19/08/2008

Kerouac VERSUS Corso

Dezembro tomava Ozone Park melancolicamente. As árvores já apresentavam a habitual solidão esbranquiçada, seca e gelada do bairro de operários. As pessoas já não se cumprimentavam, afinal o inverno estava tão rigoroso e o vento tão impertinente que era preciso vestir seis, sete peças grossas de roupa para não preferir estar morto e enterrado. No caminho de volta ao meu apartamento, passando em frente ao All´s, vi acompanhado de uma garrafa de vodka, Gregory Corso. O homem sujo dos Bálcãs tinha uma cara um pouco desgostosa e num piscar de olhos, em uma abertura dada pelo meu olhar, ele começou seu discurso infinito sobre a liberdade humana:

- Jack, você sabe em quais circunstâncias um bom filho pode fazer mal ao seu velho pai?

- Na minha ou na sua moral, perguntei um pouco enfadado.

- Na do mundo, Jack, na o mundo...

- Ok. Na sua moral, que é a moral do mundo da verdade. Bom, vejamos... Olho para a garrafa fechada em sua mão e penso como que aquela vodka poderia me esquentar corretamente naquela tarde. Retomo sabendo exatamente o que falar: Sabe senhor Gregor Samsa – ele adora quando o confundo com o personagem de Kafka, um bom filho faz mal ao seu velho pai quando precisa respirar o mundo solitariamente e para ter coragem de fazer isso, perturba a vida do pai pesquisando e fazendo todas as coisas que o deixam puto e doente. Só assim, na dor do ódio do pai por seu “mal” exemplo, ele consegue se encontrar plenamente. Quando o pai se sente um educador inútil e frustrado, o filho lhe faz o maior mal possível.

Convenci Corso a continuar o papo no meu apartamento. Ele estava também à procura de um lugar menos frio para se concentrar na vodka e na loucura de seus pensamentos. Antes de entramos pela porta da frente, ele veio com uma forte teoria sobre a Espanha ser o grande lugar do mundo. Em sua encíclica, mais precisamente na parte em que fala sobre o Apocalipse, Corso me revelou naquele momento que os espanhóis tinham sido a peça fundamental do Criador na Terra, os responsáveis pela passagem da mensagem pelo mundo, o verdadeiro povo escolhido. E deu milhares de motivos loucos que só faziam sentido em sua cabeça. Por fim, tentava me convencer de que uma das provas era a quantidade de culturas diferentes que haviam sido tocadas pela Ibéria. Inclusive os países miscigenados como o México e a Argentina.

- Só um princípio divino iria conseguir entender a vida de uma forma tão simples e perfeita. Já viu Buñel, Dali? Já leu Garcia Marques, Borges, Llosa, Amado?

- Sabe que você me lembrou de uma coisa que nunca dividi com ninguém, mas sempre pensei cara, o Aleph é a verdade suprema, ele é o caminho, a luz e a vida. É ele que me faz levantar e respirar todos os dias, se não tivesse lido aquelas poucas páginas eu nunca iria me sentir satisfeito com a vida. Entrando por um ponto e saindo em todos os outros, saindo por todos e entrando num mesmo ponto.

- E dizem que ele está cego.

- Verdade?

- Tenho parentes em Buenos Aires. A família foi uma parte para o sul e outra para o norte.

Nesse instante, como um gatilho, algo parece ter me revelado a verdade, tal qual falou a Gregory Corso sobre os espanhóis.

- Samsa é isso, Samsa! Presta atenção seu pederasta inútil: Sempre existiu uma lenda de que o paraíso ficava ao ocidente. Em várias culturas, inclusive na cristã e na nórdica, era pra cá que a verdade estava escondida. Porém, os judeus acharam que a verdade estava no norte, os ingleses também, franceses idem, mas quem sabe ela está mesmo é no sul, cara! Para onde os espanhóis e portugueses rumaram.

Ele não esperou muito para exagerar na viagem:

- Quem sabe o mundo da verdade não é como o americano e o europeu querem, mas como um poder louco e divino atua, uma fé que só vi no México e nos livros desses latinos. É crer mesmo que do nada as coisas melhoram e, quando a gente faz lenha, tudo desanda. Quem sabe o Cristo vai voltar por estes povos, perdido no meio de índios, negros e brancos, pobres, sujos, mal-vistos, mas totalmente preenchidos de fé e esperança. Um verdadeiro aleph messiânico, capaz de compreender os sentimentos e as emoções de qualquer cultura já produzida.

Dou uma golada um pouco mais forte que me faz soluçar no exato momento em que dizia à Gregory: Tomara, meu velho, tomara! E ainda pensei: “será que a gente terá saco para esperar esse moleque nascer?” E na minha cabeça, uma voz com sotaque latino me dizia: tomara, meu velho, tomara!

Escrito por J D Oliveira em 17:27:11 | Link permanente | Comments (0) |

08/08/2008

Kerouac VERSUS Presley


Estava vindo do leste pelo sul. Sempre que as coisas apertavam, descia até quase a fronteira com o México, se estando lá a paranóia apitasse, rumaria para o deserto e visitaria os templos astecas. A minha sorte era que a necessidade em conhecer tipos era, e ainda deve ser, fundamental para quem queira escrever. Dentro dos vagões sempre encontrava escórias que infestavam esse mundo. Muitas almas perdidas e atormentadas que íam de um lugar ao outro, sem qualquer rumo ou destino. Até cheguei a pensar em algumas ocasiões, se eu mesmo não era um desses, um andarilho vivendo de viagens sem qualquer objetivo com elas ou por elas. Fingindo alucinadamente ter algum destino, principalmente, no meanstream do mundo. Logo lembrava que caminhar pela América era apenas uma das partes do trabalho, a única forma de atuação que me permitiria ser um escritor que fosse reconhecido pela cultura.
Tinha que ir, simplesmente ir. Tentava conhecer ao máximo os trejeitos e os gostos daquele bando de vagabundos que se expremiam nas noites frias e se matavam no verão. Provavelmente, o trem de carga estaria, nesse instante, saindo do Texas rumo ao entrocamento de Tulsa, Oklahoma. Lá, teria que arranjar um trocado antes de rumar em direção à Little Rock, no Arkansas. A verdade é que tinha que cruzar o Tenesse e chegar em um dia e meio à Nashville. Ouvi o barulho de duas moedas se chocando em meu bolso. Não passavam de pouquíssimos centavos. Não fico mais angustiado com isso, sei que a ajuda divina sempre me surpreende, inclusive nas melhores horas. Estava com meu boné de guardador de freios e uma garrafa de conhaque escondida no casaco. Alguns dos caras também desceram na estação, dei a minha bebida para um senhor que cheirava mal. A maioria estava tão perdida quanto eu. Alguns até praticavam pequenos furtos. Eu me escondia de qualquer referência e ficava na minha, observando as visionomias, buscando me aproximar de pessoas que tinham o coração bom. Ou pelo menos, aparentavam. Oferecia algum tipo de serviço e logo recebia minha recompensa. Podia ser uma dica, uma carona, um prato de comido ou grana mesmo. Todo se resolvia pensando na beatitude e sendo gentil e humilde.
De repente percebi a presença de uma senhora negra sentada em um canto da estação. Ela não era prostituta, mas estava na rua à trabalho. Era uma genuína feiticeira vodu, oferecendo seus conhecimentos a quem lhe ofertasse a alma ou dinheiro. Em frente ao seu altar ornamentado com uma série de símbolos e imagens de deuses negros, um garoto muito novo, uns 14, 15 anos no máximo, conversava com a mulher. Não conseguia ouvir o que falavam, mas dava para perceber que ele escutava atentamente a velha. A pele do sujeito era num tom rubro e seus traços eram fortes como de um europeu, um verdadeiro americano. Junto à bolsa que carregava, um violão lhe fazia companhia.
Depois de conseguir uma grana de uma forma honesta, peguei um trem de passageiros rumo ao norte, mas que ainda iria passar em Memphis. Por coincidência do destino, o tal rapaz sentou-se ao meu lado. Iríamos passar pouco tempo um do lado do outro, mas minha curiosidade não me permitiria viver sem saber sobre ele.
- E aí, cara, beleza?! Perguntei.
- Ann - destraído. Sim!
- Gosto dos caras que saem de casa bem novos. Estes são os mais espertos nas estradas. Já vi muitos outros que nunca viveram nada em suas vidas e acham que na estrada poderão resolver toda a angústia.
- Mas eu não sai de casa. Estou indo. Vim ao Arkansas para um concurso e fiquei em sexto lugar, nada mal.
- Peraí, garoto. Mas você é um fracasso, seu pai vai ficar com vergonha da vizinhança.
Levanto minha mão para o alto e brado com o dedo para cima: "ser um verdadeiro americano é enxergar apenas a vitória! Este foi o lema daqueles..."
- Ei cara, não me venha com esse papo. Já ouvi muita merda nessa vida e sei muito bem onde você pensa em chegar. A única coisa que eu gosto é de tocar meu violão, nada é mais interessante nessa vida que a música.
- Moleque! sorrio, contente - É isso, é isso! Você tem razão, a música é uma coisa que dá sentido à vida, é ela que alimenta a minha emoção, o meu espírito. Seria muito interessante se pudessemos ouvir a música infinitamente, com solos que durassem anos ou ritmos nunca antes pesquisados.
Via sua cara toda tomada agora pela alegria. Havia muito dentro daquele menino que deveria ser posto para fora. Seu pai tinha sido preso tão logo ele saíra da mãe. Viveu no mais podre das ruas, ainda assim pode entender a vida pela música, ao escutá-la e ao executá-la. Sentia a vibração da existência passando pela batida do seu coração e nesse momento, sentia-se como se fosse um em transa com o todo, uma mera passagem para a verdadeira energia, o maná de todos os tempos, de cada batita, o beat dos beats.
- Mas você passou tanto tempo assim longe de casa? perguntou curioso.
- Parece muito tempo por que você é novo, quando tiver mais idade entenderá que todas as coisas passam de acordo com a sua própria velocidade.
- Não entendi, na minha ou na velocidade das coisas?
- Então, é a partir desse ponto que você entra em cena. Ou você escolhe ir e tudo vai ficando para atrás, ou você fica paralisado e as coisas te atropelam. Você atinge o seu equilíbrio quando percebe que viver é uma soma da sua velocidade e a velocidade do mundo.
- Eu gostaria de ser famoso. Poder ter todas as mulheres que desejasse, comprar carros, ver minha mãe vestida de madame. Ir à ópera, ao teatro, ser lido nos jornais.
- Tolas fantasias juvenis. "Um muleque do Tenesse e seu violão se tornando inexquecíveis na américa selvagem", um belo roteiro para hollywood. Quem sabe você consegue esse papel.
- É, quem sabe!? Respondeu com desdém. Aaron e seu banjo! Minha mãe sempre me contou sobre meninos prodígios. Ela me fazia dormir na época do frio contando histórias de um garoto que conseguia levitar e fazer alguns truques no ar. Eu sempre sonhei em subir no palco e fazer todo mundo ficar encantado comigo.
- Também desejo que isso aconteça. Só espero que você saiba aproveitar os momentos que antecendem a sua fama. É como antes dos 18, até lá você consegue se ver livre das punições. Depois, qualquer respiro fora da linha leva tapa na cara da sociedade. Tenho pena do O´Connors do Mets, virou piada, perdeu mulher, grana, amigos tudo por causa da imprensa.
- Isso eu não sei. Apenas acho que devo ir, como você faz na estrada.
- Tem razão! Ninguém entendeu o cara. Ele só quis passar uma noite sem pensar em nada. Eu entendo o O´Connor.
- É mas, ele não é eu! Cada um constrói o seu próprio edifício nessa vida, o meu cimento é a música. Agora, o jeito que ele vai estar e como será frequentado, é esse o mistério que gostaria de resolver e rápido, se possível antes dos 20!
Depois desse último papo, fui durmir pensando em como um garoto poderia saber sobre coisas tão sutis. Eu com a mesma idade dele não saberia distinguir um sentimento de uma sensação, um rancor e o perdão.
Ainda tivemos tempo para uma proza sobre a superstição e a crendice. Sua família descendia de ciganos alemães e eles conviviam com os espíritos de seus parentes mortos. Isso era normal entre eles. Eu falei dos rituales que tinha participado no deserto mexicano. Contei sobre os pajés e os avatares. Na rodoviária de Tulsa, revelou-me durante a conversa, o jovem Presley havia se consultado com uma mulher que lhe dera uma receita para um ritual. Disse que o unguento iria lhe proteger de doenças no corpo e na alma, além de ajudá-lo a alcançar seus desejos.
- Ela até me avisou sobre você, disse o garoto me deixando encucado.
- Como assim?
- Ué, ela me disse que um homem iria sentar ao meu lado e me fazer algumas perguntas sobre o que eu queria ser, filosofando sobre a vida e sobre religião. E se eu fosse sincero comigo mesmo, falando o meu desejo para o sujeito, o que eu pedisse ao mundo, iria acontecer na minha vida. E ainda te falo mais, que o "acontecer" não seria apenas comigo, mas com a pessoa também. Se ela estiver correta, tudo o que a gente falou aqui nesse vagão irá ocorrer daqui alguns anos, tanto para mim, quanto para você, cada um com a sua música ou, no seu caso, história.
- É, mas eu então fiz uma péssima previsão dizendo sobre o cara que perdeu tudo depois que ficou famoso.
- Claro que não, a velha Dagmar me previniu que se você não tocasse no assunto, seria eu quem me fuderia.
- Ann...
Escrito por J D Oliveira em 02:04:06 | Link permanente | Comments (0) |

21/07/2008

Kerouac VERSUS Davis

Todos sabem que sou digno fã de bebops. Não foi a toa que me tornei adicto, pois vi tudo isso nascer. Quando estava em Cisco, eles estavam, quando passava por Denver, Alcota, Merwe, eles também estavam lá. Quando chego à NY, tudo está explodindo com Charlie Parker, Gillespie e Duke Ellington. Nascemos um para outro, eu e o bebop. Eu para ouví-lo e ele para ser descrito em minha prosa de fluxo contínuo, tal como a inspiração desses deuses do metal.
Se tive alguma sorte nessa vida, foi nesse interminável ciclo de viagens, bebidas, sexos e muito jazzzz... Atravessei de costa-a-costa na época em que o pai negro da música fornicava com a América branca e louca.
Eu me sentia distante de toda aquela coisa apenas quando uns putos não entendiam a metáfora dos povos: Todos cagamos da mesma cor. Sempre quando dava algum problema, eu - um dos branquelos de sempre, era apontado como o problemático, o erro daquele lugar. Mas apesar de alguns escorões e certos prejuízos, eu ainda assim voltava e me deliciava na orgia do bebop.
No meio da guerra, conheci um afro-descendente numa noite de zoeira em Nova York. Ele adorava alisar o próprio cabelo, tentando ter algo de branco. Era meio tímido, ficava sempre num canto, sem ser notado. De repente, dizia alguma bobagem e todo mundo ignorava suas tentativas de ser engraçado. Quando teimava em empinar seu trompete era até legal no começo, mas com o tempo se tornava uma verdadeira punheta musical. Após um tempo, deixei de ver aquele sujeito magrelo e de olhos esbugalhados que eu nem me preocupara em saber o nome.
Algum tempo depois, quando voltei de uma viagem, fui direto para um bebop que iria rolar no Nick´s. E não foi que aquele negrinho estava lá e empinando seu trompete, liderando uma pequena e interessantíssima banda. Só que dessa vez, as coisas estavam um pouco diferentes. Seu metal entrava rapidamente em harmonia com os outros instrumentos e isso dava um movimento sensacional àquela vibração vaporoso da noite. Fiquei pasmo com a sua maestria em conduzir aquilo tudo e ainda fazer com que cada um do naipe sobressaísse na hora certa.
Toda a timidez daquele moleque franzino tinha desaparecido totalmente, parecia um pouco mais forte, altivo. Nesse dia, eu estava acompanhado de Franco Sansa, um chapa que gostava de bebop e estava mais por dentro dos nomes do que eu. Perguntei ao Frank qual era o nome do trompetista, ele me disse de bate-pronto, como se esperasse aquela pergunta há tempos:
- Miles! Miles Davis - e seus olhos estavam tão esbugalhados quanto do trompetista. Sua boca estava aberta e sua mão segurava uma cerveja que quase escapava aos dedos de tão iluminado e encantado com a música que fervia do palco. Cara, ele é o maior de todos. O pessoal acha que ele não é bom performista solo, mas na minha opinião - indicando o dedo para o próprio coração, ele é o maior de todos os compositores de bebop. Ele consegue escrever uma peça para qualquer instrumento, tira no trompete e depois qualquer cara, um pouquinho só sintonizado, consegue fazer uma maravilha no piano, no sax, no contra. Putaquepariu, putaquepariu... e arregalando os olhos ainda mais,
Frank seguia babando ao meu lado.
Bom, chegou os anos 50 e tudo aquilo que o meu companheiro tinha falado se transformou na mais pura verdade. Miles era sim um dos gênios, talvez o mais ingênuo e tímido dos gênios. E na sua depressão eu acabei sendo um enviado de Deus para que ele pudesse continuar por ai. Salvei a vida de uma das maiores lendas da música moderna e uma espécie de santo iluminado do jazz. Naquele tempo, o cool jazz já tinha invadido o mundo e Miles, para variar, era um dos maiores orquestradores desse movimento que havia saído do oeste e sofria certo preconceito no leste, por ter brancos, como Chet Baker, fazendo sucesso.
Depois de um show em Birdland, alguém me chamou para ir ao camarim. Lá vi vários caras se espetando. E todo mundo em uma intensa viagem individual e egocêntrica. Eu nunca fui muito de curtir esse tipo de loucura, tinha medo de querer parar de beber e perder completamente o sentido da vida. Bom, mas todos estavam lá e, as mulheres e os sorrisos também. Tudo parecia como o no habitué: drogas, palavrões e putaria. De repente, saco que alguma coisa se contorce num dos cantos do lugar. E ele tem aquele cabelo alisado e é magrelo e está com a cabeça entre as pernas e soluça muito. Aponto o sujeito para um dos caras da banda e este me diz para que eu cuidasse da minha própria viagem, deixasse Miles em paz. Acho que os minutos a mais que dei para ele, tornaram-se cruciais para que sua pele ficasse tão branca que Miles já se parecia com um nórdico. Como ninguém queria ser importunado, eu mesmo tive que levá-lo dali e jogar nas escadas de um hospital. Durante o percurso, Miles tentou se comunicar comigo, olhou-me com seus olhos de cadáver e encontrou minha alma atormentada sendo santa. Não sei o que seria do mundo se aquele cara fosse para a melhor dali mesmo. Um sorte eu estar mais sóbrio do que eles naquela noite.
Bom, a lição de vida que posso tirar desse episódio é que não espero ser tratado dessa forma quando precisar de ajuda, pois não quero que ninguém fique me notando nos cantos dos lugares, muito menos que olhem nos meus olhos.

alt : http://www.youtube.com/v/GjZUFWPghaQ&hl=en&fs=1

...
Escrito por J D Oliveira em 16:53:18 | Link permanente | Comments (0) |

09/07/2008

Kerouac VERSUS Kahlo


 

Fui visitar Old Bull mais uma vez. Ele ainda morava nos arredores de México D.F. Na verdade, vivia em uma cidadezinha colada à capital chamada Coyoacán - um pouco menos urbana que o restante do Distrito Federal mexicano. Quando cheguei à rua do velho safado, percebi um clima bastante fúnebre. Algo havia acontecido que deixara uma angústia visível nas pessoas. O rosto de cada um que cruzava o meu caminho me deixava ainda mais curioso para saber o que tinha acabado com a alegria daquela gente. Nunca presenciará a vizinhança de Old Bull tão silenciosa. Crianças sempre rolavam la pelota, as mulheres cantavam felizes em seus tanques de roupa e os homens apostavam nos botecos. Todavia, dessa vez nenhum movimento sequer, apenas o barulho ensurdecedor do triste e solitário vento à bailar com as folhas ao chão. De repente me lembrei que talvez aquele dia pudesse ser algum dia santo. Os mexicanos daquele bairro eram católicos fervorosos e não deixariam de chorar silenciosamente a morte do Cristo ou de algum outro mártir de La Iglesia. Quem sabe eu não havia me esquecido de alguma data cristã e por isso aquela ausência de vida. Na hora me veio à cabeça a imagem de mi madre, la santa de Guadalupe. Para sanar qualquer dúvida, fiz o sinal da cruz e continuei a cortar o vazio das vielas simples e empoeiradas do México.
Toquei a campanhia uma única vez apenas, mas fiquei mais de dez minutos para ver a cara velha e inxada de Old Bull Gaines. Durante este tempo, tirei meu espírito para um diálogo franco sobre a morte. Esqueci de qualquer referência ao presente e não me reconheci sequer como um ser humano, perecível e infeliz. Imaginei o jardim celestial como um esforço da mente para continuar insistindo na idéia de existir. Já estava quase alcançando a iluminação quando um rosto bastante conhecido me trouxe de volta do transe. Seus olhos estavam bastante vermelhos, era como se ele estivesse chorando copiosamente a horas. Quando Gaines me viu, pareceu ter ficado ainda mais emocionado e abriu os braços pedindo algum tipo de afeto para a sua dor. Abraçou meu tronco com tanta força que realmente comecei a me preocupar, achei até que algum parente pudesse ter sucumbido e estava sendo velado ali mesmo, naquela sala podre e cheia de seringas usadas. Se não fosse isso, seria alguma coisa parecida.
- O que foi que aconteceu seu velho tarado? Pare de se comportar como uma freira.
Old bull feito uma criança, soluçava sem conseguir pronunciar qualquer palavra sã. Ao seu lado, El Índio, íntimo e fornecedor de heroína, também apareceu com as vistas lubrificadas:
- Jack, Jack, no hable assim con el Toro. Ele está muito, muito triste... ella morrio! E voltava os dois a chorar como bebês e se abraçavam e me davam as mãos.
Já estava ficando irritado com todo aquele dramalhão de rádio. Ambos viram a minha confusão e logo me pediram para entrar na casa. Estava louco por uma explicação e quase voltando para Nova Iorque de tão puto. Gaines se recuperou e com a voz ainda embargada pode me explicar toda aquela cena. A delegación de Coyoacán estava completamente arrasada pela misteriosa morte de sua mais majestosa dama. A dona da Casa Azul, Frida Kahlo estava morta e ninguém podia fazer nada. Old Bull já havia me dito uma vez que quando se mudou para o México, na verdade, procurava estar perto de Kahlo. Ele acompanhará suas exposições há muitos anos e ficou completamente apaixonado pela artista. Não duvido de isso ser o real, afinal ele sempre tinha impulsos loucos e compulsivos, não me surpreenderia que tivesse algum plano para seduzi-la.
Na última vez em que eu o tinha visitado, ele me contara de suas tentativas de aproxiamação com la mujer mas caliente del Mexico. Quando conseguiu me mostrar quem era a mulher que havia feito ele viajar 5 mil quilômetros, fiquei completamente pasmo com o quanto feia era aquela figura. Entretanto, quando pude me aproximar e ouvir sua voz, talvez possa ter entendido por que ele tinha se apaixonado por tão estranha estética. Era forte e decidida. Quando a encontramos, dava uma aula de pintura em um dos pátios da escola. Mancava muito de uma das pernas e seus cabelos estavam quase todos grisalhos. Seu corpo se contorcia de forma antinatural, ainda assim sua sensualidade podia ser sentida de longe. Mesmo com um olhar masculino, a postura de seu corpo denotava uma fogo irresistível. Segurava sempre um cigarro entre os dedos e seus olhos permaneciam baixos como se estivesse antes olhando para dentro de si do que para qualquer coisa nesse mundo. Para completar, usava vários adereços que faziam aquela mulher se destacar como nenhuma outra. Vestia uma saia lindíssimas, com temas hispânicos. Na cabeça, flores e apetrechos. Nas mãos, um abanico flamenco para espantar o calor. Realmente, ela compunha uma verdadeira história em seu próprio corpo. E não foi diferente sua vida artística. Quando retornei à Nova Iorque naquele mesmo mês, pude ver algumas de suas obras e também, por que não, me senti apaixonado por aquela mulher, filha de um alemão com uma mestiça. Um achado da natureza que construíu sua obra em cima da própria angústia, dos próprios atropelos de seu corpo. Ainda hoje me recordo das últimas palavras deixadas por Frida em seu diário: "Espero que minha partida seja feliz, e espero nunca mais retornar- Frida".
Agora, não sei se choravam por sua morte ou pela forma como se foi. Talvez ela não possa ser mais uma santa, talvez, apenas uma mulher. E tomara Deus que não a coloque de volta neste mundo. Tomara Deus que eu possa encontrá-la no jardim onde os verdadeiros artistas planejam suas obras e constroem seus destinos. 
Escrito por J D Oliveira em 18:16:04 | Link permanente | Comments (0) |

26/06/2008

Kerouac VERSUS Monroe


Durante a guerra, muitas esposas ficaram expostas aos garanhões alheios. Na Califórnia, centenas de comunidades tinham na força feminina a principal potência de trabalho. Neal não tinha muito critério para escolher suas vítimas, era um verdadeiro safado que adorava se lambuzar com louras, pretas, branquelas e tudo mais que aparecesse na frente do seu tesão. Todavia a maior de todas, ou melhor, a mais deslunbrante e encantadora de todas esfacelou o coraçãozinho do rapaz e ainda veio correndo para o meu lado.
Estávamos descendo de Cisco e paramos em uma dessas cidadezinhas com operárias trabalhando no lugar de homens. A época era dura e quem não estivesse na lide podia muito bem ser acusada de antipatriota. Já era bem tarde, entramos numa bodega e pedimos um whisky. A noite parecia prometer, a música nem era tão boa, mas o lugar estava infestado de xoxotas. Ficamos um pouco espantados, mas logo logo nos informaram do fato: depois de dias de muita dureza, finalmente, as moças foram dispensadas do serviço. Uma espécie de folga coletiva. Aquelas que respeitavam seus esposos-guerreiros, foram para casa; as que ainda tinham algum fogo para gastar, estavam ali.
Norma Jean era uma morena com um baita trazeiro e uma voz alucinada que fazia qualquer um ficar de quatro. Neal não se segurou muito tempo no lugar e foi logo enviando uma dose para a garota. Sem pensar muito, ela acabou se sentando conosco. Diferente da maioria, Jean fumava como uma chaminé e adorava falar besteiras. Era de Los Angeles e havia se casado há pouco tempo com um cara que fora mandado para o Pacífico Sul. Sentia saudades do rapaz, mas também gostava da liberdade que tinha adquirido em Burbank. Não é lá uma maravilha para uma garota casada e cheia de disposição, mas pelo menos a gente pode rir com esses caipiras, dizia ela em meio ao álcool e sorrisos.
Neal escorregava suas pernas para encostar nos belos pares de coxa de Jean, mas a menina não parecia muito satisfeita com aquela iniciativa. Fugia a todo momento das persguições e indagações maliciosas do meu camarada. Eu, na minha, continuava a observá-la em toda a sua volúpia.
- Sabe, Jack - disse se apoximando perigosamente da minha boca, recebi uma proposta para tirar umas fotos, o que você acha? Será que eu tenho chances...
Constrangido e louco de tesão, verifiquei se Neal ainda estava no banheiro e mandei uma direta para Norman:
- Garota, eu não te conheço, não sei de quem é o nome que esta na sua aliança, mas juro que você é a mais indicada para ser escolhida. Aliás, se você quiser fazer um ensaio só para mim e meu amigo, tenho certeza que iremos aprovar ainda mais a idéia de você virar modelo.
Seu riso não foi nem um pouco perigoso. Pelo contrário, promissor. Ainda assim, fechou sua feição, deixando-me ainda mais envergonhado com o que dissera. Quando meu chapa voltou, ela estava para iniciar sua resposta, interrompeu o raciocínio, mas não deixou de dar o seu recado:
- Ei, cawboy, olhou diretamente para meus olhos, mas estava falando com ele, por que você não pega mais umas doses no balcão, tenho algumas coisinhas para falar com o seu amigo Jack.
Sem entender nada, Neal abriu os braços e voltou seu passo para o balcão da espelunca. Meu rosto devia estar no mais alto grau de vermelhidão, pois sentia muito calor naquele momento. Não só pela garota, mas também pelo meu parceiro que iria passar a noite sentindo frio, enquanto eu me aqueceria com aquela beldade. Bom, seria assim se não fosse pela briga que o barman arrumou com ele. Acho que já estava desconfiando da coisa e não quis sair dali derrotado. Sabia que eu entraria em qualquer uma por ele e claro, qualquer briga afastaria a garota da gente.
Não deu outra, fomos escurraçados do lugar com vários ferimentos e Norman Jean não se prestou nem para nos ajudar com os corativos. Continuou no bar e deu as costas para os dois estranhos. Na mesma noite, ainda tive tempo para sonhar com aquela mulher. Entretanto, no sonho, algo me intrigou de verdade. Ao invés de estar com os cabelos negros, Norman Jean estava completamente loura, ainda mais ardente e sedutora. Nunca mais esqueci aquela noite, principalmente a parte em que eu não estava acordado.
Escrito por J D Oliveira em 16:35:44 | Link permanente | Comments (0) |

15/06/2008

Kerouac VERSUS Kerouac


Havia sim uma clara distinção entre brancos e negros naquele tempo. Eles não se esbarravam. Uma pena, por que nós, malditos, aproveitávamos dos dois lados. De um a maravilha ritmada, sensual e alegre, de outro, a polícia, pois ela acabava sendo sempre condescendente quando tinha um branquelo no meio, ou vários - aí então que eles nem mexiam com os pretos. É claro que às vezes tinha o nazi, aquele homem da lei que acha que ser policial é ensinar boas regras. Isso ele faz é com as putas dele. Dar lição de moral e patriotismo às três horas da manhã. "Sim, nós somos o futuro desse país". "Sim, fomos contaminados por outra gente". Sei, sei “galinha que acompanha pato” ... e era esse o discurso do homem da lei. Uma bobagem histórica.
Neal e eu acostumávamos a ser os únicos brancos em eventos de negros. Muitos daqueles negões fechavam a cara para a gente, mas ele nem ligava. Adorava estar abraçado a uma cintura negra e rotunda. Eu sempre preferi as mestiças. Ora índias e negras, ora latinas, mexicanas. Cultivava um pouco pelo gosto europeu, mesmo que não estivesse aparente, gostava de adivinhar as ascendências pelos traços faciais. Teve uma época em que achei que seria capaz de diferenciar índios americanos, mexicanos, brasileiros e latinos. Colecionava fotos de aborígines de todo o mundo, mas isso não me garantia nenhum PhD na área fisionômica. Nossa cultura manda a gente achar todos parecidos e é nisso que a mente está metida, num imenso padrão repetitivo e alienante.
Pelo jeito, era todo um problema de origem. Nasci em meio ao catolicismo, muito mais do que americano ou canadense. Meu quarto avô, Louis Kerouac, era um bretão, da região situada na França. Ainda novo, veio à América crendo estar vindo para o paraíso. E isso ficou em mim. Eu cria realmente que aqui pudesse ser o lugar onde Deus reuniria todas as pessoas que iriam para o Jardim do Éden. Entretanto, na minha concepção, os Campos Elíseos seriam homogêneos, sem qualquer distinção de pele, raça, etnia ou religião. Fiquei assustado quando descobri que nessa terra, aquilo que estiver fora do que eles chamam de “direito” é sumariamente excluído. Se estiver num lugar negro, o branco é submetido, se estiver num bairro irlandês, judeu, italiano, porto-riquenho, chinês, mexicano, todo mundo acaba sendo submisso ao maioral do lugar, à cultura da região. Sempre tem um tipo de gente que é mais violenta, leal, honesta, mal-caráter. E isso é em qualquer lugar, não é do povo tal ou tal, é endêmico de nossa espécie. E isso é uma verdade que os jornais e os escritores tentam destruir, induzindo muita gente a crer num padrão para cada povo. E é assim que é. No céu ou no inferno todo mundo vai acabar encontrando o seu grupinho, mas depois de um tempo eles descobrem que não existe qualquer distinção entre um e outro. Seja na horizontal (entre nós aqui do meio) ou mesmo, na vertical (do céu para o inferno e deste para o céu) qualquer relação de grau é supérflua. Só vale na cabeça de quem está vivendo esse clima. Na verdade, quando a experiência aperta e a angústia bate, ninguém tem corpo, ninguém tem origem. Todo mundo habita a realidade e isso já basta para ser uma verdadeira desgraça, independente de qualquer outro detalhe.




Escrito por J D Oliveira em 15:30:00 | Link permanente | Comments (0) |

02/06/2008

Kerouac VERSUS Lennon


Em 62, fazia uma viagem pela Europa, mais especificamente por Hamburgo na Alemanha Ocidental. Numa noite "daquelas", encontrei um sujeito que iria se tornar muito famoso pouco tempo depois. Ele tinha uma dessas bandas que perverteram o bebop. Só guitarra, só guitarra. Apesar dessa tristeza, minha dor podia reconhecer que aquele mundo infeliz dos anos 60 precisava mesmo daquele tipo de imbecilidade estridente. Tomamos nossas coisas e ficamos alto. Disse a ele que todo mundo que fizesse sucesso nestes anos de transformação iria perecer, que tudo acabaria num piscar de olhos. Nada iria durar, por que nesse mundo tudo é impermanente e o que estavam fazendo com as coisas de verdade era completamente ridículo. E que muitos, como eu e como ele, viriam para acelerar essa maldita transformação, e todos nós iríamos ter que enfrentar os nossos deuses (e demônios) pessoais, pois a vontade seria a de voltar correndo para o bom e velho paraíso de onde a gente não deveria nunca ter saído. Acho que ele não ficou muito assustado, seus olhos brilhavam (claro!), mas não era um brilho totalmente artificial, senti mesmo que aquele papo tinha um quê de iluminado, uma legítima conversa beatificada - algo que há muito tempo não conseguia ter nem com um gato, quem diria com um macaco falante. Todavia...
Alguns meses depois, em Nova York, recebo um telegrama que dizia: "Você fodeu a minha vida. Agora não tem mais volta. Shiva domina a minha alma e a única coisa que eu posso fazer é seguir seus conselhos. Até agora não sei se estes conselhos são os seus ou os dela."
Fiquei um pouco atônito com aquela correspondência inesperada. Não que ninguém nunca tivesse me escrito dizendo o quanto eu havia transformado sua vida, o quanto eu tinha a libertado das mentiras hipócritas da sociedade e como meus livros tinham dado liberdade e sentido aos seus atos e toda aquela baboseira que a gente sempre ouve por ai. O lance é que nunca havia lido alguém tão consciente de sua própria missão em tão pouco espaço. Ele sabia quanto seria dolorosa sua existência e a dor era para todos. Eu sabia que ali por trás havia realmente uma alma beat.
O que mais me surpreendeu é que meia hora depois, um outro telegrama chegou para mim. Nesse vinha assinatura e endereço de envio. "Saí da minha vida besta na beira do cais e hoje sou um soldado da luz, beatificado pela vibração da minha luta e eternamente condenado a sentir a dor das pessoas sob os meus olhos. L, J. Seviço de mensagens Mirrage Hotel, NY. 8 de fevereiro de 1964". Bom, o jeito era esperar mais um pouco e ver se outra carta chegaria. Claro que não chegou. No dia seguinte, liguei a TV e aquele mesmo sujeito que eu havia encontrado em Hamburgo estava sob a luz dos holofotes, com uma guitarra em punho e cantando sobre o amor para um monte de meninas histéricas, loucas para tirarem suas roupas de baixo gigantescas e ficarem a vontade. Não aguentavam mais serem como suas avós e não queriam que suas filhas tivessem mães como as delas, muito menos pensavam em maridos como seus pais.
Vi todo aquele sucesso que o acompanhava como algo que já havia me perseguido. De certa forma sentia em mim uma angústia por conseguir perceber com exatidão a dor que viria a seguir, com a decadência. Quando um beatificado percebe que o barco em que navega não está sob o seu controle, a angústia da alma assola a sua vida e todo o colorido da existência se transforma em meras cenas do pretérito. Os corpos, o sorriso, a loucura e a alegria da juventude, tudo estava sendo recriado novamente através de acordes e comportamentos alucinados. A alma do mundo estava se mudando da pior forma e eu, como ele, tínha servido de fantoche para muita gente infeliz que só via resultado na fama, no dinheiro e no poder. Uma pena. A única coisa que eu gostaria de poder ter dito àquele garoto é que realmente amanhã nunca se sabe. Por isso, qualquer glória ou honra dada nesse mundo é como a espuma do mar, é inconstante, impermanente, aparece, desaparece. A vida na verdade, é outra história. Não essa que insistem em contar todos os dias, não essa que nos encanta e nos faz sorrir com os produtos da vitrine, não essa que fingem nos oferecer recheada de morangos mofados de luxúria e hipocrisia.
Pouco tempo depois, no auge da fama de Lennon e seus amiguinhos, Neal me veio com uma teoria. O velho maldito me disse certa noite quando estava bêbado como um gambá: cara, eles roubaram a nossa vida, roubaram nossa música e para piorar, além de pegarem todas as mulheres que ainda nos sobravam, usam o nosso nome. Eu apenas sorri e pude compreender por um instante que Neal não estava certo ou errado. A questão é que nós éramos apenas o meio. A energia Beat dos santos sagrados passou por nós e colou neles. Agora era a vez dos Beatles contribuírem antropofagicamente como oferenda para Shiva, o deus mor da renovação/destruição. Eram eles os verdadeiros beatos daquele momento. Mas até quando conseguiriam oferecer a outra face? Até quando...








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Escrito por J D Oliveira em 16:48:06 | Link permanente | Comments (2) |

23/05/2008

Kerouac VERSUS Huxley


Era um típico cair da noite em Santa Mônica. Tinha acabado de deixar Frisco e iria encontrar Allan em uma conferência sobre literatura do pós-guerra.  Naquela época a costa oeste inteira queria saber se existiria ou não uma nova geração de escritores americanos que poderia substituir a altura caras como London, Hemingway e Wolfe. Antes de ir correndo para o hotel - os Reds Sox seriam transmitidos ao vivo pela TV, passei em um supermercado para comprar uma garrafa e algumas latas de conserva. De repente olho para o lado e dou de cara com um homem de seus 60 anos observando admirado a reação de algumas pessoas. Era um pouco surreal ver aquele coroa com seus olhos de coruja mirando e anotando mentalmente suas considerações a partir das ações dos que ali estavam consumindo. Ele pareceu não dar conta de quem além de observador, estava sendo observado. Achei aquilo bastante engraçado e sai pela porta rindo. Ainda tive no pensamento que aquele sujeito parecia chapado, como se tivesse tomado alguma coisa e estava se divertindo naquele zoológico.
Anos mais tarde, vi o mesmo cara dando entrevista para um jornal de Nova York. Eu sabia que alguma coisa nele tinha me chamado a atenção, muito mais que aquela paranóia de ficar vigiando as pessoas e chegando a conclusões alucinadas na própria mente. Ele era nada mais, nada menos que Aldous Huxley, um dos melhores romancistas que eu já havia lido na vida e que tinha uma visão muito interessante sobre as coisas. No texto, o repórter dizia sobre as pesquisas que o autor realizou para escrever um dos seus últimos textos - As portas da percepção, que não era um romance, mas sim, um ensaio sobre os efeitos da mescalina e a profundidade que a mente poderia alcançar sob o efeito desse tipo de droga. Um dos métodos utilizados por Huxley para poder concluir sua obra foi ele próprio experimentar mescal e sair a campo. Um dos seus objetos preferidos era o consumo e o consumidor. O escritor tomava a droga e sob o efeito, ía a locais públicos observar a reação das pessoas diante as compras. Quando li isso dei uma baita risada sozinho e deduzi que indiretamente participei de sua pesquisa, mas digamos, de um outro ponto de vista.
Naquela mesma época fiz uma viagem para o México e acabei tendo contato - outra vez - com o peyote, a substância sagrada dos Astecas que levam o indivíduo a conhecer os seus deuses interiores. Não fui o mais drogado da minha geração, até porque sempre gostei muito mais de fumar uma bagana do que tomar picos. O pessoal era muito obsessivo com o pó marrom e isso me espantava um pouco, me deixava com certo receio de cair naquele clima de limbo e desespero que era típico da casa de adictos. Nunca me dei muito bem com as viagens de heroína, cheguei a passar mal nas vezes que tentei encarar os efeitos da papoula. No deserto, sob o efeito da mescal, vivi as alucinações mais transtornantes que já havia tido. Em um encontro místico, pude conhecer o meu próprio avatar e reconheci algumas partes da minha subjetividade que ficavam escondidas debaixo dos meus maiores recalques.
De súbito, comecei a pensar sobre como seria a vida na França na época da Revolução. Uma raiva incontida tomou conta do meu espírito e eu sentia meu ódio caminhar com minhas pernas para Versailles. Segurava uma tocha nas mãos e tinha verdadeiro ímpito para botar aquele château pelos ares. Mas alguma coisa me disse que depois disso acabei me arrependendo de alguns atos e passei a ficar um tanto decepcionado com aquilo que eu mesmo havia ajudado a destruir/construir. Talvez meu espírito tivesse imaginado outros rumos para aquela revolução e isso abriu uma profunda ferida na minha alma. O ocaso de qualquer período histórico depende das ações de uma maioria levada por uma cúpula, que em suma é muito mais individualista e gananciosa. Por sorte, um coiote atravessou o deserto e dispersou minha imaginação para uma outra época, ainda na França, ainda em um período extremamente conturbado.
Meus olhos sentiam o odor podre de Paris na manhã seguinte da Noite de São Bartolomeu. Entretanto, alguma coisa não estava certa naquela sensação. Eu mesmo me via como um cadáver ao lado de milhares outros estirados pelos cantos da cidade. Eu estava imobilizado dentro da carne que se decompunha e o desespero vivido na noite anterior vagava sobre a minha mente. A cena do meu próprio assassinato invadia as minhas lembranças trazendo rancor. Fora apunhalado pelas costas por alguém que provavelmente nem conhecia. Alguém que apenas queria se livrar da minha imagem e fez isso como faria a um porco. De repente, milhares de vultos começaram a se levantar daqueles corpos e o zumbido da dor parecia continuar mesmo depois da morte. Com certa dificuldade, também me levantei da carne e com o passo trôpego tentei me afastar de tudo aquilo. Assim que tomei direção a um feixe de luz que transpunha a realidade, fui novamente transportado para o deserto.
Nunca mais tive qualquer vontade de poder experenciar aquelas sensações horríveis de fracasso. Quando vi Huxley naquele supermercado, algo despertou dentro de mim uma sensação de que o passado e o presente coabitam e que realmente, a divisão temporal não passa de uma ilusão que ocupa a alma enquanto tentamos nos descobrir. O México para o escritor britânico também tinha seu sentido de descoberta. Foi por ali que Bernard conseguiu visualizar a própria existência e entender que a sociedade em que vivia era apenas mais uma das milhares de possibilidades que poderiam acontecer. Uma civilização inteira pautada na organização e no controle foi sutilmente abalada pela penetração viral de um selvagem que trouxe em si a pureza e o lirismo de humanidade que faltava a toda aquela formalidade de Londres do terceiro século da Era Fordista. O admirável mundo novo não são as coisas, mas sim, as pessoas e seu espírito. Por isso, qualquer um que tentasse enxergar pelos próprios olhos poderia entender o quanto a liberdade do pensamento era a grande resposta. A ação corporal seria apenas o desenho dado pela alma aos desejos. Por isso um pensamento em névoas poderia ser o deserto necessário para as piores barbáries possíveis. Assim foi no velho continente do passado, assim o é no novo mundo do presente.

Escrito por J D Oliveira em 22:47:45 | Link permanente | Comments (0) |

11/05/2008

Kerouac VERSUS Warhol


E lá vinha aquela bichinha em seus passos trôpegos, seu cabelo pousando no meio da cara e sua boca enrugada feito um cu. E caminhava como uma dama ou mesmo uma rainha. Seu olhar fundou o blazé na América.
E lá vinha aquela bichinha com uma polaroid na mão.
- Oi, bonitão! – disse abrindo aquela boca cheia de dentes feios e quase podres. Fiz cara fechada, mas foi impossível não responder. O que você quer? Muitas coisas! Respondeu sorrindo ainda mais. Franzi a testa e perdi um pouco da minha paciência. Eu já tinha tomado algumas e as papas não estavam na língua mais.
- Sabe Andy, eu até gosto de você – seu sorriso aumentou de tal maneira que ouvi até um uivo vindo de sua garganta. Principalmente, longe de mim!
Não pude agüentar aquele bafo escroto, dei um empurrão nele e sai para o balcão. Nem olhei pra trás. Depois me disseram que ele ficou uns bons dez minutos me olhando com ódio, como se fosse querer me matar. Eu nem me importei, muito menos a garrafa de whisky que estava me acompanhando. A manhã chegou, eu fechei os olhos e nem lembrei mais do caso.polaroid de si mesmo - andy warhol
O problema foi que a bicha parece ter ficado ofendida e começou a queimar meu filme em Nova York. Primeiro , ligou para uns caras da editora e pediu para não publicarem a reedição de On the road. Não sei de onde ele tirou poder e cara de pau para tanto. O foda era que ele sabia de muitas coisas e por isso tinha meio mundo em suas mãos. Apesar dessa tentativa, eu consegui ser mais influente do que ele e a edição finalmente saiu.
E ele tentou mais algumas vezes, de outros modos, acabar comigo. Até que, finalmente, no outono de 1962 eu recebo um convite para uma vernissage num endereço louco entre a primeira e a segunda avenida – pouco depois o lugar ficou conhecido. O que parece é que Warhol queria é que eu fosse o seu debbut naquele lugar - o prato principal de sua sandice. Quis armar para cima de mim.
Fui para o lugar com o pé atrás, mas alguma coisa me intuía para comparecer ao local. Tomei um baita susto quando vi que era um armazém abandonado e que ficava no meio do nada. No portão havia uma seta apontando para uma pequena porta e sobre a seta, uma frase bem sugestiva: “entrada para Jacks”. Ri da piada e me senti até meio lisonjeado. Entrei. O lugar estava escuro, mas tinha um cheiro incrível de flores e um barulho de engrenagens ao fundo, parecia que quando as luzes fossem acesas iriam ter ali uma quantidade enorme de abelhas catando mel.
Dei meus primeiros passos e de repente ouço um estalo, são as luzes. Elas se acendem aos poucos e percebo que não existe qualquer sinal de flores ou algo assim. Odores sem flores, nem abelhas zumbidos. Na hora eu até pensei que estava sonhando. Para minha surpresa, um anão pelado - apenas usando uma gravata borboleta, saiu de não sei onde e veio em minha direção com uma bandeja. Nela havia um copo com água. Quando o pequeno ser bizarro chegou até mim, percebi um bilhete sobre o metal da bandeja. É para o senhor, cortesia de meu mestre. Agora, eu tinha certeza que estava em um pesadelo. Retirei o bilhete e percebi que ele estava sobre uma foto. Era uma polaroid e estava virada de cabeça para baixo.
Abri o papel e li: “Jack, você nunca mais vai deixar de ser o Jack beberrão. Eu ainda SEREI e vou ver enterrarem você sem qualquer honra. Aproveite enquanto eles ainda te toleram e beba este veneno que eu mesmo preparei para você. Quem sabe, eles te mandem flores ou façam até uma placa. Com amor, Andie!”
Todos os demônios da China medieval vieram ao meu encontro me dando vontade de acabar com o pouco de vida que havia naquele corpo de anão. Mas eu sabia que ele era apenas o emissário e que seu “mestre”, devia estar escondido em algum lugar rindo da minha cara. Amassei e isolei aquele bilhete ridículo. Apertei o passo e já estava saindo quando escutei algo zunindo atrás de mim. Era a porra do anão com a foto na mão. “Joga isso fora pequena pérola do oriente. E manda o seu mestre ir dar a bunda pro elefante, vai ver assim ele aprende a ser alguém nessa vida!” Ele continuou exalando alguns sons e não sei por que, fui pegar a tal da foto. Só lamento Andy, só lamento.

Escrito por J D Oliveira em 00:00:00 | Link permanente | Comments (0) |

30/04/2008

Kerouac VERSUS Camus

Acordo assustado na cabine do navio. Olho pela escotilha e vejo que já estamos próximos ao porto de Tanger. Ao fundo, milhares de construções nos esperam ansiosas pelos nossos desejos do mar. Sinto meu corpo molhado de suor e abandono aquela imagem. O quarto escuro me traz de volta ao sonho que acabara de me acordar. Estou em Lowell, mas meus pais se mudaram para Ozone Park. De repente o telefone toca e do outro lado da linha, meu pai tem uma voz fúnebre. Não me sinto preocupado com o estado emocional de sua fala e apenas o escuto em seu lamento: “ J, sua mãe morreu. O enterro é amanhã. Se puder, venha para cá”. Respondo apenas “sim” e desligo o aparelho. Como estou com muito sono, volto para meu divã e lá adormeço. A noite passa e na manhã seguinte Lucian Carr aparece na porta da minha casa. Ele me cumprimenta com pesar, mas mesmo assim, nada abala minha vontade. Chego a esquecer do porque daqueles gestos. “É, ela se foi. As coisas são dessa forma nesse lugar”, digo saindo pela porta. Carr insiste e me interroga sobre o por que de não estar triste por aquilo. Não consigo dizer, apenas sinto uma total indiferença pelo desaparecimento de “Gabrielle Kerouac”. 

Agora ao me lembrar disso, me assusto. Já não via em meu espírito qualquer vestígio materno, mesmo estando neste momento, fora do sonho, dentro de um navio e sabendo que minha mãe está viva em algum lugar do outro lado do mundo. Todavia as lembranças oníricas prosseguem atormentando a minha vigília. “Lucian, qual é mesmo o seu problema?” É o puto do árabe, responde. Ele está louco atrás de mim, quer as minhas bolas de qualquer forma e não sei o que fazer. Fique tranqüilo, amenizo. Amanhã resolveremos o seu problema.

O sonho prossegue em uma louca viagem na qual deixamos Lowell e rapidamente chegamos a um cemitério em algum lugar de Nova York. Lucian me aponta o sujeito, ele vem em nossa direção. Seus olhos estão marcados pelo ódio, mas parecem ao mesmo tempo, apaixonados por Carr. Eu me afasto, os dois conversam em particular. O árabe tenta enfiar a mão nas calças do meu amigo, este evita e o golpeia na fronte. Um intenso nevoeiro nos prende em uma redoma. Desespero-me em meio aquela cegueira e tateio o chão tentando encontrar algo para apoiar. Sinto uma arma, um revólver. Empunho a coisa e armo o gatilho. Nas mãos do árabe, uma faca dança no ar. O vento frio corta o meu pensamento e força meu dedo que, sem trégua, acerta o peito do homem. Ele agoniza, mas sinto-me potente o suficiente para despejar-lhe outros quatro disparos. Lucian Carr se aproxima de mim e segura meu braço. Seu toque se torna diferente, mais suave. Sinto um cheiro conhecido, parece um perfume. Olho para o lado, ao invés de Carr, quem me segura é minha mãe. Ela já não está morta, mas seu odor, antes um perfume se transforma em algo altamente podre, como que em decomposição. Tento me desvencilhar de sua posse, mas não consigo. Ela mira meus olhos com seus olhos de cadáver e diz com a voz do próprio Lucian Carr: “Sua sentença será de acordo com a indiferença pela morte de sua mãe. Você será condenado ao inferno e assim como este árabe, seguirá sua eternidade agonizando por sua inexpressiva existência”. Foi exatamente neste instante em que eu acordei completamente assustado com tudo aquilo.

Na manhã seguinte, já em terra firme, tenho um encontro marcado com um agente que pretende publicar meus textos na Europa. Seu nome é Maurice e parece um sujeito interessante. Ainda atormentado pelo sonho, não me concentro em nossa conversa. Tenho uma louca vontade em reparar um erro. Ele me convida para uma festa em sua cobertura de frente para o mar. Recuso a oferta e perco a oportunidade de me tornar alguém conhecido no velho continente, deixo para o futuro qualquer julgamento, tanto sobre minha mãe, quanto sobre livros ou assassinatos.

 

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Escrito por J D Oliveira em 16:28:31 | Link permanente | Comments (0) |