais absurdo que possa parecer, apesar de estarmos em uma nação ao sul, quem comandava as ações eram nós, os do norte. A comissão organizadora, os servos do hotel e todas as perguntas eram feitas em inglês. Eu me atrevia a falar meu espanhol marginal de chicano. Um erro, logo veio a mocinha da assessoria me pedir para me recompor e falar como os civilizados. Da puta madre! Ela se virou e fez cara de quem adorava pisar nos marginais, me deu até tesão. Mas logo me arrependi de querer fecundar uma dessas branquelas que vêem na América um espelho inacessível e incompreensível aos olhos dos outros criados do mesmo carbono e da mesma merda que elas!

Um senhor simpático e sua bengala se dirigiram com dificuldade até mim. Em inglês – apesar do sotaque característico, ele me disse:

- Olá rapaz! Vi que tentou se comunicar com os primitivos. Cuidado, somos todos selvagens e a qualquer momento podemos morder seu pé!

Rimos bastante daquela afirmação enfática e pertinente. Acomodei o sujeito, pois percebi que não enxergava.

- É, estou nessa há pouco tempo, ainda não me acostumei completamente. Mas você sabia que agora que estou cego, consigo ler as almas das pessoas com mais facilidade!

- É mesmo, respondi interessado em seu bom humor. É que cor tem a das pessoas desse lugar.

- Ih, meu filho. Isso seria inconfessável. O grande irmão deve estar de olho em mim! Então, você me pergunta, por que lhe disse sobre ler almas se não posso lhe dizer como são?! Pareço louco não?! Mas não é isso. Queria apenas que soubesse que é possível ver algo além do que todos dizem e falam e vêem e escutam.

- É verdade. Confesso que também acredito nisso. E então ele me contou a história mais fantástica e real da minha vida. Um velho cego que já tinha visto coisas demais!

Eu nasci em Buenos Aires, capital da Argentina. Um grande país que fica um pouco mais abaixo e que nos últimos tempos tende a se tornar uma extensão de sua nação. Mas isso é coisa para outra hora. Como você me disse que acredita nas coisas que os olhos não podem enxergar, queria lhe contar uma passagem que ocorreu comigo quando ainda podia por meus olhos a serviço da luz.

Um dia, andando pelas ruas cinzentas de minha cidade, um pensamento muito estranho passou a me acompanhar: Jorge, você não existe! E não era qualquer pensamento, era o meu próprio deus atômico me dizendo isso. Ouvi como se fosse um locutor de rádio. E ele continuou por vários quarteirões me dizendo a mesma coisa. De repente, mudou o tom: Jorge, ninguém existe! Bom, agora sim fazia sentido, não era só eu, todo mundo também fazia parte da não-existência. Me senti um pouco mais aliviado. E assim fui pensando, se eu não existo e não existe ninguém, você tampouco, minha voz interior! Além disso, esse chão é falso, assim como o apito que o guarda deu, a buzina e mesmo aquela linda garota que acabou de passar de vermelho. Não, não Jorge! Ela existe! Ann?! A mulher de vermelho existe, Jorge! Deixei aquela loucura de lado e vivi o resto do dia como se nada tivesse acontecido. Somente à noite que fui retomar aquele diálogo. Na cama, fiquei imaginando o mundo ora não existindo, ora existindo, como uma respiração que nos deixa mortos por um naco de segundo quando expulsa todo o ar do corpo. Dormi com aquilo na cabeça e adentrei o mundo de Morpheus, abrindo as portas do meu inconsciente com chaves cada vez menos tangíveis. Vasculhei por um mundo inteiramente vácuo, mas também terrivelmente físico, onde os sentimentos e os pensamentos assumiam formas orgânicas e tirânicas me deixando apavorado e intranquilo. Uma decepção era uma lâmina gigante. Um sofrimento, a corda no pescoço apertando. O arrepio, a água gelada descendo a coluna vertebral por dentro. Mas de repente, apareceu o medo. Antes dele vir, já tinha pensado que talvez aparecesse sob a forma de uma nota de 100 pesos ou de armas bélicas ou quem sabe um pinto bem grande (risos). Porém, o medo me pareceu nada mais do que um gato preto e sem os olhos. Uma criaturinha que em nada me apavorava, pelo contrário. A vontade que me deu foi de acolhê-lo com todo o carinho dedicado a um felino indefeso. Porém minhas mãos eram sentimentos e nada confortáveis, eram espinhos que cortavam a minha alma e o couro do medo. Acordei apavorado com minha impotência diante o medo, não por sua imposição, mas sim, por sua dor.

Meu travesseiro estava inundado de sangue e o medo estava espatifado em meu colchão. Tomei um susto com aquilo e fui logo ao banheiro para fazer a barba e começar o dia longe de tudo. Ao me olhar nos olhos, pude perceber que no interior da minha vista, uma luz enigmática brilhava como um gato negro com olhos amarelos. Pensei, talvez seja a coragem vindo me dizer que o medo e o sangue nada mais eram do que a luta irracional do existir em meio à não-existência. Saí de casa, como em todas as manhãs e fui percorrer o mesmo caminho para ver se aquela voz aparecia novamente. Para a minha surpresa, ela veio acompanhada da mesma mulher de vermelho, mas que podia ser outra, apesar de também estar de vermelho. Ei, Jorge, é essa que existe! Ela é a cegueira do gato, foi a dor dela que manchou seu colchão nesta noite. Coitada, ela existe, pensei. Deve ser realmente inapropriado existir em um mundo fictício e sem explicação. Fiquei bastante intrigado com aquela coincidência e resolvi espreitar atrás da tal mulher. E a dona andava como se soubesse de sua existência. Mexia o quadril de forma a invocar qualquer alma perdida que estivesse pelo caminho. O que mais me intrigava nesta história era que somente eu sabia do detalhe de sua real existência. Será que ela também tinha noção disso? Esta indagação me fez aproximar, aproximar… e meu dedo já ia ao seu ombro quando um felino negro sem os olhos pulou na sua frente fazendo com se curvasse sensibilizada. Para disfarçar o atropelo, fingi-me de cego. Fechei os olhos enxergando os olhos amarelos do felino e tentei me apoiar em uma pilastra.

- Ei, olha por onde anda! Oh… é cego também, me desculpe!

Não tive coragem para lhe dizer que não era cego e que também sabia de sua não-existência. Realmente, não pude ver em que direção acabou levando o medo em suas mãos. Porém, fiquei mais satisfeito sabendo que desta vez o medo não sofrera tanto. Quem sabe ele só existe para as pessoas reais?

Kerouac vs Chaplin

September 6th, 2009 by J D Oliveira

Finalmente consegui um suporte realmente eficiente para a minha escrita. Fiquei por muito tempo ocupado pelo pouco espaço das folhas que sobravam do pão ou limitadíssimo pelas margens e linhas da brochura convencional. Fora isso, o movimento mecânico, o barulho contínuo e as não-respostas da máquina de escrever sempre me deixaram tímido - meu espírito se recusou por um bom tempo em conseguir se comunicar comigo pela falta de um espaço e uma ferramenta devida para que ele pudesse agir.  Com um bloco de notas em rolo, como um manuscrito e a leveza do grafite, as narrativas não são interrompidas e por isso não posso reconhecer a formalidade como um recurso, no mais, uma maneira de recusar o verdadeiro talento, a obra de arte em combustão. Outro dia ouvi mais um daqueles judeus malucos que fugiram da Alemanha. Antes de qualquer Pearl Harbor, esses caras já estavam aqui nos dizendo sobre toda a perversidade do sonho americano.Uma das poucas conferências que participei em Columbia fundou o resto da minha vida. E acho que é assim mesmo, as coisas beatíficas funcionam num átimo de segundo, num momento isolado que a gente não percebe. Só vê quando está nele, afundado, um pouco confuso, mas ainda assim, lúcido como um maquinista nos Alpes.

Vou me permitir encerrar esta primeira parte com um novo parágrafo. Não quero transparecer qualquer tipo de ofensa a quem lê e se acostumou a ver os assuntos separados por vírgulas, pontos e parágrafos. Deixei sim, a faculdade no meio do primeiro ano por que não conseguia me ver adormecido no sonho americano, servindo a pátria de acordo com o poder oficial. Servir ao sonho da liberdade não é seguir as normas de um estado e sim, praticar cotidianamente a diferença sutil que atinge ao espírito de quem se afeta com nosso presença. É na hora de atravessar a rua, se impondo na frente dos carros que insistem como reis da civilidade, entidades mais importantes que os homens que os navegam ou que passam por eles nas calçadas. É quando comprimentamos as pessoas nas ruas, independente da cor da pele, do tipo de roupa ou do lugar onde mora. Uma lástima cada vez mais aceita pelos jornais, corrompida pelo rádio e largamente inflamada pelo cinema. Não quero que o espírito que me habita e me habilita a falar sobre a verdade seja corrompido pelo sistema. Vou ser mais um branquinho a trilhar o verdadeiro caminho da América. A indústria que se forma é muito mais preocupante do que aquela que Chaplin denunciou - alienante, repetitiva. Agora é a propaganda, a própria empresa que Carlitos criou ao amenizar nossa angústia rindo de nossa ignorância diante o poder vigente. O nazismo não ocorreu apenas na Europa, nós, ou eles - eu sou fraco-canadense, os da América, fizeram o mesmo ou pior contra aqueles que aqui estavam. E foram os de pele branca, machos, protestantes que importunaram ainda os que são classificados como negros, nativos, latinos, judeus, velhos, bichas, mulheres e crianças. Para estes, qualquer lei é um absurdo! Os negros valiam 3/5 de seus pares brancos há pouco mais de 40 anos e hoje, precisam se esconder para apresentar a beleza de sua arte, principalmente, em se tratando de música e movimento. O jazz se tornou, finalmente, um grito negro. Algumas pessoas me olham de forma insinuosa quando converso com negros ou judeus. E esta história é resgata até por aqueles que não nasceram no novo mundo. Italianos, Irlandeses, amarelos, todos estes, pegam nas mesmas armas do preconceito e mesmo ridicularizando o modo americano de resolver as coisas, se tornam cidadãos quando se sentem incomodados pelas minorias. Eu ainda creio em Jesus Cristo como o meu grand Senhor. Quando li Camus no último verão, cheguei a conclusão que o nazareno seria a porra de um existencialista se habitasse entre nós nos dias de hoje. Um apaixonado pelo seu próprio romantismo, mas cético o suficiente em um niilismo incapaz de fazê-lo sofrer na cruz. O problema é que as mães não querem sofrer como Maria. Seus filhos não precisam do amor ou da sabedoria e sim, ser alguém, predominantemente, que seja alguém de posses, mesmo que a cargo de mentiras, assassinatos e conspirações.

Kerouac VERSUS Foucault

July 24th, 2009 by J D Oliveira


Odeio quando as coisas não saem como planejadas. Essa frase insistia em me perturbar nas últimas duas semanas. Fico com uma espécie de dor de cabeça, quanto sinto que tudo vai dar muito errado. Eu tenho planos e cada passo e um passo calculado, hehehe. Deve ter muita gente fazendo “annn,  mas você não é o cara que sai por aí, à deriva? Que pula do vagão e não sabe o que irá encontrar na próxima esquina ou garrafa?” Sim, sou eu, mas controlo quase todos os meus passos mentalmente, até o caos pode ser mapeado. É só QUERER não ter um destino certo, é pensar racionalmente e esperar a aleatoriedade da vida bater a sua porta dizendo “olá”, pronto. O que desagrada a minha existência neste exato momento é a dúvida pela validade de uma ação. O que o homem faz que não é para o outro? (mesmo que sempre queira é ter Un$ pra si). O pobre vaidoso se mata diariamente para mostrar ao mundo o seu valor, mas nem sempre os olhos alheios estão atentos ao que faz, somente ele mesmo presta atenção, como se fosse também o seu único público. E não era para ser assim? Uma ação deveria valer por ser executada, independente se anotada, filmada, gravada em rolos de fitas, mencionada em discursos, agradecimentos, livros de história, teatros de escola, contada em ações de graça, como exemplos na igreja, nas rodas sociais ou na de junkies. Ela é o que é e cada um a faz por que aquilo lhe parece correto de um modo, mesmo que o correto seja o errado. O maniqueísmo tem que cair. Enquanto o mundo continuar bipolarizado

Teve um tempo em que acreditava exclusivamente na força coletiva das coisas. Hoje, acho que todas são individuais e silenciosas, mesmo que provoquem muitíssimos resultados na coletividade. As experiências são parcerias do indivíduo com a realidade, um dos momentos em que ele não está só. Mas quando se escuta um Jazz, sente-se a vibração dos acordes como se num delírio. Muitos caras não precisam de qualquer coisa para pirar no estremecer do espírito despertado pelo beebop. Apesar de muitosestarem ali assistindo e seus corpos até corresponderem a certos padrões de movimento, cada um, cada mente ou pedaço de individualidade vai estar tenda a sua própria experiência, única.  A liberdade sempre foi discutida sobre estes termos: como acreditar que um ignorante tem individualidade? A prepotência sempre foi uma faca de dois gumes para nós, os racionais do ocidente. É claro que um completo inábil pode entrar no ritmo de uma big band e do nada, começar a tirar alguma coisa da bateria. Ainda assim, a soma de tudo é tremendamente íntima. As pessoas podem até sentir alguma coisa, ter leituras, sensações, agir no impulso e terem uma espécie de epifania coletiva, mas, sobretudo, por mais que a encenação pareça ser composta por padronizados, essa é a sensação que se tem do que é o outro, de como ele reage, absorve, discute. Talvez os que seguiam Hittler tinham lá suas razões um pouco sufocadas pela teatralização da vida, mas muitos entendiam e concordavam com o que estava sendo apontado. É claro, que uma grande minoria sabia o que realmente acontecia e entre ela mesma, outros grupos tinham lá seus segredos e propostas. E dentro de cada organização informal, uma porrada de gente diferente, mas todas parecidas, com a igual, alguns gestos idênticos, mas com tendências e determinações diversas. Somos levados na onda, mas ainda assim, somos frutos do mar. Para o amor e a sabedoria não é preciso ter razão científica, mas para se dedicar a ela, sim.

Bom, gastei tanto da sua atenção até aqui, mas de forma alguma quero deixar de comentar o que me deixa desgostoso. Entrei em passagens secretas, tanto da literatura, quanto do meu espírito que quase perdi o objetivo da frase inicial deste texto. A verdade é que há alguns meses as coisas já não estão mais as mesmas. Não consigo realmente me concentrar e sou movido pelo e em direção ao que me é extremamente necessário apenas. Queria muito poder ter inspirações diariamente ou pelo menos, força para dar força para as coisas que saem da minha mão. Fico ultramente cansado mentalmente confuso, como se fosse uma necessidade profissional e nada mais, como se eu tivesse perdiso o tato da coisa, o sentimento, o espírito. Para um poeta, um bardo, isso é o desastre, não conseguir mais enxergar Avalon ou mesmo o maná que circula pelo mundo. Mas hoje, agora, vejo que o que mais me intriga já não é o que me deixou odioso. Já não me importo com o fato de ter passado duas horas fazendo uma anatomia seca do meu cérebro para escrever um texto que, quando saiu, doeu a cabeça, quando ficou pronto, eu escondi do meu ego, porém me senti reconfortado por ter completado aquilo – já que é um profissional da coisa e precisa escrever, mesmo estando completamente sem inspiração real – um blefe.

Estou em uma cidade no interior da França. Há uma incursão literária por localidades pequenas, aconchegantes e sempre, sempre com muita gente louca que toma todos os vinhos e trepa de várias maneiras novas que não tinha visto ainda na América. Mulheres magrinhas, com peitos interessantíssimos. Assim, passo estas últimas duas semanas sem sair muito da linha e sei que isso vai dar em algo de muito constrangedor, só espero o momento em que tudo se emergir, levando Sodoma e Gomorra para os infernos. Mas também, de vez em quando, a gente discute alguma coisa sobre livros, artes, cinema, existencialismo e filosofia oriental.

Tinha acordado às cinco da tarde com uma ressaca tremenda de cigarros e dor de cabeça patrocinada por Dionísio – uma safra especialíssima de 59 guardada a sete palmos da terra. Estava sozinho em um hotel e esperava o telefonema de meu agente literário na Europa - só ele tinha o endereço da próxima festa. Porém, uma parte do flashback da noite anterior me fez sentir uma angústia profunda. Não produzia nada havia muito tempo e no meio de todos aqueles escritores e filósofos, cineastas, artistas produzindo uma infinidade de coisas significantes e por que não, beats, eu ficava acuado, tímido, engolido, um garoto mimado, agarrado a uma garrafa de Jack Daniels como se fosse um ursinho e a um livro, sucesso de vendas com um monte de histórias do bom selvagem da América – me sinto um índio brasileiro na França de Luís XIV.

Então, escrevi, escrevi, fiquei puto, continuei a escrever, amassei, desamassei, passei a borracha, rasguei o papel, escrevi e depois de um tempo, acabei alguma coisa. Coloquei no bolso, pronto para mostrar para um dos diretores franceses de vanguarda que ficara admirado com O Livro e jurou retratá-lo um dia no cinema. Era um cara bacana e humilde, sabia falar com todos, mesmo que só estivesse em seu pensamento o tempo todo. Ele mesmo me inspirara a escrever, me incentivou a criar novamente pela intuição. Mesmo que eu não tenha realizado um texto 100% puro, pelo menos tinha alcançado algum resultado que não a desistência em minutos, como estava me acostumando.

Meu agente passou, fomos para a casa de um pessoal bastante liberal. Um dos que mais me impressionaram foi um sujeito alto, um tanto silencioso, mas ao mesmo tempo, arrogante. Usava óculos redondos de aro fino e raspava todo o cabelo. Um autêntico personagem daqueles magazines de ficção científica dos anos 50, um cientista clássico de Asimov. Conversou algumas palavras comigo, mas o suficiente para tentar me convencer de suas teorias conspiratórias. Curtia muito o lance de fazer uma arqueologia das coisas, das palavras, das culturas. Dizia-se um doutor na loucura e era extremamente apavorado com a medicina e o seu poder negativo sobre o homem. Percebi também sua inclinação para o narcísio - talvez tenha sido um filósofo grego em outra encarnação! Fiquei meio ressabiado até por que ele realmente tinha um aspecto interessante, por isso, parei de dar muita atenção ao seu papo e fui procurar uma outra roda para poder guiar o assunto em meu francês-inglês do Canadá-América, meu idioma incompleto. Jean-Luc estava se exaltando, falando de experiências realizadas por um grupo holandês que pratica happenings por toda a Amsterdã e publica um tablóide revolucionário, os Provos. Eles espalham prendas por toda a cidade e ainda criam pontuações para determinados atos que podem ser vistos como desobediência, mas para quem os pratica, estão cheio de vida, resistência e arte. Não quis entrar muito no mérito da questão e deixei o assunto me dar uma brecha para que pudesse emendar alguma história que passasse a comandar a situação. Consegui. Estava narrando sobre o dia em que visitei a Cidade do México, o mesmo em que a Frida Kahlo tinha partido. Foi muito louco, todo mundo triste, um sentimento muito misterioso, parecia a guerra. Quando iria falar sobre a Casa Azul de Frida, o tal careca, se não me engano, Michel, veio pedir o fogo para acender a lareira. “Cara, tenho aqui uns fósforos. Mas por favor, devolva depois, hein!?” Joguei e ele catou a caixa de fósforo no ar, sorriu e voltou para a sala da lareira.

Dali um tempo, fiquei as sós com Godard. No meio do papo me lembrei do texto – aquele mais ou menos da última tarde, queria que ele lesse, desse uma olhada em primeira mão. Notei o bolso da calça um pouco vazio, mas me lembrei dos fósforos. Enfiei minha mão e percebi algo dobrado, puxei, mas tendo a impressão de não ser a brochura que procurava. Era na verdade, um cartão postal dobrado, enviado por Bill – Cidade do México, 1952. Lembro-me de ter retirado os papéis com o texto anotado e tê-los deixados sobre a mesa de algum lugar. Os retirei do bolso por que precisava pegar alguma outra coisa que estava lá dentro, talvez os próprios fósforos. Pedi licença e fui para a sala. Procurei os papeis e não encontrei nada. Michel me viu intrigado e quis me ajudar. Disse a ele sobre o propósito da coisa e seus olhos disseram tudo, viraram para trás e deram um giro pela órbita, seguido de um sonoro e em médio agudo, Ahhh! O filho da puta acendeu a lareira com os meus papéis! Fiquei muito irritado, puto da vida, aquele demônio intelectual – tiveram que me conter, mas logo fui transferido para a cozinha beber sozinho. Enchi a cara com força e passei o fim da festa questionando os idiotas franceses por que é preciso catalogar, classificar, expor todas as coisas? Por que, se os outros não passavam do nosso inferno? Escrevi um texto para mim e só por mim e ele nunca foi lido e nunca mais poderá ser visto ou ouvido. Eu mesmo, de tanto não gostar daquilo, hoje, dois dias depois, só me recordo de fragmentos e temas que pude ter tocado. Alguns, claro, estão por aqui também, mas acho que isso talvez já fosse óbvio. Ele tinha lá sua pureza, assim como hoje, tem intuição. A datação e o registro do homem e das coisas dele e das coisas que dele transcendem como a natureza selvagem, podem se tornar alienantes para aqueles que pensam que pensam por pensarem racionalmente. Inclusive, esse próprio homem ai, esse que pensa racionalmente apenas, em prol do progresso, do positivismo, que busca liberdade fazendo prisioneiros de guerra, que almeja igualdade se separando por muros e acha que a fraternidade está no dinheiro, esse ai, bem que poderia ser bicho em extinção, uma lástima da modernidade que tende a ser o oposto do que prega, dizer para se ver livre, prometer para descumprir, amar para ganhar. Inclusive, com cara e voz de santo dentro da igreja ou do laboratório científico. Tentar escrever o que o homem é, é deixar de ser homem. Conquanto esse homem persistir, ele nunca vai ter confiança para acreditar em si mesmo.

Kerouac VERSUS Duluoz

July 1st, 2009 by J D Oliveira

Recebo um telefonema de Raphaello Scoth, meu contato no NYTimes. “J. o Gary entrou de férias, cara. Seu livro já era meu camarada. Estou envergonhado, envergonhado… Maldito Gary. Ele tinha me confirmado, na próxima sexta, na próxima sexta“! Filho da puta bastardo, penso. Diga a ele que quando eu for lido por metade da América, sua crítica já não vai adiantar nada. Desliguei o telefone bastante puto. Maria estava com o cigarro em mãos, encostada na cama e me olhando.
- Não fique desesperado. Venha aqui.
Eu não consigo me controlar e nada me deixara mais confortável. Eu tinha que poder esbravejar:
- Como não! Gary Strandy é o único crítico na América que poderia dizer algo respeitável sobre o meu livro. E ele leu, tenho certeza. Mas que vacilo, mas que vacilo - soco o ar. Ela se assusta com meus gestos e fecha sua expressão.
Passa um tempo e o telefone volta a tocar, Maria apaga o meu cigarro e retira o lençol de sobre o seu corpo. A chamada do aparelho parece pertubar minha cabeça. abandono a visão afrodisíaca - Maria tenta tirar minha atenção ao chamado, e persigo a possibilidade de boas notícias.
- Alô!?
- J.?
- Sim, é você de novo Scoth?
- J. Te prepara irmão. Te prepara por que eu tenho uma bomba.
- Hey Scoth, não fala assim meu camarada. Há dez minutos atrás você já me esfaqueou o peito, agora pensa em cravar a lâmina?
- Calma J. É coisa boa… quer dizer, pode ser. Temos que esperar. Depois de amanhã sai, tenho certeza.
- Cara não estou te entendendo. Seu frangote estranho, se você estiver aprontando com a minha cara… ainda bem que estou numa onda de paz. A sabedoria oriental tem me dado muita força. Tenho aprendido uns segredos e a violência não faz parte deles.
- J., a porra da resenha vai sair depois de amanhã, cara! O novo crítico chegou na redação ontem, mas logo viu seu livro. Ele se lembrou do seu nome e parece ter dito à Michele que adorou Cidade pequena, cidade grande.
-Sério?
-Porra! Cara, ele levou O Livro* para casa e disse que vai apresentar o texto na próxima sexta. Parece que o Gary armou tudo. Tirou o dele da reta e deixou para o substituto a missão de criticar “o novo fenômeno da América”!
-Ann… que porra é essa Scoth!? Tá ficando louco?
-J. foi isso que Gary escreveu no bilhete que deixou para o substituto.
- Como deu tempo para você conseguir todas essas informações, não tinha nem dez minutos que você me ligou?
-Foi a Michele, tenho um contato forte na parte de crítica literária.
- Saquei, ela também escreve?
-Não, limpa!
Bom, confiar em uma faxineira às vezes é mais lucrativo do que pegar informação num balcão de informações. Mas elas também custumam exagerar. Isso é fato. De qualquer forma, quando desliguei o telefone, Maria já devia estar em seu 3º sono. Talvez pensando em mim, talvez não. Seu ar sereno, seus traços latinos, sua pele, boca. Era tudo uma só inspiração para a felicidade.
Um livro aceito, dinheiro por palavras. Talvez pudesse mudar a minha vida, transformar meu sonho em realização. Já sei o que fazer, escrever mais, mais e mais. Quem sabe, a loucura consuma meu tecido e eu me perca de vez. O sucesso é um perigo. É ele o cetro da vaidade.
Resolvi acender um cigarro enquanto refletia sobre o depois de amanhã.**

* On the road
** Primeiramente publicado em http://verbeat.org/letitbeatnik como “Benvindo ao sonho americano”

Kerouac VERSUS Cassidy

June 29th, 2009 by J D Oliveira

Depois de tudo o que tinha acontecido com Phillip, fiquei um pouco atordoado. Não quis nem saber de Janie ou de ninguém. Voltei para aquela maldita agência e esperei um navio que me levasse o mais longe possível. Queria sair da minha vida mais uma vez. Mas dessa vez com força e solitário. Sou um peregrino em busca de luz, persigo seu rastro cego. Entretanto, havia uma coisa que estava me incomodando muito. Mesmo que a solução fosse ir, meus sonhos não têm me avisado sobre. Sempre que sei que vou embarcar, passo várias semanas sonhando com o mar, os navios e toda a presença imanente de Netuno, o senhor do oceano espiritual. São viagens surrealistas e sempre muito edílicas, porém realistas o suficiente para que o mais insensível pudesse se sentir como a totalidade. Um drama molhado e volátil.Consegui embarcar em um com destino ao porto gelado da Finamarca, quase no Ártico. Por sorte, penso em dar o fora quando estivermos no porto mais louco do mundo - Amsterdã! Pelo o que eu ouvi dizer, lá recebe gente insandecida de toda a parte do mundo, é um dos portos com mais embarcações estrangeiras por chegada. Muitos chineses gostam de lá, russos também. O navio ainda estava ancorado e o capitão fazia o reconhecimento da tripulação. Eu tinha mais experiência, era a minha nona viagem, por isso, me deram um cargo mais digno que simplesmente limpador detalhista de privadas ou descascador de vômito agarrado no tapete do salão. Agora eu serei o rapaz do rodo que limpa os corredores nas quintas, sábados e  domingos, deixando o convés para os dias restantes. Quem sabe num próximo, consigo chegar mais perto do cassino? Com minha sorte, me tornaria rapidamente “o jogador”, sendo procurado  pela fortuna da minha presença. Na roleta, discretamente falaria a cor vencedora antes dela acabar de girar. Isso já chamaria a atenção, em seguida, me aproximaria de apostadores em ascendência, por fim, aceitaria qualquer gorjeta para mais tarde.
      Como sempre, o capitão era um imenso filho da puta e fez uns três desistirem. Eu já sabendo o protocolo, entrei em seus joguinhos ridículos, mas fiquei quieto e nada de mais aconteceu. Entretanto, ainda tínhamos  dois dias antes dele zarpar, um tremendo portal que poderia me levar para qualquer lugar, inclusive para longe do oceano.
      Cheguei na Washigton st. eram umas sete da noite, fui direto para o Louis tomar um xerez. Lá é um lugar bacana que a gente não frequenta, mas como não quero ver ninguém, o Louis era o melhor lugar. Mal sabia que Allen, um poeta que tenho conversado ultimamente, adorava o lugar e agora mesmo estava ali com algumas pessoas. Pelo jeito, nem todos poetas como ele. Quando me viu, acenou e depois de alguns minutos veio em minha direção e junto dele um outro cara, alto, cabelo castanho claro, mais novo do que nós, porém com a cara de quem tinha passado um tempo no reformatório, um verdadeiro galinho de briga formado nas ruas de alguma grande cidade da América e que se sentia o durão em Nova York.

“E ai, Allen”

“Como vai J. Este é Neal”

“Beleza, Neal”. Nos cumprimentamos.

“Tranquilo J. Allen me disse que você é escritor?”

“Pois é, escrever é a única coisa que consigo fazer de forma interessante. Queria ser jogador de futebol, mas meu karma não deixou…”

“Puts, karma? Ah, Allen, esse cara aqui acredita nessas coisas de horóscopo de mulherzinha.”
      Não acreditei no que ouvia. Fiquei estatelado com a falta de etiqueta do colega. Seu sotaque era do sul e do oeste ao mesmo tempo. Allen também ria da observação de Neal.
            “Hei, J. meu Saturno está querendo encontrar Vênus, tem alguma coisa de Netuno por ai?”

     O garotão riu por que não entendeu, mas essa era a senha para que a máxima voltagem fosse despertada. Netuno além de ser o deus dos oceanos, era também o pai dos vícios e êxtases, o verdadeiro Fausto da modernidade. “Claro, Allen, meu sol hoje está em harmonia com a lua, acho que entro logo em sagitário”. Tinha preparado alguns para a viagem, mas resolvi abrir minha mochila para que pudéssemos aproveitar o melhor da noite. Descemos do bar e fomos para o apê de Allen. Antes, compramos algumas garrafas de vinho do porto, queríamos reviver o Século XIX, fingíamos que éramos Flaubert, Baudelaire, mas Neal achou que eu me identificava mais com Victor Hugo. A princípio achei aquilo uma afronta, mas pensei, “pelo menos o maldito faz metáforas”!
     Comemos o vinho e bebemos o haxixe, como o nobre comedor de ópio. A cidade estava toda iluminada, porém nossas lanternas se restringiam àquele pequeno quarto alugado. Ao todo, éramos sete. Neal estava com sua companheira, Maggie. Marta, Gorck, Beth, Allen e eu completavam o elenco.Fiquei na dúvida se tudo aquilo era real ou apenas estava tendo um sonho premonitório. Tudo parecia inadvertidamente claro e a nova visão não era nada mais que aceitar o caminho como uma possibilidade de beatitude e tudo o que fosse feito e encontrado durante a passagem, tudo mesmo, seria sagrado.
    A viagem, o assassinato, a prisão e novamente, uma outra viagem. Tudo isso girando em um ciclo fechado e tendencioso. Este pequeno instante da minha vida me mostrou que realmente a viagem era o que deveria fazer. Mas mal poderia supor que iria para muito longe das águas do atlântico, correria mais ainda para o continente.
    A admiração por Neal se tornou imediata, ele podia sim, se tornar um escritor, mas tudo dependerá do quanto conseguirá deixar de lado a si mesmo. E antes de querer escapar da vida em um navio cheio de marinheiros, minha vontade era que tudo tivesse algum sentido novamente. Por isso, desde a primeira vez que me convidou para passar um tempo em Denver, mesmo que tivesse cinco minutos de convivência, sabia que esse seria o meu caminho. Abandonei a ideia de zarpar e passei a frequentar mais a casa de Allen. Isso ainda durou algumas semanas até que tudo REALMENTE acontecesse.

*

Kerouac VERSUS Coltrane

May 6th, 2009 by J D Oliveira

  
    Acabo de chegar em casa e estou levemente entorpecido pelo paraíso. Nova York vive um verão intenso, tudo é suor e loucura, as mulheres, os bêbados e os poetas se confraternizam pela madrugada alucinada da grande maçã, dançando o beebop, escutando os anjos entortarem a realidade em suas harpas de sopro. Minhas mãos não compreendem adequadamente os pensamentos que emergem do vale sombrio, eles escapam e voltam e dizem ao meu ouvido como se não fossem meus e, por isso, sinto-me tímido e não me importo em desenhar suas letras mortas no papel deste diário desgastado e febril.   
    Mas o paraíso não é marrom, nem branco ou colorido. É abstrato, efêmero e forte. Contempla a paisagem do meu espírito como se viesse do próprio atman. Laurien dorme chapada ao meu lado e o sol insiste em querer acabar com este dia que nunca deve deixar de existir. Enquanto ouver saliva em minha alma irei lembrar de quando vi as trombetas celestiais entoando cânticos em favor da humanidade, em favor dos loucos que vivem fora dos hospícios oficiais e convivem com a insanidade da sociedade perfeitamente imperfeita que pintam todos os dias na TV e nos jornais, principalmente, nos jornais. Sendo mais objetivo, antes mesmo que eu me perca em devaneios, hoje, por sorte, apertei a mão de um iluminado e minha alma se tornou completa.
     Laurien andava meio encucada estes dias, imagino que esteja insegura quanto a minha proposta de firmar a vida depois do Livro ser publicado - a previsão é que no máximo no outono ele já esteja nas livrarias e agora mesmo, daqui uma semana saia o prelo. Não quero ser mais um perdido apenas, quero poder sentir cócegas nos pés e respirar um saboroso café da manhã preparado por alguém que tenha dormido ao meu lado a noite inteira. Se não me ater aos motivos deste depoimento, irei esquecê-lo por completo quando acordar e meus olhos insistem em me trair. Para poder cortejá-la de uma maneira mais nobre e poética, vesti minha melhor camisa de botões e a convidei para um jantar romântico no antro da burguesia - Coach House. Gastei várias saídas em menos de 2 horas de uma vida que, no fundo ou no raso, não penso em ter. Foi bom, mas Laurien não me disse nada. Fomos embora pela Times Square felizes e vagabundeando sobre o mundo e as coisas que poderíamos fazer quando fosse um escritor de sucesso. De repente, enquanto falávamos sobre nomes eslavos para os nossos possíveis filhos, escuto meu sobrenome ser gritado no meio do trânsito leve do início da madrugada. “Hey K, venha conosco, Monk irá começar agora o show no Five Spot”. Eram Allen, Corso e mais um sujeito que provavelmente estava se metendo com eles. Não pensamos muito e entramos logo no Buick 49.
       Sempre enchia muito o saco de todos dizendo que Thelonious  é o maior, o mais sincero e sensível de toda essa geração de deuses do jazz. Todavia não esperava chegar a conclusão nesta noite de que Monk não passa de um súdito na hierarquia musico-celestial. Um negrinho de olhos esbugalhados e cheio de raça comandava a adaga divina que amordaçou por mais de duas horas o meu enfermo e carente coração indisciplinado. Coltrane, John Coltrane este é o seu nome. Sei que já havia ouvido falar dele como integrante de alguns outros projetos, porém foi difícil acreditar que a perfeição não está no centro, mas ao lado. O som que enobrece seu sax tenor é destemperado e perfeito, breca, mas ainda assim emite melodias, é o paraíso que qualquer droga não pode me dar. Imagino que ele nunca irá lembrar do branquelo que fez questão de compará-lo a um deus egípcio, que insistiu em apertar sua mão divina. Estava em êxtase o sujeito, olhava nos meus olhos, mas enxergava de fato os próprios pensamentos e sensações - uma dádiva que tento alcançar, porém os demônios do meu karma impedem que o nirvana chegue nestas bandas. Ao menos me alegro e tento me animar para o resto com esta dose de harmonia e perfeição. Não vejo a hora de procurá-lo nas lojas de vinil. Peço a Deus e a Morfeus que me embale em sonhos suaves e contínuos, em imagens alucinadas e descontínuas da perfeição.

Bom dia, paraíso!

Kerouac VERSUS Marx

April 18th, 2009 by J D Oliveira

*
Não é por causa das pessoas, Jack. É por causa das coisas, cara!

E eu tentava retrucar, não para reenvindicar uma verdade, mas por que minha consciência católica não permitia uma coisa dessas. Eu sei que é difícil aceitar, cara. Mas não tem como negar, mesmo a gente que pensa que faz pelo amor, pela verdadeira experiência, pela divindade que habitamos, ainda assim, iremos lutar o resto da vida para que as coisas estejam com a gente. E vai ter sempreum tanto de caras que a gente não vai querer que chegue perto. Eu amo mais esse livro aqui na minha mão do que a minha mãe ou aquela vagabunda da esquina. É, pensei, Allen tem razão. Eu ainda sou muito novo para poder odiar alguém, mas já entendo o que é querer desaparecer com as pessoas. Esse sujeito é um bom rapaz, às vezes incompreendido e melancólico diante a maioria, mas um forte guerreiro em pequenas rodas de conversas pouco escutadas. Um verdadeiro combustível judeu para a alma de qualquer terráqueo.
Em uma ocasião, quando ainda me envolvia com Cristo de uma forma sentimental, tal como Santa Tereza, ele me abriu os olhos para o fato dos cristãos serem os membros da décima terceira tribo. Mas cara, não somos os párias, retruquei, somos a evolução, a novidade! Que nada, cara! Os verdadeiros cristãos desapareceram com o Rabi. Depois, quem entrou em cena foi a instituição Igreja, dominando a mente e o bolso de todo mundo. Você sabe do que eu to falando, olha para a sua mãe, vê como ela depende do que o tal padre Gerome fala. Aposto que ela paga a ele alguma coisa esperando alcançar os céus depois que morrer! Tentei em vão defender Camile. Ele tinha uma resposta para cada tentiva minha. E todas as respostas eram ótimas e espirituosas. Allen sempre estava certo, era incrível como ele sabe direitinho das coisas. Mas também tem o brio das estrelas, carrega consigo uma missão celestial que ele mesmo nem percebe ou exalta e por isso, às vezes é mais uma bicha louca que fala abertamente sobre política, religião, sexo e qualquer coisa que este país fingiu ignorar durante uns bons dois séculos.
Ele me deixa completamente puto quando toca nesse assunto “espiritual”, como se qualquer indício de religão fosse um atestado de imbecilidade e alienação. Como pode tirar qualquer valor válido da religiosidade, olhar para as coisas sagradas e profaná-las como se tudo não passasse de um grande discurso histórico de poder e busca intensa de propriedade? E o silêncio, e os milagres? Não Allen, não meu caro, a Verdade é apenas uma, não pode ser dividida. É claro que tentam o tempo todo dizer para todo mundo o que é e o que não é. Mas a Verdade, Allen, a gente sente e faz isso sozinho.
Ele não sabe, mas irei chamá-lo de Carlo Marx em meu manifesto beat. Nada mais natural. Quando a patifaria pegar nossas vidas e escrever longos textos sobre nós, irão saber que Ginsberg e Marx são a mesma pessoa. Não duvido nada disso ser muito mais do que um uivo alucinado de quem procura entender a Verdade através das circunstâncias que realmente existem. Ele vai ser um cara para ser lembrado por derrubar muros em meio aos tijolos da hipocrisia que a cada dia crescem na América. E eles irão querer nos meter nas jaulas da injustiça, fazendo nossos pais ficarem com vergonha de nos ter parido e não nos ter punido quando os vizinhos nos apontaram seus dedos sujos de merda avisando-os de como éramos tortos e que iríamos acabar como delinquentes intelectuais, críticos dos costumes e profanadores das tradições.
Uma vez estávamos discutindo o que poderia acontecer à América e às artes na América depois que a e Guerra acabasse. No meio de uma multidão de jovens perturbados e loucos, ele citou Marx, com certo receio de não ser um babaca na frente de uma dezena de bobões, alucinados e alienados . Disse que “a história não é senão a sucessão das diversas gerações, cada uma das quais explora os materiais, capitais, forças de produção que lhe são legados por todas as que precederam, e que por isso continua a atividade transmitida, ao mesmo tempo em que modifica as velhas circuntâncias com uma atividade completamente mudada”. E isso é Ginsberg, sou eu, é a geração beat! Uma nova geração carregada de críticas às anteriores, mas querendo cumprir o papel atribuido ao homem desperto que vem se desviando continuamente na história de seu verdadeiro caminho.

Kerouac VERSUS Burroughs

March 27th, 2009 by J D Oliveira

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Querido Bill,

    Nos últimos tempos venho evitando qualquer contato que me remeta a você. Não estou nem um pouco possesso e ainda há amor nas minhas veias congeladas. O que me afasta é a consciência de que tudo que vem acontecendo simplesmente não tem uma resposta. Somos como arqueiros que miram o infinito da noite, mas não podem alçar voo junto com suas setas. Estamos presos Bill, estamos fincados nesse maldito planeta que insiste em ficar quente e gelado, claro e escuro, amável e odioso. Sei que sua fuga desesperada da realidade é ultramente sincera e objetiva. Sei que tudo aquilo que pode viver conosco ainda resta em seu coração e sei também que - desculpe os termos - os miolos de Joan, na verdade, foram o alimento  e a chave de sua libertação (espero que ninguém veja isso, os puritanos me queimariam em praça pública).
    Allen tentou me contar sobre aventuras perigosas na América do Sul. Há algum tempo você não manda cartas e sabe como é esse judeuzinho, quanto menos esperar, quando estiver nas mãos de índia peruana - ou de um índio, ele irá aparecer e te tratar como uma criança e parecer com a sua mãe. Ele é sempre assim, realmente nasceu muiiiiiiiiito errado. Deus tinha que ter lhe dado mais tetas e arrancado o paw da forma. Por falar em genitoras, outro dia vi sua tia Susan e me lembrei do quanto aprontamos na sua casa de inverno em Indianápolis. Sua mãe foi muito benevolente com o que viu e, principalmente, ouviu. Não entendi como quis nos receber novamente. O caso é que na época éramos como galinhos e eu adorava me exibir, principalmente, para as coroas. Hoje já estou mais sossegado, embora queira logo arrumar alguém que trepe comigo pelo menos duas vezes em seguida.
    Estou enviando este papel para uma caixa-postal de Bogotá. Espero que você possa recebê-la em vida. De qualquer forma, irei enviar uma outra correspondência daqui sete dias se você não me responder ou responder ao Allen. Estamos preocupados pois sabemos o quanto o macaquinho adora ficar balançando no seu ombro. Não posso discutir a respeito do seu espanhol, mas sua cara de branquelo do norte vai despertar muitas cobiças e ambições por parte dos nativos. Se lembra da cidade do México? Haviam os que nos tratavam muito bem, os que nos ignoravam e aqueles que estavam a ponto de enfiar o punhal em nossas goelas por simplesmente virmos de cima. Já que você está com a chave virada, cuidado com os mariatis e as crianças. Por estas bandas ai, eles são deveras católicos e não entendem certas coisas que por aqui ficariam em silêncio. Vá com calma velho Bill, vá com calma. O mundo ainda não se curvou ao beat, mas nossas almas já encontraram a rendenção da verdade.
    Me mande notícias suas, estou acabando aquele livro que nunca acabo - hehehe. Mas agora é sério, um editor bacana de São Francisco parece ter se interessado por algumas outras coisas minhas e até pode ser que outros textos saiam antes que ele. Isso me deixa um pouco nervoso, sei que os outros não irão bater na alma americana do mesmo modo. Não sei exatamente o que fazer para que esses malditos editores parem de ser tão caretas e cretinos. Tenho pensado bastante na hipótese que Diego Ravenno me deu - é claro que ambos estávamos alucinados: publicar primeiro na Europa e depois voltar para o mercado americano. Tenho medo, o velho continente ainda está impregnado de medo e horror. Talvez na Itália as coisas possam andar, eles são mais loucos e passionais, uma chance de não se intoxicarem com a merda que esplano por palavras. Bom,,, penando bem, lá tem o Papa e isso já faz metade das chances irem para o espaço. Uma pena, mas é assim!
    Ah, não sei se A. contou para você, mas o rapaz prepara a apresentação de um poema revolucionário. Lembra daquilo que ele sempre tinha na cabeça e repetia infinitamente, como se fosse um “tântra” - hahaha, você é demais Bill, tem muita sacanagem na caraminhola. É mantra cara, repetição em série de palavras sagradas que faz a mente impura dormir e desperta o espírito adormercido na carne. Chega de budismos, o fato é que Allen juntou pedaços de coisas e criou uma só unidade. Em certa noite, apareceu e tentou me convencer de ouví-lo. Propus que fizessemos isso na presença de outras pessoas, pois seria incapaz de escutar aquilo tudo sozinho. Meu senso de humor com uma caneta na mão é incrível, diferente de quando estou escrevendo à máquina. Paciência!

 Com carinho,
             
                                                                                                                               J A C K


Conheça mais sobre William S. Burroughs aqui
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NAKED LUNCH!

Kerouac VS Hemingway

February 11th, 2009 by J D Oliveira

Sou o filho maldito de uma geração perdida, cheia de riquezas plásticas e efêmeras. Enquanto todos se importavam, ela não estava nem aí. Enquanto todos queriam a paz, os fodidos sonhavam com a desordem e a guerra. Mas não sou eu o anticristo, aquele que irá devastar, destruir, ruir, dissolver. Não faria esse tipo de benfeitoria. Quero que todos sofram pela própria fé. Eu também. O sofrimento são nossas escolhas, o pavor e o descontrole que nos sufocam nossas escolhas. A ignorância também. É ela uma víbora pronta para ser esmagada pelo explorador.

Outro dia pensei em colocar o cano de uma espingarda bem na minha garganta para poder sentir o gosto do chumbo e estar próximo de Ernerst. Eu também já estou velho, porém, de frente para Cuba – e não em Cuba, mas afastado do mar. Não consigo entender se esse desespero arrebatador que carrega de nós qualquer vestígio de crença, na verdade, não seja a verdadeira alma do escritor, do artista, do poeta. Uma anima atormentada pela rudeza da existência, pelo absurdo da vida, pela incompetência do homem ocidental em não conseguir ficar calado.

Quando era menino e vivia perdido, vasculhando pensamentos e criando tormentos cotidianos, meu sonho era botar um lenço em volta do pescoço e desembarcar na árida Espanha. Meu pai prensava o jornal de Lowell e eu acompanhava a luta social espanhola de perto. Doía em mim cada baixa daqueles que buscavam, sobretudo, a liberdade e o crescimento pelas artes. Entretanto, aquela geração que estava perdida, encontrou nos conflitos externos a grande fuga do vazio existencial. Aqueles que realmente me fecundaram, que me deram o espírito, esses se deixaram envolver por orgias políticas e miseráveis, ignóbeis e sem qualquer teor de altruísmo. Eram adultos ateus, loucos pelo próprio umbigo e fervorosos/medrosos pelo silêncio da existência.

E depois de mim, quando o crepúsculo acompanhar este personagem bobo e falho, também virá alguém que irá olhar para trás e chamará a geração beat de um naco de merda perdida, que não pensavam na realidade da vida e apenas queria usufruir de seus prazeres. E estarão todos corretíssimos. Estou morrendo e morrendo velho, cansado, com pavor da vida e louco para chegar logo no inferno. A realidade da vida que evocam aí fora, não será e nunca foi a minha pulsão. Nos chamarão de vazios e era esse mesmo o nosso caminho. Éramos todos vazios e queríamos preencher todos os átomos da vida com alguma coisa que valesse a pena. Ficavam vários e vários idiotas tentando nos explicar das vantagens em se acumular, acumular, acumular. E depois, esses mesmos sujeitos nos pediam para gastar, gastar, gastar. Estavam todos induzidos, eram zumbis da cultura, queriam nossos dedos para eles. E depois dizem que nós é que estávamos fora da realidade. Até o filho da puta do Hemingway, que era um escritor, não teve cu para agüentar o tranco, era muita realidade ao mesmo tempo. De um lado o nosso dinheiro soberbo que te tenta convencer de que é racional e de que a única forma de se usar a razão é para ter dinheiro; de outro, um idealismo infantil e dois ou três que falavam a verdade e acreditavam na revolução. Seu dedo ficou duro, não deu conta.