Bill ficou muito vidrado no que viu abaixo do Equador. Ele me mandou cartas e mais cartas da América do Sul. De certa forma, eu tenho uma consideração a fazer a essa parte do globo: algo ali me excita de verdade, é um paraíso almadiçoado, um lugar de perdição ingênua, mas letal. Uma coisa que me fascina é certa devoção que também sempre tive ao Cristo. Há uma tristeza no rosto da índia que imagina seu Jesus cabloco, mas de olho azul. Bill conta que os americanos são parâmetro para qualquer coisa. Nós engolimos alguns resquícios da sociedade espanhola decadente das capitais. Eles nos adoram como ídolos, finalidade de suas vidinhas riquinhas com uma história de lutas injustas regadas a sangue nativo.
Todavia nem é tanto desta parte da América Latina que “algo mais” toca o meu espírito. Tenho medo, pavor, horror, pânico de pensar solto em meio às terras quentes do Brasil. Por sorte, houve uma alma que resolveu acalmar meus tremores. E fez mais: recordou um fato que havia gerado um dos fatos mais impactantes de minha vida logo após O Livro.
Primeiro por este, depois por aquele.
Era verão e ainda não havia se passado nem um ano desde a fatídica resenha no NYT. O mundo havia girado no fundo de várias garrafas e eu, a cada semana, me transformava cada vez mais em um traste. Acho que o erro sempre foi não ter percebido que eu já estava velho para aquilo tudo. Pois bem, eu só queria que o tempo passasse de forma suave e intensa, um paradoxo perfeito para quando a fama abocanha o seu rabo. Naquelas últimas três noites eu, All e os rapazes ficamos nos dividindo entre vários pulgueiros de Nova York. Em uma das manhãs, alguém apareceu com uma Kodak e congelou na história o momento em que os beatniks foram pegos a luz do dia. Mal sabiam eles que o sol era tão artificial quanto a lua naquele momento. Exatamente naquela hora, qualquer coisa era contínua com a noite, nada além disso. A luz seria uma alegoria para a verdade oscura.
Mal sabia distinguir qual era o direito ou o esquerdo. Mesmo assim, fui amparado por anjos até o portão de casa. Deitei no algodão como se entrasse num saco de feno confortável. As nuvens foram transformando o ambiente e logo ocupava a divisão onírica da vida. Obviamente, meu estado mental ainda andava intoxicado e as cenas do sonho não foram outras quantas as que narravam o martírio do próprio Cristo. Minha culpa por deteriorar a carcaça agraciada por Deus ao meu espírito, me trouxe um resultado dos mais angustiantes dentro do sensorial mundo de Morpheus. Queria logo que a epopéia desconsertada dos meus erros marchassem pela minha cabeça. Porém, ao invés dos tanques do abutre, meu mundo de sofrimentos é acossado por um moleque atirando pedras em minha vidraça. Acordei gritando filho da puta, mas antes de terminar minha oração, Deus puniu meu ser me enviando uma dor de cabeça aguda e pronfunda. Fui ver o que era com o gosto do sangue na boca, queria canibalizar quem me tornara tão pesado naquela noite. “Senhor Jack, Jack…” VAI EMBORA FILHO DUMA … ai ai Aihhhh!!! “Esta acontecendo alguma coisa ai, senhor Jack”, insistia o pentelho, agora preocupado com a minha saúde. “Senhor Jack quer que eu chame uma ambulância?”. Não, não, disse. O que você quer? ” Estou indo embora para minha casa amanhã. Sou de muito longe e li o seu livro nestas férias. Não poderia voltar para São Paulo sem ver a sua cara”. Então você bateu na minha janela, está gritando na porta da minha casa só para ver a porra dos meus olhos azuis. Você é uma bicha, sai do meu quintal! “Calma, pelo menos autografa o meu livro… quer dizer, o seu?” Ok, vou descer.
E ai acabou que ficamos conversando e ainda eram 9 da noite. Meus ânimos pareciam ter voltado e agora eu já queria levar o rapaz para uma noite especial na capital do mundo. Ele me disse que seu nome era Guilherme e havia vindo à NY visitar um parente. No dia seguinte, voltaria para o Brasil, onde cursa algo parecido com a High School. Guilherme estava bastante apreensivo, falava o tempo todo em uma partida de futebol, mas não como o nosso e sim, o dos ingleses afrescurados. “Jack, amanhã é a final do campeonato mundial. O Brasil tem um time formado por gente de toda cor, muitos são misturadíssimos. E o pior é que as principais estrelas, as que estão despontando nos jogos são negras. E sabe aonde está sendo a Copa do Mundo, como é chamada?” Não, respondi desinteressado. “Na Suécia, Jack!” Ele tinha razão, como que pretos poderiam de novo superar os branquelões. Isso já tinha sido motivo para uma guerra!!!! Hitler não agüentou quando o negro fudido Jesse Owens venceu com folga os alvos da raça perfeita ariana e descontou balançando seu pintinho invadindo a Polônia.
Guilherme me convidou para ouvir a partida pelo rádio em uma estação da colônia italiana em Newark. Partimos para a cidade perdida e chegamos a uma espécie de rádio-pizzaria. Já eram 11 da manhã quando a bola rolou em Estocolmo. A narração era em um inglês britânico dos mais afrescurados, mas que incrivelmente dava muita emoção quando entendíamos que algo estava acontecendo. O estádio parecia vir a baixo e o locutor elevava o tom. No final das contas, Guilherme e os italianos comemoraram mais vezes do que xingaram o aparelho. O Brasil dos pretos ganhou o campeonato mundial e vi pessoas de outras partes do mundo deitarem lágrimas sobre o solo da América.
Por causa desta experiência, não fiquei assustado quando o senhor de óculos me perguntou se eu conhecia alguma coisa de “soccer”, como nós chamávamos o esporte, segundo ele. Pra mim sempre foi o futebol deles, talvez de maricas, mas tudo bem, nunca soccer. Apesar de não ter ligado o nome ao esporte, pelo sotaque carregado, logo vi de que esporte se tratava. Falei em francês (acho que aceitaria mais a minha fala assim): Como não, até ouvi o título mundial do Brasil em 58.
Cai nas graças do sujeito. Alguém muito importante e interessante, diga-se de passagem. Nos últimos meses tentei entender um pouco da sua literatura, mas imagino que deve ser a mesma dificuldade de encarar um Finnegans Wake sem ter o inglês como matéria-prima. Tinha sido diplomata e agora, como eu, esperava para fazer parte de um programa de TV francês. Nos apresentamos, ele me reconheceu, me parabenizando por Vagabundos e disse gostar bastante do ritmo de minha escrita. Fiquei curioso para saber como era a sua misteriosa e cativante terra. Explicou-me que poucos recursos haviam chegado ao país e que por isso, como o povo era bastante criativo, algumas alternativas foram construídas. Por exemplo, algumas cidades são em torno de florestas e por isso, um meio de transporte usual é o cipó. Dizia ele: “o pessoal sai do morro e vai para o centro descendo por cipós firmes, recolocados pela prefeitura em caso de qualquer defeito”. Contou que por lá, existia uma bebida mágica que transformava gente em um felino selvagem chamado “Onça”, como a medida.
É interessante como os nossos caminhos se cruzaram. O meu, a longa estrada empoeirada e a sua marginal, ele, um poeta, profeta reconhecido pela matemática de suas proposições completamente caóticas e Zen. O tal senhor Rosa escreveu sobre uma terceira margem, um terceiro lugar na travessia do rio. Na hora vi o velho jangadeiro de Sidarta, o fluxo em trânsito pelo meio, sem apoio nas margens, mas consistente em sua paciência e leveza sobre o rio. Um delírio sobre a própria angústia de viver a deriva entre os macacos falantes.
Cada um entrou no estúdio a sua hora. O momento de Rosa foi após o meu, mas como fui interpelado por algumas leitoras histéricas e beats da França, pudemos nos encontrar novamente no saguão da emissora. Ele me desejou o melhor possível em minha jornada literária e me convidou para passar alguns dias em sua aldeia. “Tem uma linda praia”, diria ele. OK, irei quando as coisas se estabilizarem, quem sabe quando eu mudar de vida e não precisar mais do mar alucinante da América, eu topo por lá. Não seria mal me transformar num gato selvagem.












Quando era menino e vivia perdido, vasculhando pensamentos e criando tormentos cotidianos, meu sonho era botar um lenço em volta do pescoço e desembarcar na árida Espanha. Meu pai prensava o jornal de Lowell e eu acompanhava a luta social espanhola de perto. Doía em mim cada baixa daqueles que buscavam, sobretudo, a liberdade e o crescimento pelas artes. Entretanto, aquela geração que estava perdida, encontrou nos conflitos externos a grande fuga do vazio existencial. Aqueles que realmente me fecundaram, que me deram o espírito, esses se deixaram envolver por orgias políticas e miseráveis, ignóbeis e sem qualquer teor de altruísmo. Eram adultos ateus, loucos pelo próprio umbigo e fervorosos/medrosos pelo silêncio da existência.
E depois de mim, quando o crepúsculo acompanhar este personagem bobo e falho, também virá alguém que irá olhar para trás e chamará a geração beat de um naco de merda perdida, que não pensavam na realidade da vida e apenas queria usufruir de seus prazeres. E estarão todos corretíssimos. Estou morrendo e morrendo velho, cansado, com pavor da vida e louco para chegar logo no inferno. A realidade da vida que evocam aí fora, não será e nunca foi a minha pulsão. Nos chamarão de vazios e era esse mesmo o nosso caminho. Éramos todos vazios e queríamos preencher todos os átomos da vida com alguma coisa que valesse a pena. Ficavam vários e vários idiotas tentando nos explicar das vantagens em se acumular, acumular, acumular. E depois, esses mesmos sujeitos nos pediam para gastar, gastar, gastar. Estavam todos induzidos, eram zumbis da cultura, queriam nossos dedos para eles. E depois dizem que nós é que estávamos fora da realidade. Até o filho da puta do Hemingway, que era um escritor, não teve cu para agüentar o tranco, era muita realidade ao mesmo tempo. De um lado o nosso dinheiro soberbo que te tenta convencer de que é racional e de que a única forma de se usar a razão é para ter dinheiro; de outro, um idealismo infantil e dois ou três que falavam a verdade e acreditavam na revolução. Seu dedo ficou duro, não deu conta.